A QUALIDADE DA PEDRA BRUTA DEFINE A ESTABILIDADE DA OBRA
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Por Jorge Antônio Vieira Gonçalves
Este texto é dedicado ao Irmão Lourival Mariano de Santana, cuja trajetória maçônica permanece como referência sólida e inspiradora.
A QUALIDADE DA PEDRA BRUTA DEFINE A ESTABILIDADE DA OBRA
"Entre todas as pedras que podem ser extraídas da pedreira, e aqui, simbolicamente, fala-se da sindicância, apenas algumas possuem, desde a origem, a qualidade necessária para sustentar a obra, e é nesse ato que se encontra o verdadeiro segredo maçônico".

Há algo curioso no modo como as informações atravessam o tempo. Elas não chegam intactas, como um fóssil de dinossauro. São modificadas, simplificadas, reorganizadas, por vezes lapidadas, como uma pedra. Façamos um experimento, talvez o mais simples à primeira vista. A forma como a Maçonaria contemporânea apresenta o simbolismo das pedras, especialmente aquilo que se conhece como Rough Ashlar (Pedra Bruta) e Perfect Ashlar (Pedra Polida), parece tratar-se de algo imemorial, imutável e conceitualmente definido desde suas origens. Essa impressão, contudo, não resiste ao confronto com as fontes bibliográficas mais antigas. O que se observa, ao retornar às fontes, é um vocabulário técnico ligado à prática da construção, no qual a qualidade da pedra determinava a estabilidade da obra.
Para compreender melhor, é necessário retornar à Inglaterra medieval, mais precisamente a Londres, no ano de 1356. Nesse contexto, um conflito entre dois grupos do ofício da construção em pedra, de um lado, os canteiros, responsáveis pelo corte e preparo, de outro, os assentadores, encarregados da fixação nas estruturas, deixou um dos registros mais antigos relacionados à organização do ofício. O documento relata que doze mestres compareceram perante o prefeito e os vereadores e estabeleceram regras para o exercício da atividade. Esse era o segredo maçônico da época: a regulamentação do ofício, pela qual apenas aqueles que demonstravam domínio técnico e habilidade comprovada eram reconhecidos e autorizados a exercer seu trabalho[1].
A palavra cantaria deriva do latim medieval cantaria e designa o ofício de talhar a pedra para uso em edificações. Na tradição inglesa, stone é um termo genérico que designa qualquer pedra, enquanto ashlar é um termo preciso que designa a pedra escolhida e adequada à construção, própria para integrar a estrutura. Trata-se da escolha correta da pedra em função de sua aplicação construtiva[2].
Nos rituais em inglês, utiliza-se o termo Ashlar, que designa a pedra própria para construção. A Rough Ashlar (Pedra Bruta ou Áspera) corresponde à pedra em estado bruto, tal como retirada da pedreira. A pedra bruta possui forma irregular, sem qualquer preparo, enquanto a pedra áspera já foi desbastada, adquirindo forma cúbica, porém ainda sem polimento. A Perfect Ashlar (Pedra Perfeita) designa a pedra preparada para uso na construção. Dependendo do ritual, essa pedra pode ser descrita como pedra cúbica, pedra polida ou pedra perfeita, sendo “pedra cúbica” a forma mais comum no meio maçônico brasileiro. Nos rituais antigos, a expressão “pedra perfeita” indica que a pedra foi polida e também apresenta a forma correta, com ângulos de 90 graus, estando apta ao uso na construção, pois uma pedra pode estar polida e, ainda assim, apresentar ângulos incorretos[3].
Existem outras pedras, como a pedra cúbica pontiaguda, um cubo com topo piramidal, que, conforme registros analisados por Harry Carr, é associada à Pedra Polida e descrita como uma pedra com pontas destinadas ao afiamento das ferramentas dos Companheiros. A pedra fundamental marca o início da edificação, sendo aqui apenas mencionada, pois será objeto de análise específica em outro artigo, no qual se abordará também, de forma detalhada, a razão de sua tradicional colocação no canto Nordeste, e a pedra angular, frequentemente associada à passagem bíblica “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (Salmos 118:22), é o elemento que realiza o travamento do arco, permitindo que todas as pedras passem a atuar em conjunto por compressão, isto é, sendo pressionadas umas contra as outras ao longo da curvatura até os apoios laterais. Sua função não é suportar cargas isoladamente, mas assegurar o fechamento do arco e transmitir as cargas ao longo da curvatura até os apoios. Sem a pedra angular, o arco inteiro colapsa, pois não consegue estabelecer o equilíbrio entre as componentes horizontais, que se anulam, e as verticais, que sustentam o peso[4].
Avançando para a Escócia, no ano de 1696, o manuscrito conhecido como Edinburgh Register House Manuscript apresenta o seguinte registro:
“Are there any jewels in your lodge? Yes, three, Perpend Esler, a square pavement and a broad ovall.”
Tradução: “Há alguma joia na sua Loja? Sim, três: Perpend Esler (pedra utilizada para estabilidade da estrutura, termo que aqui se prefere não traduzir), um pavimento quadrado e broad ovall (termo de interpretação incerta, cuja natureza permanece debatida na literatura especializada).”
Nesse documento, não há qualquer menção à Rough Ashlar (Pedra Bruta) nem à Perfect Ashlar (Pedra Polida), sendo as joias descritas pertencentes a um vocabulário predominantemente operativo[5].
Algumas décadas depois, em 1730, com a publicação de Masonry Dissected, atribuído a Samuel Prichard, tem-se uma referência documental de grande relevância que, embora de caráter espúrio, possui valor histórico. Nesse texto, encontra-se a seguinte formulação:
“What are the immovable jewels? The Tracing Board, Rough Ashlar and Broach’d Thurnel.”
Tradução: “Quais são as joias fixas? A Prancha de Traçar, a Rough Ashlar (Pedra Bruta) e o Broach’d Thurnel (termo técnico de difícil tradução, que Prichard interpreta como uma segunda pedra, distinta de uma ferramenta de pedreiro, constituindo possivelmente o registro mais antigo que permite deduzir a presença de duas pedras na Loja, conforme observado por Harry Carr).”
É nesse documento que se observa, de forma textual, a presença da Rough Ashlar (Pedra Bruta) no vocabulário maçônico[6].
Em 1760, com a publicação de Three Distinct Knocks, documento associado à tradição dos Antigos, observa-se a manutenção do modelo catequético estruturado em perguntas e respostas. Contudo, na edição analisada, não se identifica qualquer referência à Rough Ashlar (Pedra Bruta) ou à Perfect Ashlar (Pedra Polida). Em 1762, com a publicação de J∴ and B∴, observa-se igualmente a ausência de qualquer menção à Rough Ashlar (Pedra Bruta) ou à Perfect Ashlar (Pedra Polida), evidenciando que, em ambas as fontes, não se encontram referências à terminologia das pedras[7]. [7]
Em 1772, com a publicação do sistema de William Preston, especialmente em sua First Lecture of Freemasonry, encontra-se, conforme registrado por Harry Carr, a seguinte formulação: “Nomeie as joias fixas. A pedra bruta, a pedra polida e a Prancha.” Diferentemente das exposições anteriormente analisadas, nas quais não se identificaram referências às pedras, observa-se aqui, de forma inequívoca, a presença simultânea da Rough Ashlar (Pedra Bruta) e da Perfect Ashlar (Pedra Polida), já integradas ao conjunto das joias fixas. Essa ocorrência marca um ponto decisivo na investigação, evidenciando que o simbolismo das duas pedras se encontra plenamente formulado nesse estágio[8].
Já em 1818, na obra The Freemason’s Monitor, de Thomas Smith Webb, o par Rough Ashlar (Pedra Bruta) e Perfect Ashlar (Pedra Polida) aparece plenamente inserido no contexto da Maçonaria especulativa. A Rough Ashlar é descrita como a pedra em estado bruto, tal como retirada da pedreira, enquanto a Perfect Ashlar corresponde à pedra polida e esquadrejada pelo trabalho do operário. Nesse momento ocorre uma mudança significativa, a natureza deixa de ser exclusivamente técnica e passa a ser utilizada como metáfora, instrumento pedagógico, associando a condição inicial do indivíduo ao seu processo de instrução e aperfeiçoamento[9].
Em 1869, na obra The Symbolism of Freemasonry, Albert G. Mackey mantém o par Rough Ashlar (Pedra Bruta) e Perfect Ashlar (Pedra Polida), agora plenamente consolidado no campo simbólico. A Rough Ashlar passa a representar o homem em seu estado imperfeito, enquanto a Perfect Ashlar simboliza o aperfeiçoamento alcançado por meio do conhecimento e da disciplina. A linguagem já não é mais técnica, mas interpretativa[10].
Em 1871, na obra Morals and Dogma, Albert Pike apresenta o mesmo par conceitual, reforçando a associação entre a pedra e o processo de transformação do indivíduo. A Rough Ashlar é definida como a pedra em estado bruto, enquanto a Perfect Ashlar representa o resultado do trabalho aplicado sobre a matéria. A geometria assume papel central como expressão de perfeição, consolidando a transição do campo operativo para o simbólico[11].
A influência da linguagem herdada da tradição operativa foi ressignificada no ensino maçônico como forma de representar o aperfeiçoamento humano. Entre os diversos símbolos utilizados, as pedras ocupam lugar central, pois expressam, de forma simples e direta, esse processo, no qual a pedra bruta indica a condição inicial e a pedra polida o resultado final do trabalho realizado. Este trabalho, em nossa simbologia, estende-se por toda a vida[12].
Entre todas as pedras que podem ser extraídas da pedreira, e aqui, simbolicamente, fala-se da sindicância, apenas algumas possuem, desde a origem, a qualidade necessária para sustentar a obra, e é nesse ato que se encontra o verdadeiro segredo maçônico. Não há transformação de chumbo em ouro. O artesão não cria a matéria, não altera sua essência, ele apenas remove, golpe após golpe, aparando imperfeições até revelar as qualidades que já estavam contidas na pedra. Ele é, ao mesmo tempo, arquiteto, construtor e material de si próprio. O ideal de perfeição não é criado. Não se trata de transmutar matéria, mas de reconhecer a pedra que pode ser trabalhada. Quando essa escolha falha, nenhum esforço corrige a fundação, e toda aparência de grandeza se desfaz sob o peso que não pode sustentar. A estabilidade de toda a obra, portanto, nasce na escolha da pedra bruta, pois é nela, ainda na pedreira, que se decide, em segredo, tudo aquilo que a estrutura poderá ou não suportar.
Nota de agradecimento: Agradecimentos especiais a Fuad Haddad, Izautonio da Silva Machado Junior, Josafá de Oliveira Filho e Valtenio Paes de Oliveira, cujas contribuições, observações críticas e apoio na pesquisa foram fundamentais para o desenvolvimento e aprimoramento deste trabalho.
Referências Bibliográficas:
[1] CARR, Harry. Seis Séculos de Ritual Maçônico.
[2] BLUTEAU, Raphael. Vocabulário Portuguez e Latino. 1712–1728; PARKER, John Henry. A Glossary of Terms Used in Grecian, Roman, Italian, and Gothic Architecture. Oxford, 1845.
[3] ISMAIL, Kennyo. Breviário Maçônico do Século XXI.
[4] CARR, Harry. O Ofício do Maçom. São Paulo: Madras, 2012; BÍBLIA SAGRADA. Salmos 118:22.
[5] Edinburgh Register House Manuscript. 1696; CARR, Harry. O Ofício do Maçom. São Paulo: Madras, 2018.
[6] PRICHARD, Samuel. Masonry Dissected. Londres, 1730; CARR, Harry. O Ofício do Maçom. São Paulo: Madras, 2018.
[7] THREE DISTINCT KNOCKS; OR, THE DOOR OF THE MOST ANCIENT FREE-MASONRY. Dublin, 1760; JACHIN AND BOAZ; OR, AN AUTHENTIC KEY TO THE DOOR OF FREEMASONRY. London, 1762.
[8] PRESTON, William. First Lecture of Freemasonry. 1772, apud CARR, Harry. O Ofício do Maçom. São Paulo: Madras, 2018.
[9] WEBB, Thomas Smith. The Freemason’s Monitor. Boston, 1818.
[10] MACKEY, Albert G. The Symbolism of Freemasonry. New York, 1869.
[11] PIKE, Albert. Morals and Dogma. Charleston, 1871.
[12] WEBB, Thomas Smith. Freemason’s Monitor. Cincinnati, 1867.
Jorge Antônio Vieira Gonçalves
(79) 999770046


Artigo dirigido aos aprendizes como instrução do porque ele foi escolhido,como base para o crescimento da ordem
Excelente artigo! Parabéns ao autor Ir.'. Jorge Gonçalves.