MAÇONARIA, ACOMODADA OU DESAFIADORA?
- 5 de mai.
- 7 min de leitura
Por José Darci Pereira Morsch Soares[1]
MAÇONARIA, ACOMODADA OU DESAFIADORA?

“Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.” (Salmo 133.1)
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Este verso do Salmo 133, poderia ser o dístico — assim como nosso “ordem e progresso” — de bandeiras de qualquer país deste “pálido ponto azul” perdido na infinitude do universo, principalmente do hemisfério ocidental, uma vez que no oriente os textos sagrados são outros que não o que predomina entre nós.
Isso — infelizmente — jamais passou de um ideal ou de um sonho, porque vislumbrando-se a história o que predomina são as guerras, seja as de conquistas, ou de disputas territoriais e, contraditoriamente, também as guerras religiosas, sem esquecer que as tão propaladas Cruzadas se caracterizaram mais por massacres sangrentos, pilhagens, destruição e, ao fim e ao cabo sem alcançarem seu propósito.
Depois da Revolução Industrial e da adoção do capitalismo como sistema econômico, embora as guerras reais ainda persistam como agora testemunham as da Rússia X Ucrânia e dos EUA/Israel X Irã, hodiernamente vestiu nova roupagem, mais sutil, mais sub-reptícia, mas pode ser vislumbrada, ainda que simbolicamente, na competição individual ente os que tem mais e os que tem menos ou entre os que se acham melhores e os que são tidos como piores.
Então, o sonho representado pelo Salmo 133 continua sendo um ideal, mas certamente, não é a realidade. Muito possivelmente este espírito belicoso interindividual ou social, reside mais no inconsciente do que no consciente, sem, todavia, deixar de contaminar nossas posturas psíquicas. Nalguns contextos a belicosidade é escancarada, como ocorre agora em nosso contexto político ideológico e noutras é sutil, residindo na sombra de nosso psiquismo, mas sem deixar de exercer efeitos nos inter-relacionamentos. E paradoxalmente, um desses efeitos nefastos reside no fato da discriminação cultural ou de pensamento, estabelecendo sem necessidade, um juízo preconceituoso contra os que não rezam pela “minha cartilha”.
Não sou versado em PNL, mas aprecio um de seus postulados:
“Um desses pressupostos é que “todo comportamento é sustentado por uma intenção positiva”. (...) Em linhas gerais, o pressuposto “todo comportamento é sustentado por uma intenção positiva” sugere que, por mais que um comportamento possa parecer negativo ou desadaptativo, ele existe porque, em algum nível, está servindo a um propósito positivo. (...) Ao aplicar o pressuposto “todo comportamento é sustentado por uma intenção positiva”, é importante estar aberto ao diálogo e à empatia com a pessoa que exibe o comportamento. É fundamental não julgar, culpar ou forçar a mudança, mas sim, buscar entender a perspectiva dela e ajudá-la a encontrar outras maneiras de atender à sua intenção positiva. (https://pnl.com.br/pressuposto - acesso em 03-03-26)
Ou seja, é um postulado inclusivo e não de rompimento, de exclusão. Aliás, em grandes Filósofos sempre se encontram frases curtas de elogio à divergência, como estes:
Se discordas de mim, tu me enriqueces. (Dom Helder Câmara); Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem. (Santo Agostinho); “Divergência de opinião jamais deve ser motivo para hostilidade.” (Mahatma Gandhi); As razões da divergência são mais úteis do que as da concordância, porque suscitam reflexão e o reexame de nossas opiniões.” (B. Calheiros Bonfim).
Todas estas considerações se fazem a propósito de rumores, de ruídos comunicacionais que se percebe quando alguém ousa manifestar opiniões diferentes das consagradas pelos “usos e costumes” ou das dinâmicas repetidas desde incontáveis tempos sem autocrítica que lhe tragam novas e mais atualizadas práxis.
Por outro lado, creio que é possível apreciar esta mesma problemática sob o ângulo do que se convencionou chamar de “choque de gerações”, ou seja, as turbulências que ocorrem entre os que preferem a manutenção de um “status quo” e os que preferem um arejamento, uma renovação nos aspectos secundários, mas relevantes, porque todos compreendem que a essência das instituições deve ser preservada na sua genuinidade.
A mudança é uma contingência irrefragável da vida. Na psicologia muito se debate acerca da continuidade do “eu” ao longo da vida, em que pesem as múltiplas mudanças físicas pelas quais passamos ao longo de nossa evolução biológica. Ou seja, como disse: Heráclito “Nada é permanente, exceto a mudança.”
Paradoxalmente, na Maçonaria há quem pense que a instituição deve permanecer cristalizada no tempo assim como foi concebida em 1717. Aliás, essa cristalização nunca ocorreu. A partir da divulgação de “segredos” maçônicos em 1730, por Samuel Prichard, a novel Grande Loja de Londres e Westminster teve que reformar seus rituais e isso levou à divergência desses londrinos com Maçons que se conservavam independentes e predominantemente de origem irlandesa e escocesa os quais, em 1751 fundaram outra Grande Loja, autointitulando-se de “Antigos” e apelidando os primeiros de “Modernos”.
Depois de muitos embates e provavelmente convencidos de que a disputa era prejudicial a ambas as correntes, decidiram se reconciliar, nascendo em 1813 a Grande Loja Unida da Inglaterra. Essa Maçonaria Especulativa, que excluía mulheres, deficientes físicos e escravos, hoje prega francamente a admissão de pessoas com necessidades especiais e embora não admita mulheres em seu seio, convive e estimula a Maçonaria Feminina e, mais, orienta a permanência ou a iniciação de transgêneros. Ou seja, não há instituição por mais que nasça conservadora que não tenha que se adaptar aos novos tempos.
Hodiernamente se divulga a concepção de uma Maçonaria chamada de Executiva, ou seja:
“... é uma nova visão da nossa atual Maçonaria, ou um novo jeito de fazer Maçonaria, repensando as nossas práticas, cavando masmorras para o que deu errado e edificando templos ao que deu certo e que a Maçonaria tem de melhor, sem perder o cerne das nossas tradições, Landmarks, rituais, cerimônias, instruções e ensinamentos. Passarmos a ser homens de ação, executores. Executores do saber, edificadores do Templo Interior e construtores sociais, inserindo a maçonaria no século XXI” (Aldino Brasil, Grão-Mestre Ad Vitam da GLOMARON).
Então, se a parte ritualística é sagrada, é imutável, porque é exatamente isso que a define e, igualmente seus ritos — e com o que estou plenamente de acordo, porque se não estivesse teria que procurar um Rito mais afim ao meu pensamento —, nada impede que a sessão seja enriquecida na sua ordem do dia, com exposições, debates, conferências, realmente dignas de uma Instituição centenária e, justamente por estar consolidada no tempo, só precisa sintonizar-se e harmonizar-se com a quadra histórica por que passa.
Seria uma obviedade dizer que o tempo é valioso e escasso. Os profanos que presentemente ingressam na Instituição, geralmente são profissionais liberais, altos funcionários públicos, empresários, aposentados de carreiras públicas relevantes e de todos esses, se pressupõe que são ou tenham sido bem-sucedidos em suas carreiras. Então, é preciso que a Maçonaria seja para eles um desafio ainda mais instigante, especialmente no campo da filosofia, da reflexão existencial, da espiritualidade laica, campos esses que a vida moderna acelerada não prioriza e nem valoriza.
Imagine, como exercício de reflexão, convidar-se um não católico a frequentar missas. Nas primeiras, pelo fator da novidade ele pode não formar juízo crítico. Mas se o oficiante for adepto “da moda antiga”, cujo sermão se circunscreva a uma pobre interpretação literal das lendas e mitologias do Antigo Testamento, por certo o convidado não demorará a lançar bocejos durante a cerimônia.
Compare-se a situação com o mesmo convidado indo a um culto de um Pastor Evangélico, de que o Malafaia, por certo é paradigmático, com sua verve incendiária e argumentos sibilinos contra as degradações na nossa moral social corrente. Em qual situação o convidado se sentiria mais instigado a refletir e de qual culto sairia com seu entusiasmo em vibrantes e coloridas chamas?
Então, modestamente me parece que se está tirando menos proveito do que a sessão poderia proporcionar, tudo sem descurar um milímetro das prescrições doutrinárias e rituais dos outros segmentos da sessão.
E este, penso, não é um sentimento isolado, caprichoso, individualista. Como ocupo meu vasto tempo de aposentado estudando história, filosofia, neurociência, lendo artigos em Blogs, adquirindo Revistas e Livros Maçônicos, além de pesquisar novidades na web, amiúde me deparo com textos com os quais comungo inteiramente.
Veja “ad exemplum” esta introdução de um artigo do Maçom CHARLES EVALDO BOLLER (https://segredomaconico.blogspot.com/2026/04/sessoes-maconicas-motivadoras).
A Motivação não é Luxo. A Maçonaria apenas floresce quando suas sessões se transformam em experiências de inspiração, diálogo e transformação interior. Um Templo silencioso, onde mentes adormecem sob o peso de repetições mecânicas, degrada-se lentamente; já uma Loja vibrante, que cultiva debates vivos, instrução significativa e reflexão compartilhada, torna-se fonte abundante de motivação e sentido. O ensaio mostra que Mestres desmotivados não são causa, mas consequência de sessões sem alma, onde falta o atrito das ideias, aquele choque fraterno que, como as pedras roladas do fundo dos rios, produz polimento de consciências e desperta virtudes. Unindo filosofia clássica, física quântica, esoterismo maçônico e princípios andragógicos, o texto revela que a motivação não é luxo, mas elemento vital para a sobrevivência da Ordem. A egrégora só se eleva quando cada irmão participa como músico e dançarino de uma mesma orquestra espiritual. Sessões bem conduzidas iluminam o Templo interior, reacendem o entusiasmo e transformam o simples comparecimento em jornada alquímica. Este ensaio convida o leitor a revisitar o sentido original da Maçonaria Especulativa: pensar, dialogar, lapidar-se, construir. É um chamado para reacender a chama que mantém vivo o espírito iniciático.
Enfim e para que tudo fique muito claro, deixo expresso meu grande apreço pela tricentenária Instituição, que já enfrentou poderosos — bastando citar as várias “bulas” Papais, vários detratores como LEO TAXIL e ABADE BARRUEL, na França e GUSTAVO BARROSO, no Brasil — e que passou ilesa por tantas procelas e continua atraindo brilhantes homens para seu seio. Minha angústia é vê-la pregando grandes potenciais quando se apresenta para profanos, mas “entregando” muito menos do que poderia e deveria.
Daí emerge meu entusiasmo por esse tema, a respeito do qual, aliás a CMSB chega a disponibilizar um curso na modalidade EAD, que defendem os Irmãos Charles Evaldo Boller e o Past Grão-Mestre da GLOMARON, Aldino Brasil. Penso que não é novidade dizer que ao longo da história a Maçonaria perdeu muito de seu protagonismo social e político — que, em verdade não fazem parte de seus genuínos propósitos — mas isso não significa que não deva arejar seus métodos de ação, tornar-se mais atrativa a espíritos modernos e sedentos de um saber mais denso e consistente, compatível com todo o avanço tecnológico e cultura contemporâneas.
Acredito que consideradas todas as suas virtudes, toda sua solidez que já ultrapassa trezentos anos, sua história — que agasalhou espíritos luminares, como Washington, Franklin, Pike, Luther King, Voltaire, Goethe — nenhum Maçom sensato pode criticar a Maçonaria, como Instituição. Mas como a Loja é de todos — não pertence a este ou aquele Irmão — o Maçom buscador está no seu legítimo direito de postular que seus líderes a tragam de uma prática tímida para a de uma vibrante e desafiadora instituição sintonizada com o “ZEITGEIST” do Século XXI e que, sobretudo, ouse conviver com os que pensam diferente por que esse Irmão pode ser o fermento, o catalisador de uma transformação positiva.
Nota de rodapé
[1] José Darci Pereira Morsch Soares, M. M., ARLS Progresso e Fraternidade, 222, REAA, GLMERS.

