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A INICIAÇÃO DE UM PADRE NA MAÇONARIA

  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Por Lucas do Couto Santana

 


AS BOAS-VINDAS AO IRMÃO PADRE GILVAN

 

Gilvan José de Carvalho, iniciado na ARLS Adelardo José de Oliveira nº 4892
Gilvan José de Carvalho, iniciado na ARLS Adelardo José de Oliveira nº 4892

Meu querido Padre Gilvan,

Meu amigo de tantos anos,

Agora, meu Irmão,

 

Há encontros que a vida prepara em silêncio.

 

Durante muito tempo, conversamos sobre Deus, sobre a Fé, sobre o Cristianismo, sobre a condição humana e, até mesmo, sobre a Maçonaria. Conversávamos, às vezes, como dois viajantes que olham a mesma montanha por lados diferentes. Eu, Aprendiz, tentando ainda entender o que era bem a Maçonaria. E, por outro lado, o amigo e irmão, você, procurando compreender se nesse caminho havia sombra ou luz.

 

Hoje, a resposta não veio em forma de debate. Veio em forma de caminho.

 

A Maçonaria não chegou à sua vida para apagar o que você é, nem para diminuir a grandeza da sua história. Ao contrário, ela o recebe com o respeito devido aos homens que trazem consigo uma longa estrada interior. Ninguém entra verdadeiramente na Ordem como página em branco. Cada um chega com suas cicatrizes, suas leituras, suas perguntas, seus combates, suas vigílias e seus silêncios.

 

Você é guerreiro, um judoca, alguém que conhece o bushidô. Sabedor que o caminho é feito, ao caminhar e, você, hoje, deu o primeiro passo. E você chega trazendo algo raro, a alma de quem sempre perguntou e sempre quis entender. Aristóteles abre a sua Metafísica dizendo que todos os homens, por natureza, desejam conhecer. Talvez a iniciação seja isso: não o fim da pergunta, mas sua consagração em caminho. Compreender para você vai muito além das palavras, ultrapassa o véu dos símbolos.

 

Como profundo conhecedor da Filosofia, Aristóteles e Tocquevile, sabes bem que a pergunta, meu Irmão, é uma forma nobre de oração. Quem pergunta com sinceridade já começou a caminhar para a luz. O dogmático se acomoda; o fanático agride; o indiferente passa. Mas o homem que pergunta permanece de pé diante do mistério. É esse homem que a Maçonaria acolhe, não o perfeito, mas o perfectível; não o concluído, mas o construtor.

 

Lembro-me de nossas conversas antigas. Havia nelas questionamentos, sim, talvez tensão. Lembro-me bem de uma pergunta sua: “A Maçonaria é deísta? A Maçonaria é teísta?”. Eu tinha respondido, mas, agora você encontrará as suas respostas.

 

Naquele diálogo havia, sobretudo, busca. Talvez naquele tempo nenhum de nós soubesse, mas a fraternidade já estava ali, ainda sem avental, ainda sem templo, ainda sem rito. Estava na coragem de pensar, na liberdade de discordar e na dignidade de continuar amigo apesar das diferenças.

 

Hoje, ao final de sua iniciação, quero dizer-lhe algo simples e profundo: Seja bem-vindo.

 

Bem-vindo não apenas a uma instituição, mas a uma escola de aperfeiçoamento moral. Bem-vindo não apenas a uma Loja, mas a uma oficina de homens que amam o saber, amigos da sabedoria. Bem-vindo não apenas a um novo círculo de convivência, a uma grande fraternidade.

 

A Maçonaria não lhe pedirá que abandone sua consciência. Pedirá que a refine. Não lhe pedirá que esqueça sua fé. Pedirá que honre o Grande Arquiteto do Universo pela prática da virtude.Não lhe pedirá que seja outro homem. Pedirá que seja, a cada dia, uma versão mais justa, mais fraterna e mais luminosa de si mesmo, pois sei que tu sabes quem é a única e Verdadeira Luz.

 

A liberdade, sem virtude, pode tornar-se vaidade. A igualdade, sem amor, pode tornar-se ressentimento. A fraternidade, sem trabalho, pode tornar-se apenas discurso bonito.  E, discurso bonito, meu Irmão, sem obra, é sino sem badalo. Tu sabes bem disso.

Como sacerdote, educador e homem acostumado à escuta, você não chega à Maçonaria como quem busca adorno para a própria biografia. Chega como Aprendiz. Talvez esteja justamente aí a grandeza deste momento: quem já serviu, ensinou, ouviu dores e formou consciências ainda conserva a humildade de começar de novo.

 

A Oficina que hoje o recebe terá a missão de lhe apresentar os caminhos da Arte Real, seus símbolos, seus silêncios e seus métodos. Também é justo reconhecer que sua presença fortalece as colunas desta Loja. Não por títulos, funções ou vestes anteriores, mas pela experiência humana de quem já caminhou longamente diante da palavra, da fé, da disciplina e dos dilemas da alma. Recebe um Irmão que vem aprender os caminhos da Arte Real e trabalhar sobre si mesmo, como todos nós.

 

A partir de hoje, você aprende conosco; e, pelo modo como aprende, também poderá nos ajudar a aprender melhor. Eis a beleza discreta da verdadeira fraternidade. Ninguém entra para ser maior que os outros; mas alguns, pela história que trazem, tornam a caminhada comum mais séria, mais profunda e mais exigente.

 

És agora construtor de um templo invisível. Sabes bem que o templo mais difícil não é feito de pedra, madeira ou mármore. O templo mais difícil é o próprio homem. É nele que se encontram os excessos a corrigir, as asperezas a vencer, as sombras a compreender e a luz a cultivar. Encontrará entre nós a firmeza de Pedro, a ternura de João e as perguntas de Tomé. Encontrará, sobretudo, homens, fortes e frágeis, generosos e inacabados, reunidos não porque estejam prontos, mas porque aceitaram trabalhar sobre si mesmos. Somos imperfeitos, sim; por isso mesmo nos reunimos em Loja, para que a pedra bruta de cada um seja tocada pelo trabalho, pela fraternidade e pelo silêncio.

 

Que você encontre entre nós não um refúgio de vaidades, mas uma oficina de humildade. Não um palco, mas um altar simbólico de serviço. Não uma fuga do mundo, mas uma preparação para servi-lo melhor. A sua presença hoje nos recorda que a verdadeira iniciação não começa quando se abre uma porta externa, mas quando o homem aceita atravessar uma porta dentro de si. Poucos têm coragem de atravessar essa soleira. Muitos preferem defender antigas certezas; poucos aceitam ser novamente aprendizes.

 

Talvez esteja aí a grande beleza desta noite. Depois de tantos anos de estudo, fé, palavra e serviço, você aceita começar de novo. Começar de novo é privilégio dos homens sábios.

 

Meu amigo, meu Irmão Gilvan, que esta nova etapa seja conduzida com serenidade, discrição e grandeza. Que você caminhe com firmeza, mas sem pressa. Que estude, medite, observe e escute. Que permita que os símbolos falem no tempo certo, pois a Maçonaria, como a vida espiritual, não entrega todos os seus sentidos a quem tem pressa. Ela se revela aos que perseveram.

 

Receba, pois, o abraço fraterno de quem um dia discutiu com você sobre a Maçonaria e hoje se emociona ao vê-lo ingressar nela.

 

A vida tem dessas ironias sagradas. Às vezes, a semente lançada numa conversa antiga só floresce quinze anos depois.

 

Seja bem-vindo, meu Irmão.

 

Que o Grande Arquiteto do Universo ilumine seus passos, fortaleça seu coração e faça de sua caminhada maçônica uma obra justa, útil e bela.

 

Com estima, respeito e fraternidade,

Jaru, Rondônia, 12 de maio de 2026.

 

Lucas do Couto Santana

Venerável Mestre da Lux In Tenebris n. 47 – GLOMARON

Mestre Instalado da Estrela da Fraternidade n. 15 – Jaru – RO – GLOMARON

Membro da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras – AMVBL


P.S. 

Gilvan José de Carvalho, foi iniciado na ARLS Adelardo José de Oliveira nº 4892, Oriente de Itabaiana (SE). A Loja é jurisdicionada ao Grande Oriente do Brasil Sergipe.

 

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