O QUE DIZER APÓS A APRESENTAÇÃO DE UMA PRANCHA
- 20 de mai.
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Por Cídio Lopes de Almeida[1]
O COMENTÁRIO PÓS-EXPOSIÇÃO NA LOJA COMO EXERCÍCIO ESPIRITUAL

Resumo
O momento pós-exposição nas práticas das Lojas Maçônicas, como tem sido feito sobretudo nas Lives Maçônicas, como exercício espiritual autônomo e prática de co-construção de realidade. Nosso objetivo é examinar e fundamentar, a partir do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e da chave interpretativa de Pierre Hadot sobre os exercícios espirituais, uma compreensão metodológica do comentário pós-exposição maçônica, argumentando que tal momento constitui uma dimensão formativa irredutível do processo iniciático. Como o momento pós-exposição pode ser ressignificado, no interior da tradição maçônica, para além do elogio protocolar e do discurso validatório, convertendo-se em prática efetiva de co-construção epistêmica e de exercício espiritual compartilhado? O momento pós-exposição é sistematicamente negligenciado tanto pela literatura produzida pelos próprios adeptos quanto pela pesquisa acadêmica sobre o fenômeno maçônico. Sua compreensão inadequada compromete o projeto iniciático inscrito nos graus simbólicos e empobrece o potencial filosófico e formativo das Lojas. Nosso método adotado é ensaístico-reflexivo, com ancoragem teórica na filosofia de Pierre Hadot, na história da filosofia natural dos séculos XVIII e XIX e no exame interno dos rituais do Rito Escocês Antigo e Aceito. O comentário pós-exposição, quando praticado com intencionalidade filosófica, configura o terceiro momento de um exercício espiritual triádico — junto à exposição e à escuta reverente — cujo descuido revela uma patologia discursiva que fragiliza o próprio projeto iniciático maçônico.
A atividade maçônica, pensada a partir da chave hermenêutica proposta por Pierre Hadot em suas análises da filosofia antiga, pode ser compreendida como uma forma de exercício espiritual, entendendo-se por isso não uma prática de devoção religiosa em sentido estrito, mas um conjunto de práticas deliberadas de transformação de si, voltadas ao aperfeiçoamento ético, epistêmico e existencial do sujeito. No contexto brasileiro, essa atividade se organiza em sessões semanais de Loja, que abrangem processos de admissão, iniciação e transição de graus, trabalhos administrativos e, de modo especialmente significativo, um espaço denominado tempo de estudos; momento em que um adepto expõe um tema diante dos confrades, em geral derivado dos rituais ou em diálogo com os valores neles inscritos.
É sobre o que ocorre imediatamente após esse momento, o comentário pós-exposição, que o presente ensaio se debruça. Trata-se de um fenômeno pouco estudado, tanto na literatura produzida pelos próprios maçons quanto na pesquisa acadêmica sobre o fenômeno maçônico. Sua relevância, contudo, é considerável, o método maçônico é estruturalmente dependente do protagonismo dos adeptos. Quem faz a Maçonaria são todos os maçons, em especial os Mestres Maçons no interior das Lojas Simbólicas, que reúnem os três primeiros graus da formação maçônica, Aprendiz, Companheiro e Mestre. O REAA, ao afirmar que a Maçonaria valoriza toda forma de conhecimento e ao exigir deferência diante da exposição de um confrade, enuncia não apenas uma etiqueta ritual, mas uma epistemologia, aquela que poderíamos nomear de riqueza epistêmica da fraternidade.
Há, no entanto, uma questão de fundo que raramente se formula com clareza, qual é, afinal, o papel do comentário pós-exposição? Observa-se, na prática corrente das Lojas, pelo menos três modalidades recorrentes e problemáticas. A primeira é a fala elogiosa e vazia, o confrade toma a palavra para dizer que foi "um trabalho belíssimo", sem tocar em nenhum ponto do conteúdo exposto. A segunda é a exposição parasita, o comentarista se empolga e realiza, de fato, uma segunda palestra, desconectada da primeira. A terceira é o silêncio constrangido, ninguém fala, e o expositor é deixado sozinho diante de sua própria entrega. Nenhuma dessas modalidades cumpre a função formativa que o momento exige.
Para compreender por que isso importa, é necessário recorrer ao substrato filosófico que a Maçonaria moderna herdou da Filosofia Natural dos séculos XVIII e XIX. O maçom John Theophilus Desaguliers (1683–1744) — terceiro Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, assistente de Isaac Newton e um dos mais importantes popularizadores do newtonianismo, é figura central nessa genealogia. Em sua produção teórica e em sua atuação na estruturação dos rituais e das Constituições da Maçonaria, Desaguliers inscreveu na fraternidade a ideia de que o homem é, por vocação e por razão, um artífice da realidade; um ser capaz de intervir ativamente na natureza e na sociedade por meio do conhecimento. Essa ideia, desdobrada no interior dos graus simbólicos, funda a concepção do maçom como construtor de realidade social, e não apenas como executor de ritos ou guardião de símbolos.
Pierre Hadot, em sua obra O Véu de Ísis: Ensaio sobre a História da Ideia de Natureza, oferece uma leitura histórico-filosófica que ilumina essa herança. Ao reconstituir a tensão entre a atitude prometeica, segundo a qual o homem deve tornar-se senhor e possuidor da natureza, e a atitude órfica, segundo a qual os mistérios da natureza só se revelam ao poeta e ao artista, Hadot mostra que a ideia de uma natureza que "ama se ocultar" (na fórmula de Heráclito que abre o livro) percorreu a história intelectual do Ocidente e encontrou na Maçonaria um dos seus repositórios mais vivos. O maçom, nessa chave, é aquele que se inicia no processo de desvelamento, processo que é, simultaneamente, interior e exterior, ético e epistêmico.
Se o maçom é perspectivado como construtor de realidade, então a exposição de um adepto em Loja não é um evento pedagógico unidirecional. É um ato de co-construção. E aqui reside o argumento central deste ensaio, o comentário pós-exposição não é um apêndice protocolar, é o terceiro momento de um exercício espiritual que se articula em tríade. O primeiro momento é a preparação e a fala do expositor, que pressupõe estudo, seleção e partilha pública de um saber. O segundo momento é a escuta, e aqui vale insistir, a escuta reverente e atenta é ela mesma uma forma de exercício espiritual. Não é passividade. É uma forma ativa de presença que requer disciplina interior, suspensão do julgamento apressado e abertura genuína ao outro. O terceiro momento é o comentário, e é precisamente aqui que a cadeia do exercício espiritual se rompe com mais frequência.
A demanda constante por validação que se observa nos circuitos maçônicos, manifesta na expectativa de elogios, na reação enfurecida à crítica e na fala que confirma sem interrogar, sugere um fenômeno que merece ser examinado com rigor. Poderíamos, em caráter provisório e heurístico, nomear esse fenômeno como clausura especular, uma configuração discursiva em que o outro nunca funciona como outro, como instância de alteridade, de estranhamento e de enriquecimento, mas apenas como espelho que reflete e confirma o que o sujeito já sabe, já crê, já é. Nessa configuração, a riqueza epistêmica da Maçonaria, que deveria ser sua marca distintiva, se converte em sua negação, a Loja deixa de ser uma comunidade de investigação da Verdade e se transforma em câmara de eco, de psicose coletiva.
O REAA afirma que a Maçonaria não impede que o maçom investigue a Verdade em todas as suas dimensões. Essa afirmação pressupõe, porém, que o maçom esteja disposto a ser confrontado pela Verdade, inclusive quando ela vem na forma de uma objeção fundada, de uma perspectiva divergente ou de um questionamento que desestabiliza uma crença confortável. O comentário pós-exposição é o momento privilegiado para que esse confronto aconteça de modo fraternal e edificante. Para isso, algumas diretrizes metodológicas podem ser esboçadas, sem pretensão de exaustividade. O comentarista deve, primeiramente, vincular sua fala ao que foi dito, ao conteúdo específico da exposição, não a associações livres que a tomam apenas como pretexto. Deve, em segundo lugar, distinguir entre apreciação e análise, reconhecer o esforço do confrade sem que isso substitua o exame do argumento. Deve, em terceiro lugar, ser capaz de formular uma questão genuína, aquela que o expositor não antecipou e que abre a investigação a um horizonte mais amplo.
Nesse sentido, não seria descabido apropriar, com as devidas mediações, certas práticas da comunidade acadêmica, em especial a cultura do debate pós-apresentação, em que a contribuição dos ouvintes é parte constitutiva do evento intelectual e não seu apêndice educado. Para quem produz exposições com rigor e dedicação, o pior comentário não é o que critica, é o que elogia sem dizer nada. O elogio vazio é, paradoxalmente, uma forma de desrespeito, pois trata o expositor como alguém que não suporta ser interpelado, e trata a Loja como um espaço de performance e não de investigação.
Em conclusão, o momento pós-exposição nas atividades maçônicas, conhecido também como tempo de estudos, é uma dimensão formativa irredutível que permanece, em grande medida, teoricamente não tematizada e praticamente mal conduzida. O que se propõe aqui é que ele seja reconhecido como exercício espiritual em sentido hadotiano, uma prática deliberada de transformação de si que exige, do ouvinte, tanto quanto do expositor, presença, intencionalidade e coragem intelectual. A Maçonaria, que se proclama guardiã do projeto de aperfeiçoamento do ser humano, tem no comentário pós-exposição um dos seus laboratórios mais negligenciados e mais fecundos.
Nota de rodapé
[1] Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida é M.'. M.'., Cientista da Religião, Filósofo e Orientador Acadêmico. Conheça o site AMF3 Escola de Filosofia em: https://amf3.com.br/
REFERÊNCIAS
CARPENTER, Audrey T. John Theophilus Desaguliers: A Natural Philosopher, Engineer and Freemason in Newtonian England. London/New York: Continuum/Bloomsbury, 2011. Disponível em: <https://www.bloomsburycollections.com/book/john-theophilus-desaguliers-a-natural-philosopher-engineer-and-freemason-in-newtonian-england>. Acesso em: mai. 2026.
HADOT, Pierre. O Véu de Ísis: Ensaio sobre a História da Ideia de Natureza. Tradução de Mariana Sérvulo. São Paulo: Edições Loyola, 2010. [Edição original: Le voile d'Isis: Essai sur l'histoire de l'idée de Nature. Paris: Gallimard, 2004.] Disponível em: <https://www.goodreads.com/work/editions/296853-le-voile-d-isis>. Acesso em: mai. 2026.
HADOT, Pierre. Exercices spirituels et philosophie antique. Paris: Albin Michel, 2002.
TAUSSIG, Sylvie. Lecture de Pierre Hadot: Le Voile d'Isis, Essai sur l'histoire de l'idée de nature. Sens Public, 2008. Disponível em: <https://sens-public.org/articles/548/>. Acesso em: mai. 2026.



Grato caro Confrade Pedro Brito, das terras do Xingu, sempre um gosto as interações que temos.
Magnífico!
Tange algo que vivi na prática. Na minha primeira Loja, onde fui iniciado, sentia um desestímulo progressivo: os comentários pós-prancha eram tão protocolares que a impressão era de que, mesmo que escrevesse qualquer bobagem, sem pesquisa ou opinião, o elogio seria o mesmo. A exceção de um único Irmão que sempre fazia anotações e trazia algo novo, conectando o tema à sua própria vivência, ninguém oferecia nada além dos mesmos elogios de sempre (e.g. "a régua está subindo", "ainda bem que já sou M∴ M∴). Um único irmão era o ponto fora da curva naquela 'clausura especular' que você descreveu tão bem.
Foi só ao mudar para minha Loja atual que entendi o que é essa co-construção que você…
Seu ensaio além de extremamente bem escrito e fundamentado me fez avaliar e encarar com a devida seriedade a importância desse momento... valeu, meu irmão doutor!! Fraternal abraço!