JOSÉ BONIFÁCIO E GONÇALVES LEDO: Rivalidade Maçônica e Ideológica na Formação do Brasil Imperial
- 4 de mar.
- 18 min de leitura
Por Geraldo Marcelo Lemos Gonçalves[1]
JOSÉ BONIFÁCIO E GONÇALVES LEDO:
Rivalidade Maçônica e Ideológica na Formação do Brasil Imperial

Resumo
Este artigo analisa a complexa relação entre José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Gonçalves Ledo no contexto da Independência do Brasil, destacando suas divergências ideológicas no âmbito da Maçonaria e seus projetos políticos antagônicos. Enquanto Bonifácio defendia uma monarquia centralizada e moderada, Ledo pregava a ruptura total com Portugal e os ideais republicanos. O estudo examina o conflito entre as duas figuras, a criação do “Apostolado” por Bonifácio, sua influência na formação de D. Pedro II e o apagamento histórico de Gonçalves Ledo. Por fim, discute-se se as ações de Bonifácio representaram traição aos princípios maçônicos ou pragmatismo político.
1. Introdução
A história da Independência do Brasil (1822) está intimamente ligada à atuação de maçons, estes utilizaram as lojas maçônicas como espaço de articulação política e difusão de ideais libertários. Entre os protagonistas desse processo, destacam-se duas figuras emblemáticas, José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Gonçalves Ledo. Eles divergiam em suas visões sobre o futuro do país, protagonizando uma disputa que reverberou tanto no Grande Oriente do Brasil (GOB) quanto no cenário político imperial.
No século XIX, a Maçonaria brasileira consolidou-se como um importante espaço de sociabilidade das elites intelectuais e políticas, servindo como laboratório de ideias reformistas e progressistas. Nesse ambiente, desenvolveu-se a rivalidade entre Bonifácio e Ledo, cuja tensão ultrapassou as lojas maçônicas, atingindo o cerne das decisões acerca dos rumos da nascente nação.
José Bonifácio, o “Patriarca da Independência”, defendia uma monarquia constitucional forte e centralizada (CASTELLANI, 1997, p. 52) e acreditava que apenas um governo firme evitaria o caos e manteria a unidade territorial. Suas ideias, influenciadas pela formação europeia e por uma visão ilustrada de Estado, priorizavam progresso e ordem.
Já Joaquim Gonçalves Ledo representava a ala mais liberal e radical daquele movimento. Inspirado pelos ideais iluministas e experiências republicanas, via a independência como oportunidade de romper com o autoritarismo monárquico e instituir uma nação fundada na soberania popular e no federalismo. Sua atuação política e jornalística foi decisiva para mobilizar a opinião pública, especialmente por meio da imprensa e da reestruturação do GOB.
A divergência entre ambos resultou em episódios marcantes, como a fundação do Apostolado por Bonifácio (uma ordem paramaçônica rival à Maçonaria) e o fechamento do GOB em 1822, seguido da perseguição aos aliados de Ledo. Esse rompimento não apenas selou a divisão entre as correntes, mas também iniciou uma reescrita da história da Independência, que exaltou Bonifácio e gradualmente apagou Ledo da memória nacional. O episódio revela a seletividade da historiografia e a influência do poder político na construção dos heróis nacionais.
2. A Maçonaria no Processo de Independência
A Maçonaria chegou ao Brasil ainda no período colonial, inicialmente vista como atividade clandestina e subversiva pela Coroa Portuguesa. Inspirada pelos ideais iluministas europeus, difundia valores como liberdade, igualdade, fraternidade, racionalidade e soberania dos povos, princípios que confrontavam o absolutismo e o modelo colonial. Por isso, maçons eram perseguidos e precisavam atuar em segredo, o que acentuou seu “caráter conspiratório” nos séculos XVIII e XIX.
Com a chegada da família real em 1808 e com abertura dos portos, criou-se um ambiente mais propício à articulação de ideias liberais. Aproveitando-se disso, a Maçonaria passou a se organizar mais abertamente, tornando-se espaço privilegiado de sociabilidade entre a elite letrada, comerciantes, militares e intelectuais. As lojas tornaram-se núcleos de debate político e mobilização por reformas institucionais, culminando na emancipação do Brasil.
No início do século XIX, a influência maçônica cresceu com contornos políticos explícitos. Em 1822, ano-chave da independência, foi fundado o GOB para coordenar a atuação das lojas no país. A fundação coincidiu com a ascensão de Gonçalves Ledo e de José Bonifácio, ambos maçons, porém, com visões divergentes sobre a nova ordem a ser construída. O GOB tornou-se símbolo da institucionalização maçônica e arena de disputa entre projetos opostos de nação.
Enquanto maçons liderados por Ledo viam na Maçonaria um instrumento para romper com Portugal e instaurar um regime republicano nos moldes das revoluções americana e francesa, outro grupo, liderado por Bonifácio, propunha reformas graduais dentro de uma monarquia constitucional. A tensão entre os dois lados expunha os limites da unidade maçônica e refletia diferentes interpretações dos ideais iluministas, ajustadas à realidade brasileira.
Além de espaço de debate, a Maçonaria atuava estrategicamente na articulação de lideranças regionais e mobilização da opinião pública. Suas lojas, espalhadas pelas províncias, mantinham redes de correspondência e solidariedade, permitindo atuação coordenada. Essa organização foi essencial para a aclamação de D. Pedro I como “Defensor Perpétuo do Brasil”, articulada por Ledo, e para disseminar a ideia de separação de Portugal, mesmo com a resistência da elite lusa e de setores conservadores.
Contudo, esse poder gerava desconfiança. Bonifácio, diante do avanço da ala radical de Ledo, rompeu com o GOB e reprimiu sua atuação, culminando no fechamento deste em outubro de 1822. Esse episódio marcou o início de um novo ciclo na história maçônica brasileira, com declínio momentâneo de sua influência e a criação do Apostolado, alternativa alinhada ao projeto “bonifaciano”.
Portanto, a Maçonaria no Brasil não foi homogênea, mas um campo de tensões que refletiam as contradições da própria independência (NEVES, 2003, p. 114). Sua atuação foi crucial para a ruptura com Portugal, mas também esteve sujeita a disputas internas de alguns maçons que pendulavam entre a filosofia da “Arte Real” e o “jogo político” que moldariam o futuro do país segundo suas convicções. Compreender esse papel ambíguo é essencial para entender a complexidade do período e das instituições que emergiram no Brasil imperial.
Assim, a Maçonaria no Brasil não foi um bloco homogêneo, mas um campo de tensões e disputas que refletiam as contradições do próprio processo de independência. Sua atuação foi decisiva para a ruptura com Portugal, mas também esteve submetida às disputas internas e ao jogo político daqueles que buscavam moldar o futuro do país segundo suas convicções e interesses. A compreensão desse papel ambíguo é fundamental para entender a complexidade do período e a natureza das instituições que emergiram no Brasil imperial.
3. Gonçalves Ledo: O Republicano Radical
3.1. Formação e Atuação Política
Joaquim Gonçalves Ledo (1781–1847) nasceu no Rio de Janeiro; desde jovem, destacou-se pelo interesse por letras e ciências, ingressando no curso de Medicina da Universidade de Coimbra, em Portugal, um dos principais centros formadores da elite colonial. Embora não tenha concluído os estudos, sua permanência na Europa o expôs diretamente aos ideais iluministas, ao liberalismo político e às tensões provocadas pelas revoluções francesa e americana, experiências que moldaram sua visão política ao retornar ao Brasil.
De volta ao Rio de Janeiro em 1808, ano da chegada da família real, Ledo passou a integrar os círculos de debate político e cultural que se formavam na nova capital do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Engajado no movimento constitucionalista em ascensão em ambos os lados do Atlântico, tornou-se defensor de reformas liberais e do fim do pacto colonial. Seu ativismo aproximou-o de militares e intelectuais comprometidos com a causa da autonomia brasileira, ainda que sob perspectivas ideológicas diversas.
Sua atuação política consolidou-se com a militância na Maçonaria e o protagonismo na imprensa. Foi um dos responsáveis pela reativação da Loja Maçônica Comércio e Artes, que se tornaria centro influente do GOB. Além das reuniões maçônicas, Ledo via a comunicação como estratégia essencial para formar a opinião pública, fundando o jornal Revérbero Constitucional Fluminense (1821–1822). Nele, defendeu com firmeza a separação entre Brasil e Portugal, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a soberania popular como base da nova ordem.
“No Revérbero Constitucional Fluminense, Ledo defendeu a convocação de uma Constituinte e atacou a postura moderada de José Bonifácio” (COSTA, 1994, p. 89), denunciava manobras das elites lusitanas contra a emancipação e criticava duramente José Bonifácio, que considerava um freio ao impulso revolucionário, favorecendo uma conciliação conservadora com Portugal. Para Ledo, a independência exigia transformações profundas: liberdades civis, fim dos privilégios aristocráticos e criação de instituições representativas e descentralizadas.
Sua trajetória também se entrelaça com os principais eventos da Independência. Em 1822, teve papel central na articulação que levou à nomeação de D. Pedro I como “Defensor Perpétuo do Brasil”, usando a Maçonaria como plataforma de mobilização nacional. No entanto, sua postura radical e a proposta de uma Constituinte ampla incomodaram setores conservadores, levando à perseguição e, ao fim daquele ano, ao seu exílio, um ponto de virada em sua carreira pública.
Apesar do afastamento, Ledo seguiu atuando na imprensa e em círculos maçônicos, sempre em defesa do republicanismo, do federalismo e da autonomia provincial. Sua atuação precoce e fiel aos ideais iluministas o coloca entre os personagens mais relevantes, ainda que nem sempre reconhecido, da luta pela emancipação brasileira e pela construção de uma ordem mais democrática nos primeiros anos do Império.
3.2. Conflito com José Bonifácio
O embate entre Joaquim Gonçalves Ledo e José Bonifácio de Andrada e Silva foi mais que uma rivalidade pessoal, representou a colisão de projetos políticos opostos para o Brasil recém-independente. Ledo defendia a ruptura completa com Portugal e a adoção de um sistema republicano e descentralizado. Bonifácio, por sua vez, acreditava que a independência só se consolidaria com uma monarquia constitucional forte e centralizada, capaz de preservar a unidade nacional.
Inicialmente, ambos colaboraram na causa independentista, especialmente por meio da Maçonaria. Por influência do grupo de Ledo, D. Pedro I foi iniciado na ordem maçônica (sob o nome Guatimozim, em alusão ao último imperador asteca) e aclamado como “Defensor Perpétuo do Brasil” em agosto de 1822. A estratégia de Ledo era clara, vincular o príncipe à Maçonaria e aos ideais de autonomia, fazendo dele um símbolo da nova ordem liberal e defensor da convocação de uma Assembleia Constituinte. Contudo, essa instrumentalização política da Maçonaria gerou apreensão em Bonifácio, que via com desconfiança seu crescimento e o radicalismo do grupo liderado por Ledo.
O rompimento ocorreu quando Ledo propôs a instalação imediata de uma Constituinte com ampla representatividade, incluindo províncias distantes. Bonifácio, temendo a fragmentação territorial e a instabilidade, rejeitou a proposta. Para ele, o momento exigia prudência, controle central e coesão. Já Ledo via uma chance histórica de romper com o absolutismo e instituir uma ordem democrática. O impasse revelou a profundidade das diferenças entre os dois, fragilizando a aliança inicial.
A tensão atingiu o seu ápice no segundo semestre de 1822. Bonifácio, então ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros, acusou Ledo e seus aliados de conspiração e desordem via Maçonaria. Com apoio de D. Pedro I, ordenou o fechamento do GOB em outubro e iniciou a repressão aos maçons próximos a Ledo. Este foi acusado de sedição e forçado ao exílio em Buenos Aires, onde permaneceu até a queda dos Andradas em 1823.
Esse episódio marcou uma inflexão tanto na trajetória de Ledo quanto no papel da Maçonaria no Brasil; o fechamento do GOB e a criação, por Bonifácio, da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, doravante conhecido como “Apostolado”, revelaram seu esforço em estabelecer uma organização secreta alinhada ao seu projeto de Estado, menos vulnerável a influências radicais. Muitos viram a atitude como traição aos princípios maçônicos de liberdade e fraternidade; Bonifácio, porém, a justificou como necessária à ordem e à proteção da nação nascente.
A partir desse conflito, delinearam-se dois polos políticos distintos: o reformismo centralizador de Bonifácio e o liberalismo republicano de Ledo. Essa polarização ecoaria por todo o Primeiro Reinado e influenciaria os debates sobre o papel da monarquia, os limites da participação popular e a organização do Estado.
Embora Ledo tenha retornado ao Brasil e atuado durante a Regência, jamais recuperou o prestígio anterior ao conflito com Bonifácio. Seu nome foi sendo apagado da narrativa oficial da Independência, enquanto a figura do “Patriarca” era consolidada como símbolo do Império. Apenas nas últimas décadas, com o avanço da historiografia crítica, Ledo passou a ser resgatado como figura essencial na luta pela autonomia e pela construção de um Brasil mais plural e democrático.
4. José Bonifácio: O Monarquista Moderado
4.1. Carreira e Visão Política
José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838) foi uma das figuras mais eruditas e multifacetadas do Brasil colonial e imperial. Nascido em Santos, Capitania de São Paulo, destacou-se desde cedo por sua inteligência e dedicação aos estudos. Em 1783, partiu para Portugal, onde ingressou na Universidade de Coimbra, uma das instituições mais prestigiadas da época. Formou-se em Direito Canônico, Filosofia e Ciências Naturais, construindo uma base sólida que seria essencial em sua futura atuação política e intelectual.
Durante mais de três décadas na Europa, Bonifácio viveu a efervescência do Iluminismo, convivendo com pensadores e cientistas renomados. Membro de diversas academias científicas, realizou pesquisas em mineralogia e metalurgia em países como França, Alemanha, Itália e Suécia. Ganhou reconhecimento internacional e o apelido de “Patriarca das Ciências Naturais”, antes mesmo de ser conhecido como articulador da independência Brasileira. Ao retornar ao Brasil em 1819, já septuagenário, trouxe um vasto acervo intelectual europeu e uma visão ilustrada e pragmática do futuro nacional.
Seu retorno coincidiu com as tensões que levariam à separação do Brasil de Portugal. Logo assumiu cargos de destaque, tornando-se em 1821 membro do Conselho de Estado e, em 1822, Ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de D. Pedro I. Nessa posição, consolidou sua influência sobre o príncipe regente, sendo conselheiro direto e articulador político da ruptura com as Cortes de Lisboa. Sua diplomacia e prestígio intelectual foram decisivos para conter o separatismo em algumas províncias e angariar o apoio da elite à causa da independência, sempre nos moldes de uma monarquia constitucional.
Sua visão política defendia um Estado forte, centralizado e ordenado. Para Bonifácio, o Brasil, com seu extenso território e diversidade regional, não suportaria um regime fragmentado ou excessivamente liberal. Inspirado nas monarquias constitucionais europeias, acreditava na figura do imperador como autoridade moderadora, capaz de garantir estabilidade, proteger as liberdades civis e promover o progresso por meio da educação, ciência e moralização dos costumes.
A preocupação com a unidade nacional o levou a combater movimentos que considerava desagregadores, como o federalismo radical e o republicanismo popular. Temia que uma independência precipitada e sem estrutura institucional fragmentasse o território, como ocorrera na América Hispânica. Por isso, se opôs à convocação de uma Assembleia Constituinte nos moldes de Gonçalves Ledo, preferindo um processo controlado por elites ilustradas e patrióticas.
Além da política, Bonifácio demonstrava preocupações sociais e econômicas avançadas. Defendia a abolição gradual da escravidão e a integração dos indígenas, propondo medidas humanistas e educativas. No entanto, suas ideias eram frequentemente abafadas por interesses políticos imediatos e pela resistência das elites escravistas, pilares da economia do Império nascente. Mesmo assim, seus projetos revelam a tentativa de harmonizar ordem e progresso, fórmula que mais tarde se tornaria central na ideologia do Estado brasileiro.
A carreira e a visão política de José Bonifácio foram cruciais para moldar o Brasil independente. Sua trajetória une erudição científica, pragmatismo e ideal iluminista de governo. Embora sua postura conservadora tenha sido criticada, especialmente pelos mais radicais, como Ledo, sua influência foi decisiva para estruturar o Estado imperial e preservar a unidade territorial do país.
4.2. O Apostolado e o Fechamento do GOB
Em meio à crescente tensão entre os grupos que disputavam os rumos do Brasil independente, José Bonifácio tomou uma medida decisiva, fundou em 1822 a “Ordem do Apostolado”, nascida alternativa à Maçonaria tradicional, especialmente ao GOB, então sob forte influência de Gonçalves Ledo e da ala liberal republicana. Isso não apenas um gesto político, mas também simbólico, representando a ruptura entre duas correntes maçônicas e, por extensão, entre dois projetos opostos de país.
Bonifácio via no GOB um foco de instabilidade, alimentado por ideias radicais que, a seu ver, ameaçavam a unidade territorial e a viabilidade da monarquia constitucional. A Maçonaria, defensora histórica da liberdade e fraternidade, tornara-se, em sua visão, um instrumento de facções subversivas e desagregadoras. O Apostolado foi concebido como uma ordem leal ao governo imperial, baseada em disciplina, hierarquia e fidelidade ao projeto centralizador liderado por Bonifácio.
A fundação do “Apostolado” fez parte de uma ofensiva para desarticular o poder político de Ledo e seus aliados. Em outubro de 1822, meses após a proclamação da Independência, Bonifácio ordenou o fechamento do GOB e iniciou a perseguição aos maçons ligados à ala radical. Ledo, acusado de conspirar contra o novo governo, foi forçado ao exílio em Buenos Aires. Outros maçons também foram punidos com prisões, afastamentos de cargos e difamações na imprensa oficial.
A dissolução do GOB e o avanço do “Apostolado” marcaram uma mudança significativa no cenário político e simbólico do Brasil Imperial. Por um lado, demonstravam o poder acumulado por Bonifácio como principal articulador do governo de D. Pedro I, por outro, revelavam sua disposição de usar métodos autoritários para conter ameaças à monarquia. A atitude gerou críticas de antigos aliados e levantou dúvidas sobre sua fidelidade aos ideais maçônicos que antes defendera.
O Apostolado, contudo, teve vida breve e envolta em mistério. Seus membros atuavam com discrição, e pouco se sabe sobre sua estrutura e atividades. Historiadores indicam que sua influência se dissipou após a queda dos Andradas em 1823, embora sua criação tenha deixado um legado duradouro na forma como o Estado passou a lidar com sociedades secretas e movimentos civis. Historicamente, o Apostolado pode ser visto como instrumento de contenção política e tentativa de institucionalizar uma ordem alinhada ao Executivo.
Assim, o confronto entre o GOB e o Apostolado não foi apenas uma disputa entre Bonifácio e Ledo, mas uma metáfora do embate entre dois modelos de Estado, um centralizador e ilustrado. Outro, voltado à participação popular e descentralização. “A criação do Apostolado por Bonifácio pode ser interpretada como reação ao avanço de ideias republicanas dentro da Maçonaria tradicional” (CASTELLANI, 1993, p. 134). Bonifácio deixou sua marca na história do Brasil imperial como estadista, estrategista e, para alguns, como traidor dos princípios que o formaram.
4.3 A Influência de Bonifácio na Formação de D. Pedro II
Com a abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831, o Brasil entrou em um período político delicado. O príncipe herdeiro, Pedro de Alcântara (D. Pedro II), tinha apenas cinco anos, o que impedia sua ascensão imediata ao trono. Para garantir a continuidade do regime monárquico e preparar o futuro imperador, o governo regencial nomeou José Bonifácio como tutor oficial, reconhecendo sua autoridade moral e confiança em sua capacidade intelectual e política.
Sua escolha como preceptor foi mais que uma decisão administrativa, atribuía a Bonifácio a missão de moldar o caráter, o pensamento e os valores do futuro soberano. Para muitos contemporâneos, ele representava o ideal do saber iluminista e da prudência política. Caberia a ele não só ensinar conteúdos, mas formar um estadista apto a preservar a ordem imperial num cenário instável, com disputas entre liberais e conservadores, revoltas regionais e ameaças à integridade nacional.
Bonifácio encarou a missão com seriedade quase sacerdotal. Cartas, relatórios e testemunhos revelam um educador atento, focado na formação moral e intelectual do jovem príncipe. Transmitiu valores como a importância do monarquismo constitucional, a centralização política para manter a unidade e o papel da educação e ciência como motores do progresso. Esses princípios moldaram a personalidade de D. Pedro II e influenciaram sua forma de governar nas décadas seguintes.
A ênfase de Bonifácio na ciência levou D. Pedro II a se tornar um dos monarcas mais cultos do século XIX. Fluente em várias línguas, patrono das artes e incentivador das ciências, o imperador demonstrou traços claros do ideal ilustrado defendido por seu tutor. A valorização do saber, a defesa das instituições e a recusa ao autoritarismo marcaram seu reinado, reflexo direto da convivência com Bonifácio.
Bonifácio também ensinou que o monarca deveria ser um árbitro neutro entre partidos e grupos sociais. Essa ideia do “poder moderador”, central à monarquia brasileira, foi reforçada em sua educação. Para ele, o imperador deveria pairar acima das disputas políticas, garantindo estabilidade sem ceder aos extremos. Essa concepção moldou D. Pedro II como chefe de Estado que, embora atuante, priorizava o consenso e a conciliação.
No entanto, a relação entre Bonifácio e os regentes foi tensa. Sua influência causava desconforto entre setores do poder, que temiam sua ascendência sobre o herdeiro. Suas opiniões firmes e fama de inflexível o tornaram alvo de intrigas, culminando em seu afastamento como tutor em 1833. Mesmo assim, os dois anos de convivência deixaram marcas profundas, como o próprio imperador reconheceria mais tarde em várias ocasiões públicas.
Portanto, a influência de Bonifácio na formação de D. Pedro II, embora breve, foi marcante. As sementes lançadas nesse período germinaram ao longo do reinado, que, apesar de suas limitações, buscou harmonizar modernização, estabilidade e continuidade institucional exatamente como idealizava o velho Patriarca.
5. O Apagamento Histórico de Gonçalves Ledo
Joaquim Gonçalves Ledo foi um dos principais artífices da independência do Brasil, com papel relevante tanto na política quanto na difusão de ideias liberais pela imprensa e pela Maçonaria. Apesar de sua atuação decisiva entre 1821 e 1822, seu nome foi gradualmente eclipsado da historiografia oficial, enquanto outros, como José Bonifácio e os Andradas, foram alçados ao panteão de heróis nacionais. Esse apagamento não foi acidental, mas fruto de perseguição política, manipulação narrativa e disputas de memória que moldaram a identidade do Brasil imperial.
O esquecimento começou logo após seu rompimento com Bonifácio e a dissolução do GOB, em outubro de 1822. Acusado de conspirar contra o governo e de incentivar o radicalismo republicano, Ledo foi exilado em Buenos Aires. Esse exílio, num momento crítico da consolidação do Estado, o afastou das decisões e facilitou o domínio da narrativa pelos vencedores políticos. Ao silenciar uma das vozes mais ativas da independência, criou-se espaço para uma história pacificada e centralizada, moldada para legitimar a monarquia nascente.
Nas décadas seguintes, Ledo foi substituído por uma versão higienizada da independência, centrada em D. Pedro I e no “Patriarca” Bonifácio. Essa narrativa ignorava as contradições, os conflitos e o papel da Maçonaria como espaço de articulação republicana. A Maçonaria passou a ser tratada de forma ambígua ou secundária, e seus expoentes, como Ledo, foram relegados ao rodapé dos manuais escolares ou simplesmente omitidos. A centralização da história em torno da monarquia autoritária colaborou para esse processo de exclusão.
Outro fator importante foi a perda, destruição ou ocultação de documentos ligados a Ledo. Muito do que se conhece sobre ele está disperso em fontes fragmentadas, como jornais, atas maçônicas e registros parlamentares. Diferente dos Andradas, cujos escritos foram preservados e celebrados, os textos de Ledo sofreram negligência sistemática, dificultando a reconstrução de sua trajetória. A ausência de fontes primárias reforçou a visão de que sua importância teria sido marginal, percepção hoje contestada por historiadores.
O perfil político de Ledo, defensor do republicanismo, do federalismo e da participação popular, contrastava com os valores promovidos pela elite imperial. Sua imagem passou a ser associada ao radicalismo e à instabilidade, justificando sua exclusão do cânone histórico. Em um Brasil que buscava afirmar-se como monarquia constitucional estável, um líder republicano atuante representava uma ameaça simbólica. Assim, o apagamento de Ledo foi também um gesto de preservação ideológica.
A reabilitação de sua imagem ganhou força apenas no final do século XX, com a historiografia crítica e com a valorização de narrativas alternativas. Pesquisadores como José Castellani, Emília Viotti da Costa e outros passaram a resgatar seu papel na luta pela independência e denunciar o silenciamento de sua memória. Ledo começou, então, a ser reconhecido como um dos principais defensores da emancipação, com um projeto político baseado nos ideais iluministas, na liberdade de imprensa, na soberania popular e na descentralização.
A redescoberta de Ledo é mais do que justiça histórica, é uma chance de repensar os fundamentos da política brasileira. Seu esquecimento expõe os mecanismos de exclusão e manipulação da memória coletiva, mostrando que a história oficial, muitas vezes, é escrita pelos vencedores, às custas da pluralidade de vozes que coexistiram nos momentos fundacionais. Valorizar figuras como Gonçalves Ledo é, portanto, enriquecer a compreensão do passado e ampliar os horizontes democráticos da narrativa nacional.
7. Considerações Finais
A rivalidade entre José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Gonçalves Ledo foi mais que um embate entre personalidades distintas, representou a colisão de dois projetos profundamente diferentes de Brasil. Bonifácio defendia o reformismo ilustrado europeu e uma monarquia constitucional centralizada, capaz de garantir unidade e ordem em um país continental. Ledo propunha uma alternativa mais radical, baseada na soberania popular, descentralização e ampliação da participação política, inspirada no iluminismo e nas experiências republicanas transatlânticas.
A disputa entre os dois ultrapassou a política institucional e ganhou força dentro da Maçonaria, transformando as lojas em arenas ideológicas. Enquanto o GOB consolidava-se como espaço de articulação liberal, a criação do “Apostolado” por Bonifácio foi uma tentativa de subordinar as sociedades secretas ao projeto monárquico. O conflito revelou não apenas o poder simbólico da Maçonaria, mas a tensão constante entre liberdade e autoridade, entre idealismo e pragmatismo, que marcaria o Brasil independente.
O fechamento do GOB, a perseguição aos maçons radicais e o exílio de Ledo foram expressões claras dessa tensão. Bonifácio atuou com firmeza para garantir a hegemonia de sua visão de Estado, mesmo rompendo com princípios maçônicos que um dia defendera. A criação do “Apostolado” e o silenciamento das vozes dissidentes mostram a complexidade de sua atuação ora defensor do progresso, ora estadista autoritário disposto a sacrificar ideais em nome da estabilidade política de seus ideais. Sua influência na formação de D. Pedro II mostra que sua visão prevaleceu e moldou o futuro político do Império.
Por outro lado, “A exclusão de Ledo da narrativa oficial mostra como a memória histórica pode ser moldada por interesses de poder” (MOTA, 2008, p. 143). Sua participação na Independência foi vista como uma ameaça ao projeto de legitimidade da ordem monárquica. Ao apagá-lo, extinguiu-se também a possibilidade de imaginar um Brasil fundado sobre bases mais democráticas e populares, mais aberto à pluralidade e à descentralização do poder.
Recuperar esse embate e dar visibilidade às contribuições de ambos não é apenas tarefa historiográfica, mas um ato político. Compreender a complexidade da Independência e reconhecer que ela foi fruto de disputas, traições e negociações ajuda a desmitificar a história oficial e a refletir criticamente sobre o Brasil atual. “A rivalidade entre Bonifácio e Ledo revela dilemas que ainda persistem na política brasileira, como centralismo versus participação popular” (PANDOLFI, 1999, p. 119).
Este artigo defende que não se pode compreender a formação do Brasil imperial sem analisar a tensão entre essas figuras e os legados opostos que deixaram. Em vez de escolher um herói e apagar o outro, é necessário reconhecer que a construção da nação foi e ainda é um processo disputado, plural e contraditório. Recolocar Gonçalves Ledo no centro do debate é também resgatar a possibilidade de um Brasil que, desde o início, poderia ter seguido por outros caminhos.
Referências Bibliográficas
APOSTOLADO DA NOBRE ORDEM DOS CAVALEIROS DE SANTA CRUZ. O Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz. Disponível em: https://apostolado.com.br/. Acesso em: 25 abr. 2025.
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JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. A Política Imperial: O Poder Moderador. São Paulo: Brasiliense, 1990.
MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da Cultura Brasileira: 1933–1974. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
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SODRÉ, Nelson Werneck. História da Política no Brasil (1930–1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
Nota de rodapé
[1] Geraldo Marcelo Lemos Gonçalves é Mestre Maçom, membro da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Estrela Maior de Turmalina nº 243, REAA, confederada à COMAB: Grande Oriente de Minas Gerais.




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