A MULHER SEM NOME: A MÃE DE HIRAM ABIFF ENTRE A ESCRITURA, O SÍMBOLO E O TEMPLO
- há 2 dias
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Por Lucas do Couto Santana[1]
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A MULHER SEM NOME: A MÃE DE HIRAM ABIFF ENTRE A ESCRITURA, O SÍMBOLO E O TEMPLO

Há personagens que ingressam na história revestidos de nome, genealogia e poder. Outros, porém, permanecem nas margens do relato, quase silenciosos, mas decisivos para a compreensão de seu sentido profundo. A mãe de Hiram Abiff pertence a essa segunda categoria. A Escritura não lhe confere nome, discurso ou protagonismo narrativo. Designa-a apenas como viúva. Ainda assim, é precisamente nesse silêncio que sua figura adquire densidade simbólica.
Historicamente, trata-se de uma mulher israelita associada às tribos do Norte, vinculada a Tiro por casamento e mãe de um artífice excepcional. Simbolicamente, contudo, sua importância ultrapassa o dado biográfico. Antes do construtor, há o filho; antes do Templo, há a formação silenciosa daquele que seria chamado à obra.
A figura da mãe de Hiram Abiff possui uma virtude pedagógica rara. Ela permite que Aprendizes, Companheiros e Mestres se aproximem do universo hirâmico, sem profanar o mistério próprio de cada grau. Por isso, meditar sobre a viúva não é antecipar indevidamente o drama de Hiram, mas retornar à sua nascente simbólica.
De Israel e Tiro, tradição e técnica, sangue e ofício, dor e criação. Essa mulher sem nome ensina que a Maçonaria não começa no brilho das colunas, mas no trabalho silencioso, oculto das vistas profanas, no lugar mais sagrado da vida, a família. Simbolicamente, pode ser considerada como a mulher que entrega ao mundo uma obra, justa e perfeita, talhada pela dor, pela origem e pelo silêncio, perfeita na medida e consagrada à edificação do Templo.

1. A MULHER HISTÓRICA: ENTRE NAFTALI, DÃ E TIRO
A primeira aproximação é bíblica e documental. A mãe de Hiram Abiff é mencionada em duas passagens fundamentais: 1 Reis 7:13-14[2] e 2 Crônicas 2:13-14[3].
Em 1 Reis, Hiram é apresentado como filho de uma viúva da tribo de Naftali, cujo pai era de Tiro e trabalhava com bronze. Em 2 Crônicas, entretanto, abre-se uma segunda tradição. Hirão-Abi é apresentado como filho de uma mulher “das filhas de Dã”, também tendo por pai um homem de Tiro. Nessa versão, suas habilidades aparecem de modo mais amplo, trabalha com ouro, prata, bronze, ferro, pedra, madeira, tecidos e entalhes.
Há, portanto, uma tensão textual entre Naftali e Dã. Não se trata, contudo, de contradição necessariamente insolúvel. As tradições antigas frequentemente preservam memórias sobrepostas, nas quais origem tribal, residência, alianças matrimoniais, deslocamentos familiares e pertencimentos políticos podiam coexistir. A leitura mais prudente é situar a mãe de Hiram no ambiente cultural das tribos do Norte, na fronteira entre Israel e o mundo fenício de Tiro.
A tradição maçônica preservada nos Old Charges, especialmente no manuscrito conhecido como Inigo Jones MS (1655), segue essa mesma linha. Salomão teria enviado a Hiram, rei de Tiro, pedido por um “cunning workman”, chamado Hiram Abif, “filho de uma mulher da linhagem de Naphtali” e de Urias, o israelita (OLD CHARGES, 1655, s.p.).
Albert G. Mackey registra essa dupla tradição ao comparar as passagens bíblicas: em Reis, Hiram aparece como filho de uma viúva da tribo de Naftali; em Crônicas, como filho de uma mulher das filhas de Dã, tendo por pai um tírio e dominando numerosas artes. A tradição maçônica recebeu, assim, uma figura de perfil híbrido: israelita pela mãe, fenícia pelo pai, técnica pelo ofício e universal pelo símbolo.
2. A MÃE SEM NOME
A Bíblia não informa seu nome. Isso não é detalhe menor. Constitui o centro de sua força simbólica.
Na cultura bíblica, o nome frequentemente expressa destino, missão, bênção ou memória. Nomear é inscrever alguém na história. A mãe do construtor, porém, permanece anônima. Sua identidade não é apresentada pelo prestígio, pela linhagem ou pela palavra própria, mas por uma condição existencial: ela é viúva.
A viuvez é uma experiência ontológica da falta. A morte do outro não retira apenas uma pessoa do mundo; ela modifica o mundo de quem fica. A casa muda de som. A mesa muda de geometria. O tempo perde uma testemunha. A viúva é aquela que experimenta uma verdade dura. O amor funda mundo, a morte o desorganiza e o luto tenta reconstruí-lo.
Na filosofia de Emmanuel Levinas, a viúva, ao lado do órfão e do estrangeiro, representa uma das figuras privilegiadas da alteridade vulnerável. Ela não é apenas destinatária de compaixão, mas presença ética que interpela o sujeito e lhe impõe responsabilidade. O rosto da viúva revela a exigência de justiça diante daquele que sofre e que não pode ser reduzido à invisibilidade social (LEVINAS, 2008; BERGO, 2006).
A viuvez, em muitas sociedades, combinou vulnerabilidade e ambivalência. De um lado, significava luto, perda de proteção e maior exposição social. Por outro viés, podia proporcionar certa autonomia em relação ao controle marital. A ética feminista ajuda a compreender essa condição como expressão de estruturas históricas que limitaram a liberdade e a experiência moral das mulheres, enquanto o caso de Mariana de Pineda evidencia como a viuvez também pôde criar espaços excepcionais de atuação feminina (NORLOCK; PASCOE, 2025; LORCA MARTÍN DE VILLODRES, 2019).
Esse dado é decisivo. Hiram Abiff será lembrado, em várias tradições maçônicas, não apenas por sua arte, mas por ser “o filho da viúva”. Mackey registra esse epíteto de modo direto, “Widow’s Son” como designação dada ao principal arquiteto do Templo porque ele era “filho de uma viúva da tribo de Naftali” (MACKEY, 1869, verbete “Widow’s Son”, s.p.). O Ahiman Rezon, em sua edição de 1813, também conserva a memória do “widow’s son”, o filho da viúva, como sábio artífice que manejava prumo, nível e régua (DERMOTT; HARPER, 1813, p. 163).
A expressão é mais profunda do que parece. Filho da viúva é aquele que nasce marcado pela ausência do pai. Ele não recebe a segurança plena da linhagem patriarcal. Não aparece como “filho de um grande senhor”, “filho de um rei”, “filho de um sacerdote”. Aparece como filho de uma mulher que perdeu. Talvez, por isso, tenha aprendido, desde cedo, que toda construção verdadeira começa onde alguma coisa caiu.
A mãe de Hiram, portanto, não transmite uma coroa. Seu legado é mais discreto e mais exigente, a experiência de uma falta fecunda. Há ausências que destroem; outras educam. Há vazios que se tornam abismo; outros, templo.
3. A VIÚVA COMO FRONTEIRA: ISRAEL E FENÍCIA NO MESMO VENTRE
A mãe de Hiram é também uma mulher de fronteira. De um lado, Israel; de outro, Tiro. De um lado, a memória da aliança; de outro, a técnica fenícia. De um lado, a promessa; de outro, o bronze, o cedro, o mar, o comércio, a oficina.
Nela, duas culturas se encontram antes mesmo da cooperação entre Salomão e Hiram, rei de Tiro, para a edificação do Templo. O filho nascido dessa união não pertence inteiramente a um só mundo. É homem de passagem, formado entre tradições distintas. Essa condição amplia sua densidade simbólica, pois quem atravessa fronteiras compreende que o mundo é sempre maior do que a sua própria obra. Nos Old Charges, ele é descrito como “Master of Geometry” e mestre de maçons, entalhadores, gravadores e fundidores de metais utilizados no Templo (OLD CHARGES, 1655, s.p.).[4]
Pode-se dizer, em linguagem simbólica, que a mãe de Hiram é o primeiro templo do construtor. Antes das colunas, houve o ventre. Antes do bronze, a vida. Antes do chamado dos reis, a origem materna. A tradição maçônica antiga reforça a ligação de Hiram com a geometria, a arte e o domínio técnico. Nos Old Charges, ele aparece como mestre da geometria e das artes necessárias à construção do Templo.

4. QUEM É, AFINAL, ESSA MULHER?
Historicamente, é uma mulher israelita sem nome, associada a Naftali em 1 Reis e a Dã em 2 Crônicas, unida a um homem de Tiro e mãe de um artífice de excelência.
Literariamente, é a mulher que o texto bíblico oculta para que o filho apareça.
Simbolicamente, pode ser compreendida como a matriz da condição iniciática, o estado interior de quem reconhece uma perda essencial e, por isso, se põe ao trabalho.
Ela é a viúva porque o mundo humano é viúvo de plenitude. Somos todos, em alguma medida, filhos de uma ausência. Falta-nos a palavra inteira, a luz inteira, a justiça inteira, a fraternidade inteira. O maçom sabe disso quando toma nas mãos as ferramentas do ofício. Não há templo pronto e acabado. Há pedra, suor, silêncio e direção.
A mãe de Hiram ensina sem discursar. Não funda uma escola, mas gera um mestre. Não escreve um tratado, mas entrega ao mundo alguém capaz de trabalhar com matéria, forma, proporção e segredo. Ela é capaz de tornar a felicidade na obra, que é seu filho.
Pelo trabalho dela, o Aprendiz pode vê-la como origem da pedra bruta: a origem humilde de todo começo. O Companheiro, como mãe do ofício: aquela que põe no mundo o trabalhador da arte. Por fim, o Mestre, como guardiã de um mistério que não se revela pela explicação imediata, mas pela maturação interior.
6. CONCLUSÃO: A MÃE ANTES DO TEMPLO
Antes que Hiram tocasse o bronze, alguém tocou Hiram. Antes que erguesse colunas, alguém o ergueu menino. Antes que conhecesse o peso do prumo, conheceu o peso da ausência. Antes de ser mestre, foi filho.
A mãe de Hiram Abiff é a mulher que a história não nomeou e que o símbolo não permitiu desaparecer. Seu anonimato não é vazio; é espaço de meditação. Nele, cada maçom pode refletir sobre suas origens, perdas, fidelidades e obras.
Ela é a viúva de Naftali, a filha de Dã, a mulher ligada a Tiro, a mãe do artífice. É a primeira oficina do construtor. É a ausência que gerou presença.
Se o Templo de Salomão precisou dos cedros do Líbano, dos metais de Tiro e da sabedoria de Israel, precisou antes de uma mulher sem nome. Porque toda grande obra começa assim: não no ruído dos reis, mas no silêncio das origens.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ÁLVAREZ LÁZARO, Pedro. Páginas de historia masónica. Santa Cruz de Tenerife: Ediciones Idea, 2006.
ARNAUT, António. Introdução à Maçonaria. 8. ed. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.14195/978-989-26-1328-4. Acesso em: 11 maio 2026.
BERGO, Bettina. Emmanuel Levinas. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2006.
BÍBLIA. 1 Reis 7:13-14. Bíblia Online, Almeida Corrigida Fiel. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/acf/1rs/7. Acesso em: 11 maio 2026.
BÍBLIA. 2 Crônicas 2:13-14. Sociedade Bíblica do Brasil, Nova Almeida Atualizada. Disponível em: https://www.sbb.org.br/biblia/NAA/2CH.2. Acesso em: 11 maio 2026.
BÍBLIA. 2 Crônicas 2. Bíblia Online, Almeida Corrigida Fiel. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/acf/2cr/2. Acesso em: 11 maio 2026.
DERMOTT, Laurence; HARPER, Thomas. Ahiman Rezon: or, The Constitution of Freemasonry. 8. ed. London: T. Harper, 1813. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=qjZfAAAAcAAJ. Acesso em: 11 maio 2026.
L’ÉDIFICE. Inigo Jones MS – 1655. Disponível em: https://ledifice.net/apprenti/textes-fondateurs/inigo-jones-ms-1655. Acesso em: 11 maio 2026.
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. 3. ed. Lisboa: Edições 70, 2008.
LORCA MARTÍN DE VILLODRES, María Isabel. Género y proceso en el caso Mariana Pineda: perspectivas iusfilosófica, histórica y literaria. Jura Gentium, [S. l.], v. 16, n. 2, p. 6-34, 2019.
MACKEY, Albert G. The Symbolism of Freemasonry. New York: Clark & Maynard, 1869. Projeto Gutenberg. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/11937/11937-h/11937-h.htm. Acesso em: 11 maio 2026.
NORLOCK, Kathryn; PASCOE, Jordan. Feminist Ethics. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Winter 2025 Edition. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2025. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/win2025/entries/feminism-ethics/. Acesso em: 11 maio 2026.
OLD CHARGES. The Book of Old Charges of Freemasonry. Documento do acervo do projeto Biblioteca CMSB.
HARVEY, A. R. The Story of Hiram Abiff. Disponível em: https://skirret.com/papers/harvey/hiram.html. Acesso em: 11 maio 2026.
Notas de Rodapé
[1] Venerável Mestre da ARLSV Lux In Tenebris nº 47, jurisdicionada à GLOMARON e Membro da Academia Maçônica Brasileira Virtual de Letras (AMBVL).
[2] “E enviou o rei Salomão um mensageiro e mandou trazer a Hirão de Tiro. Era ele filho de uma mulher viúva, da tribo de Naftali, e fora seu pai um homem de Tiro, que trabalhava em cobre; e era cheio de sabedoria, e de entendimento, e de conhecimento para fazer toda a obra de cobre; este veio ao rei Salomão, e fez toda a sua obra.” (1 Reis 7:13,14).
[3] “Agora, pois, envio um homem sábio de grande entendimento, a saber, Hirão Abiú. Filho de uma mulher das filhas de Dã, e cujo pai foi homem de Tiro; este sabe trabalhar em ouro, em prata, em bronze, em ferro, em pedras e em madeira, em púrpura, em azul, e em linho fino, e em carmesim, e é hábil para toda a obra do buril, e para toda a espécie de invenções, qualquer coisa que se lhe propuser, juntamente com os teus peritos, e os peritos de Davi, meu senhor, teu pai.” (2 Crônicas 2:13,14)
[4] Citação indireta. A tradição operativa não começa apresentando Hiram como mártir, mas como artífice qualificado, senhor de uma ciência aplicada à construção sagrada. O mito posterior fará dele mais que técnico: fará dele paradigma moral.





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