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DE MAÇONARIA OPERATIVA PARA ESPECULATIVA

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Por Eleutério Nicolau da Conceição


DE MAÇONARIA OPERATIVA PARA ESPECULATIVA


DE MAÇONARIA OPERATIVA PARA ESPECULATIVA
Imagem ilustrativa gerada por IA

Nas ilhas britânicas do século XVIII vamos encontrar a guilda dos pedreiros, a Free masonry assumindo características próprias, distintas das outras corporações. Do interior da Companhia de maçons de Londres surgiu grupos de maçons que se reuniam à noite em tabernas para conversar, socializar e jantar. Em sua evolução esses grupos acabaram por formar uma fraternidade que se organizou no início do século XVIII, na forma da Grande Loja de Londres e Westminster. Em sua evolução a partir dessa Grande Loja foi-se formatando a nova Maçonaria, que migrou para os outros países da Europa e dali para todo o mundo. Os documentos mais antigos da velha Maçonaria inglesa são as chamadas old charges, as velhas instruções, em geral enfatizando prescrições comportamentais para os obreiros. Uma dessas old charges está registrada no chamado manuscrito Cooke, cujas datações sugerem o ano de 1410 para sua origem, mas que reúne trechos que parecem ter sido copiados de outros documentos ainda mais antigos.[1] Seu conteúdo faz referência à construção do templo de Salomão:

“Na feitura do templo de Salomão, que o rei Davi encetou... Salomão tinha 80 mil maçons trabalhando para ele; ...Salomão confirmou as instruções que Davi, seu pai, dera aos maçons. E o próprio Salomão ensinou-lhes suas maneiras (isto é, costumes e práticas) que pouco diferem das maneiras ora em uso.”

 

Outro documento, mais antigo, não faz qualquer referência ao famoso templo. Esse documento, o Poema Régius ou Poema de Halliwel, datado de 1390, o documento maçônico mais antigo de que se tem notícia, remete a origem da instituição maçônica à construção da torre de Babel. Nele o primeiro Grão-Mestre consta como sendo Ninrod, o rei construtor da torre, o qual teria dado aos pedreiros as primeiras instruções e a regulamentação da confraria. Este mesmo tema é retomado em manuscritos mais recentes, como o Thistle de 1756. Mackey, citado por Alex Horne[2] ensina:

“Esta forma primitiva da lenda prevaleceu até talvez todo o correr do século XVII... mas por volta do fim do último século (isto é, o 18), ou talvez ainda mais tarde, no princípio do atual (o 19), a narrativa da origem da Franco-Maçonaria passou a ser repudiada e substituída por outra em contradição com os velhos manuscritos. Agora ninguém mais acredita que a Maçonaria se originou da Torre de Babel; o templo de Jerusalém passou a ser considerado o local do seu nascimento; e a Salomão, não mais a Ninrod, se conferiu a denominação de primeiro Grão-Mestre.”

 

A razão dessa transferência, como sugere Alex Horne, pode estar ligada ao desejo dos maçons especulativos de desvincularem a instituição de um edifício erigido contra a vontade de Deus, e que redundou num castigo (a dispersão e a confusão dos idiomas). Era conveniente fazê-la remontar à construção de um edifício inspirado pelo próprio Deus, para o seu culto.

 

Atualmente os maçons chamam de templo ao edifício onde se realizam suas reuniões, e loja à assembleia de maçons que nele se reúne. No passado operativo, entretanto, a loja onde os maçons se reuniam era simplesmente um barracão, ou casa onde os operários se reuniam para planejar o trabalho e os canteiros preparavam as pedras chegadas das pedreiras para serem usadas na construção. Jean Palou comenta:

“G. Delavalle [3] assim descreve a loja de Ovieto (Itália): Era uma casa perto da Catedral, onde os arquitetos, pintores, escultores se reuniam para apresentar grande número de seus desenhos e modelos, para executá-los depois de terem sido aprovados pelo tesoureiro e pelos ordenadores dos trabalhos.”

 

Nada se sabe hoje em dia do ritual de abertura dos trabalhos de uma loja operativa, devido à inexistência de documentos. A passagem da tradição de boca para ouvido devia-se, além da imposição de segredo já comentada, ao fato de que poucos sabiam ler e escrever. O excesso de zelo dos maçons impunha também a queima das instruções escritas para serem lidas durante uma iniciação imediatamente após o uso. George Payne[4], Grão-Mestre entre 1718/21 reclamava que:

“vários manuscritos valiosos foram muito apressadamente queimados por irmãos escrupulosos, para que não caíssem em mãos estranhas.”

 

Jean Palou[5] nos acrescenta informações a respeito da cerimônia de iniciação de aprendizes:

“A evista The Speculative Mason apresenta o texto de uma oração aprovada pela assembléia geral dos maçons de Wakefield, no dia 30 de novembro de 1663 e traduzida por J. Reyor: ‘Santíssimo e Glorioso El Shaddaï, Grande Arquiteto do céu e da terra, doador de todos os dons e todas as graças, que prometeste que quando dois ou três estivessem reunidos em Teu Nome, estarias no meio deles: em Teu nome, nos reunimos, suplicamos muito humildemente que nos abençoes em todas as nossas empresas, que nos concedas Teu Espírito Santo, para iluminar nossos espíritos com a sabedoria e a inteligência de nosso Venerável e Digno Ofício, a fim de que possamos conhecer-Te e Te servir como convém e que todas as nossas ações possam contribuir para a tua glória e salvação de nossas almas’. Jean Reyor acrescenta que esta oração existe também num ritual de abertura dos trabalhos no grau de Aprendiz. A loja é então aberta no nome do rei Salomão”.

 

Durante a iniciação, o neófito deveria prestar juramento após ouvir as instruções, prometendo guardar segredo sobre uma “palavra do maçom”, além dos toques e sinais de reconhecimento. O juramento era prestado com a mão direita sobre um volume da Bíblia.

 

Benimelli[6] nos esclarece que as leis inglesas dos séculos XVI e XVII exigiam formas de juramentos com rigorosas ameaças contra o perjúrio, tais como a:

“extração e queima das entranhas e o arrojamento ao mar, à distância de um cabo, lá onde o fluxo e o refluxo passam duas vezes em 24 horas”.

 

Cita também um manuscrito de Edimburgo, de 1696, relativo aos construtores de catedrais, que diz:

“Juro por Deus e por São João, pelo esquadro e pelo compasso, submetendo-me ao juízo de todos, trabalhar a serviço de meu mestre na honorável loja, de segunda-feira de manhã até sábado, e de guardar as chaves, sob pena de que me seja arrancada a língua por baixo do queixo e de ser enterrado sob as ondas, onde o fluxo o refluxo passam duas vezes em 24 horas e onde ninguém o saberá e jamais.”

 

A par das iniciações e dos trabalhos relativos às construções, desconhece-se o que mais se fazia nas reuniões das lojas operativas.

 

Não é possível determinar as razões porque foram permitidas as iniciações de pessoas não diretamente ligadas ao ofício de construção nas lojas maçônicas operativas. Talvez, como acontece hoje em dia, dando-se, por exemplo, o título de bombeiro honorário a alguém que tenha prestado serviços de destaque ao Corpo de Bombeiros, tenha sido conferido o título de “maçom honorário” aos patronos e amigos da arte de construir, os quais passaram a ser chamados de “maçons aceitos”. É possível também que a admissão de maçons aceitos — em geral pertencentes à nobreza, ou pessoas de destaque na administração pública — atendesse a um desejo de proteção e apoio para facilitar os trâmites dos negócios da guilda. Desconhece-se também a época em que essa prática teve início. A referência mais antiga conhecida está no manuscrito régius e no Cooke, já citados, que nos informam haver a Maçonaria penetrado na Inglaterra no tempo do rei Athelstan. Consta que seu filho Edwin, interessado em geometria, filiou-se à corporação dos pedreiros, concedendo-lhes regulamentos e estatutos. Os historiadores modernos identificam Edwin como irmão de Athelstan, explicando-se a confusão das relações de parentesco presente no documento maçônico oriunda do fato de Edwin ter sido o sucessor de Athelstan.

 

As lojas operativas não possuíam o grau de mestre. Um dos companheiros, que adquirisse experiência suficiente, poderia pleitear junto aos governantes da guilda que examinassem sua capacidade e lhe concedessem autorização para dirigir uma loja, para ser seu mestre. O novo mestre compraria então os instrumentos de trabalho e abriria sua própria oficina, podendo iniciar aprendizes e contratar obras. Assim, o Mestre da Loja não era um grau, mas uma função. Aprendiz e companheiro eram duas categorias que distinguiam iniciantes de veteranos na arte de construir, não constituindo nada semelhante ao que hoje entendemos como “graus”. Também existem indicações de que os maçons aceitos, que nada tinham com a arte de construir, não precisavam passar pelo período de aprendizado, sendo admitidos diretamente como companheiros:

“Está claro, diz Goblet d’Aviella, que não se podia impor a esta categoria de recrutas (pessoas de alta classe) os sete anos de aprendizado comum. São, portanto, recebidos de imediato como fellows (companheiros), reservando-se aos profissionais a aplicação dos termos de aprendiz e, mesmo, de mestre.”[7]

 

Aos maçons aceitos era dada a oportunidade de participação nas reuniões das lojas, do convívio com o planejamento, os traçados, o simbolismo e o que mais se praticasse em loja. Sabe-se que, por volta do século XVIII, a guilda de construtores operativos estava em decadência, e o número crescente de maçons aceitos começava, em algumas lojas, a superar os operativos. Podemos imaginar o efeito produzido pelo aumento da presença de maçons aceitos às reuniões, com possíveis alteração nos procedimentos ou na interpretação do simbolismo introduzidos gradativamente. Surgiram por fim lojas independentes do ato de construir, não operativas, as quais, com o tempo, fizeram ressurgir das cinzas da decadente corporação operativa, a nova fênix da Maçonaria, chamada especulativa.

 

Então, no dia 24 de junho de 1717, na Taberna da Macieira, na praça da Catedral de São Paulo, em Londres, dia de São João Batista, realizou-se a assembleia dos maçons livres e aceitos de quatro lojas de Londres. Estas lojas costumeiramente se reuniam nas tabernas Ganso e a Grelha; Coroa; da Macieira; e na O Copo e as Uvas, e formaram a primeira Grande Loja do mundo. Essa data passou a ser considerada como o início oficial da nova modalidade de Maçonaria — a especulativa.

 

É importante nos determos um pouco para examinar os acontecimentos que envolveram a fundação da Grande Loja de Londres e Westminster. Os parcos relatos da época nos dão conta de que a Maçonaria estava em decadência, com o abandono das tradições, reuniões cada vez mais raras. Até mesmo o banquete tradicional do solstício de inverno (verão no Brasil) não era mais celebrado. Jean Palou comenta o que se segue[8]:

“O rei George I chegou a Londres no dia 20 de setembro de 1714. Algumas lojas de Londres, desejosas de um ativo protetor, em face da incapacidade de Sir Christopher Wren (pois o novo rei não era franco maçom e, além disso, não conhecia a língua do país) acharam por bem cimentar, sob um novo e grande Mestre o centro de união e harmonia. Com este objetivo, as lojas:

No 1 – Na “Ao Ganso e a Grelha (At The goose and The Gridiron), na praça da Catedral de São Paulo,

No 2 – No Coroa (The Crown), na Avenida Parker, perto da Avenida Drury,

No 3 – Na Taberna da Macieira (The Apple Tree Tavern), na Charles Street, Convent Garden,

No 4 – Na Taberna O Copo e as Uvas” (The Rummer and The Grapes), na ChannelRow Westminster, reuniram-se com alguns outros antigos irmãos no dito Macieira e, tendo dado a presidência ao mais velho mestre maçom, mestre de uma loja, constituíram-se numa Grande Loja, par ínterim na devida forma.” (grifos nossos).

 

O texto grifado sugere que Sir Christopher Wren tinha sido o anterior protetor da instituição, seu Grão-Mestre, e que agora estava incapacitado para exercer aquelas funções. Segundo consta,[9] Sir Christopher Wren foi iniciado na Maçonaria em 1691. Ora, este personagem, nascido em 1632, foi anatomista, matemático, professor, inventor e arquiteto urbanista. Autor de inúmeras obras científicas e de numerosos inventos, participou da reconstrução de Londres após o grande incêndio[10] de 1666, tendo sido também deputado em duas legislaturas. Em 1669 foi nomeado supervisor geral das obras reais, cargo ocupado até a subida ao trono de George I, que o destituiu de suas funções. Lembrando que Wren tinha 85 anos em 1717, podemos entender sua incapacidade de continuar sendo o protetor da Maçonaria como causada por sua destituição do cargo que ocupava, sua idade, ou ambos os motivos, talvez inter-relacionados.


Taberna o Ganso e a Grelha. De um esboço feito em 1894.
Taberna o Ganso e a Grelha. De um esboço feito em 1894.

Restauradas as atividades das lojas de Londres, “agora sob nova direção”, com novas funções e objetivos, maçons adormecidos voltaram a participar de suas lojas e novos membros foram iniciados. A partir deste período, a Maçonaria experimentou um florescimento inusitado, a ponto de, em 1725, as quatro lojas originais terem se tornado 64, apenas em Londres, sem contar as lojas dos arredores e de outras cidades vizinhas.[11]

 

Em 29 de setembro de 1720, sob o segundo grão-mestrado de George Payne, decidiu-se realizar a compilação das instruções da velha instituição operativa, em forma concisa e organizada. A assembleia realizada na Taberna Armas do Rei, contou com a presença de 16 lojas, e designou o Reverendo James Anderson para esta tarefa. Em 25 de março do ano seguinte, Anderson apresentou sua obra para exame por representantes de 24 lojas. No ano de 1723, então ocupando a função de Segundo Grande Vigilante do novo Grão-Mestre, Duque de Wharton, Anderson publicou sua obra As Constituições[12], referência fundamental e primeiro documento oficial sobre a história da Maçonaria. A instituição que se formava a partir do substrato dos maçons operativos logo se expandiu. De Londres a novidade se espalhou por toda Europa, com a criação de Grandes Lojas em vários países: 

  • Grande Loja da Irlanda – 1725;

  • Grande Oriente da França – 1733;

  • Grande Loja da Escócia – 1736;

  • Grande Loja da França – 1738.

 

Com o tempo, unificou todas as lojas da Inglaterra, e, continuou sua expansão, alcançando todos os continentes do mundo.


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Notas de rodapé

[1] Alex Horne, O templo de Salomão na tradição maçônica, Pensamento, 1982, p. 9.

[2] Ibid., p. 22.

[3] Jean Palou, op. cit., pp. 18, 19.

[4] C. N. Bathan, Maçonaria Antiga na Inglaterra, C.M.S.B., 1995, p. 5

Tradução de um artigo publicado no “The Short Talk Bulletin” da “The Masonic Service Association of the Unitede States.”

[5] Jean Palou, op. cit., p. 21.

[6] J. A. F. Benimelli, G. Caprile, V. Alberton, Maçonaria e Igreja Católica, Ontem, Hoje e Amanhã, Edições Paulinas, 1983, p. 58.

[7] Joules Boucher, op. cit., p. 235.

[8] Jean Palou, op. cit., pp. 48, 49.

[9] Ibid. p. 49.

[10] Dora Wiebenson, op. cit. P. 132.

[11] Jean Palou, op. cit.., p. 50.

[12] James Anderson, op. cit. Na introdução da obra o seu tradutor relata as circunstâncias em que a mesma foi escrita.

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