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MAÇONARIA: A CONTRIBUIÇÃO DE JAMES ANDERSON

  • há 6 minutos
  • 4 min de leitura

Por Eleutério Nicolau da Conceição


 

MAÇONARIA: A CONTRIBUIÇÃO DE JAMES ANDERSON


A compreensão da história apresentada por Anderson na sua conhecida obra “As Constituições”, era também compartilhada por outros autores da época, que adotavam a Bíblia como referência inquestionável. Na introdução de sua famosa obra, Anderson ensina:

“Adão, nosso primeiro pai criado a imagem de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, deve ter tido as ciências liberais, particularmente a geometria escrita em seu coração...”[1]


E segue daí, citando a instrução de Adão a seus filhos. Passa pelas antigas civilizações, dando a entender a existência contínua de uma Maçonaria (arte de construir) universal desde os tempos mais remotos da história. Outros autores seguiram-se a Anderson, interpretando, ampliando e aprofundando suas afirmações, citando-se mutuamente, a ponto de, pela repetição em diferentes fontes, as fantasias acabarem assumindo para alguns leitores foro de verdade. Curiosamente, mesmo o texto de Anderson, as famosas “Constituições” refere-se ainda aos costumes dos construtores operativos. Sua “história” da Maçonaria nada mais é que um relato imaginativo do desenvolvimento da arte de construir através de diferentes povos e épocas. Quando ele fala em maçom, refere-se ao trabalhador operativo, ou aceito, mas seu conceito nada tem em comum com aquele hoje atribuído a essa palavra, como atesta a simples leitura de sua obra:[2]


As Constituições de Anderson
Página inicial de “As Constituições” publicada em 1723.

...E porque se acredita racionalmente que o glorioso Augusto tornou-se o Grão Mestre da Loja de Roma, pois além de patrocinar Vitrúvio, contribuiu bastante para o bem-estar dos companheiros, como o testemunham os numerosos monumentos construídos em seu reinado cujas ruínas se tornaram o Modelo e Padrão da verdadeira Maçonaria em todos os tempos futuros, pois são verdadeiramente o epítome da arquitetura asiática, egípcia, grega e siciliana, que designamos comumente sob o nome de estilo de Augusto, e que não fazemos agora senão tentar imitar, sem que tenhamos atingido sua perfeição.

 

Observe-se que para Anderson, a “verdadeira Maçonaria”, referencial para todas as épocas futuras, resumia-se em um estilo arquitetônico, sem qualquer referência a conceitos filosóficos, ou místicos. Mais adiante ele acrescenta outras informações a respeito do que entendia por maçom:

Não se deve esquecer que os pintores, assim como os escultores, foram sempre considerados bons maçons, como o foram os construtores, os talhadores de pedra, os pedreiros, os carpinteiros, os marceneiros, os tapeceiros, os fabricantes de tendas, da mesma forma que um grande número de outros artesãos que se poderia indicar, e que trabalhavam segundo a geometria e as regras da construção.[3]

 

Ressaltando: Define-se aqui como “Maçom”, o artesão que trabalha segundo a geometria e as regras da construção.

 

Ao comentar as obrigações e leis examinadas pelas autoridades à época do rei Henrique VI, ele cita um manuscrito, onde existe referência ao tipo de instrução dado aos aprendizes:

“Em outro manuscrito mais antigo, lemos: Que quando o Mestre e os vigilantes se reúnem em loja, se for necessário, o Xerife do condado, ou o Prefeito da cidade, ou o Almotacel da vila, na qual se realize a assembleia, deverá ser feito companheiro e associado ao Mestre, para assisti-lo contra os rebeldes, e para salvaguardar os Direitos do Reino. Que quando os aprendizes são feitos, eles serão recomendados para não serem ladrões, nem receptadores, para trabalharem honestamente pelo salário, amar seus companheiros como a si próprios, e serem fiéis ao Rei da Inglaterra, ao Reino e à Loja.[4]

 

Concluindo a parte “histórica” de seu texto, Anderson novamente deixa claro que toda sua exposição até então tem por objetivo enaltecer a arte de construir, não a instituição hoje conhecida pelo mesmo nome:

Em resumo, numerosos e grossos volumes seriam necessários para conter os múltiplos e esplêndidos exemplos da potente influência da arte de construir desde a criação, em cada época, e em todas as nações, que poderiam ser coligidos nas narrações de historiadores e dos viajantes: mais particularmente naquelas partes do mundo onde os europeus mantêm relações e fazem o comércio, de tais ruínas antigas, espaçosas, curiosas e magníficas colunatas que foram descobertas pelos pesquisadores, que não podem deplorar o suficiente as devastações gerais dos godos e dos muçulmanos; devemos concluir, que nenhuma arte jamais recebeu tanto incentivo como esta; pois verdadeiramente nenhuma é tão geralmente útil à humanidade.[5]

 

Um asterisco no final desse texto remete o leitor à citação no pé da página, onde o autor, orgulhosamente, apresenta longa lista de edifícios públicos e particulares erigidos “Depois do renascimento da Maçonaria romana na Grã-Bretanha”. Ele deixa claro sua compreensão de “Maçonaria romana” como um estilo arquitetônico, não uma instituição filosófica, ou escola de mistérios. Vê-se assim que a “Maçonaria milenar” não é a Ordem maçônica como nós a conhecemos, ou qualquer organização embrionária a ela assemelhada, mas simplesmente, a arte de construir.

 

Assim, pode-se dizer que os construtores do passado foram maçons, do mesmo modo que todos os homens dedicados ao trabalho em embarcações no mar são marinheiros ou todos aqueles que se dedicam à pesca são pescadores. Não decorre daí a existência de qualquer organização comum a todos eles, uma marinha ancestral, transmitindo instruções continuamente de uma nação para outra. É evidente que, pela identidade de profissão, esses marujos têm em comum, mesmo em diferentes partes do mundo, comportamentos, técnicas e até instrumentos idênticos.


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A obra apresenta uma abordagem racional, descrevendo as origens da Maçonaria e as influências exercidas pelos eventos históricos e culturais de cada período, desde a mística medieval até o iluminismo, sem recorrer aos costumeiros voos da imaginação presentes em outras obras do gênero.


Destaca-se o ideal maçônico de aperfeiçoamento pessoal e de fraternidade universal, pilares fundamentais da Ordem.


MAÇONARIA RAÍZES HISTÓRICAS E FILOSÓFICAS

 


Notas de rodapé

[1] James Anderson, As Constituições dos Franco Maçons, de 1723 Ed. A Fraternidade, São Paulo, 1982, p. 1. A edição apresenta a reprodução em português e inglês do texto de Anderson, com tradução fiel de João Nery Guimarães.

[2] Ibid

[3] Ibid., pp. 25, 26.

[4] Ibid., p. 34.

[5] Ibid., p.p. 44-46.


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