MEDITAÇÕES FILOSÓFICAS SOBRE O DIVINO: IMPLICAÇÕES MAÇÔNICAS
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Por José Darci Pereira Morsch Soares[1]
MEDITAÇÕES FILOSÓFICAS SOBRE O DIVINO: IMPLICAÇÕES MAÇÔNICAS

1. Considerações gerais
Meditar sobre o Divino é sempre um desafio árduo. Sob a ótica da fé é menos problemático, porque nesse aspecto ou se a tem ou não. Tertuliano (160 a 220 d.C.), teólogo cristão teria dito “creio porque é absurdo” — o que não implica, necessariamente, que esse seja o entendimento da Igreja Católica. Ou seja, a fé transcende o racional e os mistérios divinos não podem ser compreendidos pela lógica humana. Ou, em termos mais categóricos: “se fosse racional, eu entenderia; por que é mistério, eu creio”.
Nestas meditações não se pretende discutir a fé. Ao contrário, examinar a ideia do Divino a partir da racionalidade e, como ao longo da história, povos ou mesmo pensadores, examinaram essa problemática, inclusive, alguns tentando articular razões que provariam que Deus existe, enquanto outros sustentam sua inexistência, ficando a meia distância dessas posições extremas, os agnósticos que não tomam partido, concluindo que não há como provar a existência nem a inexistência.
Importante esclarecer neste passo, que estas considerações se fazem em torno das civilizações ocidentais, porque generalizar a análise para os povos do Oriente com raízes religiosas totalmente diferentes, demandaria muito maior amplitude e profundidade o que foge do escopo desta proposta.
Grosso modo, é razoável asseverar que sendo o homem dotado da capacidade de pensar e interrogar-se, sobre sua existência e sobre o meio ambiente que o envolve, desde logo se deparou com fenômenos — raios, trovões, erupções vulcânicas, maremotos, pestes etc. — que estavam além de sua compreensão e, intuitivamente, passou a atribuir a entidades transcendentes. Por outro viés, parece ser inerente ao ser humano o respeito e reverência aos mortos. Por certo a dor da perda induziu à ideia de que aquele ente sobreviveria em alguma outra dimensão e por isso, entre alguns povos, era costume enterrar com o falecido objetos de seu uso cotidiano ou mesmo voltando ao túmulo para levar alimentos ou fazer algum sacrifício. Nessa perspectiva, cada ancestral era tido como um pequeno Deus. O passo seguinte foi crer em um ser que transcendia os ancestrais. Ou seja, o homem em sua pequenez cósmica intuiu que havia ou deveria haver um Ser maior, organizador dos fenômenos do mundo, a quem passou a reverenciar a até a temer.
Note-se ainda, que não estamos falando de manifestações coletivas de religiosidade. Fustel de Coulanges em sua obra “A Cidade Antiga” nos informa que, num tempo bem recuado, as religiões eram domésticas, sendo costume manter um altar com fogo permanentemente aceso. Não era uma crença coletiva ainda. Cada família tinha sua fé e seus Deuses e essas entidades eram denominadas “lares”, “manes” ou “penates”.
Não devemos esquecer que a primeira forma de compreensão intelectual dos fenômenos naturais, foram estruturados nas crenças mitológicas em que cada fenômeno acontecia por vontade de um Deus (Caos, Gaia, Urano, Titãs, até a complexidade dos Deuses Olímpicos, por muito tempo liderados por Zeus) e na sequência toda série de heróis-deuses para cada fenômeno natural, cosmologia essa que perdurou até o nascimento da Filosofia na Grécia antiga. De todo modo, importante insistir: mesmo que hoje a mitologia seja compreendida mais como lendas, para a época era essa a compreensão do transcendente e da incapacidade humana de lidar ou dominar os fenômenos e por isso, atribuindo-os aos humores dos Deuses tanto os favores recebidos ou os castigos sofridos. Nasce aí o aspecto de “barganha” que caracteriza muitas religiões, ou seja, para receber favores (graças) há que se humilhar, pedir, rogar, implorar e, como moeda reforçadora dos pedidos, fazer sacrifícios, fazer oferendas. Exemplos ou reminiscências dessas práticas são a coleta de dinheiro durante o Ofertório nas Missas católicas e o depósito de alimentos, bebidas e até animais em “despachos” das religiões de matriz africana.
Retomando o fio histórico é necessário consignar que de modo geral, pode-se dividir os sistemas religiosos em dois grandes ramos, o politeísmo e o monoteísmo. O primeiro predominou na Antiguidade, se estendendo até os primeiros séculos da era Cristã, principalmente nas vastas áreas do Império Romano. Nesses primeiros séculos da era vulgar constatava-se ferrenha animosidade e disputa com o Cristianismo nascente. Mas como os períodos históricos não são estanques, por volta dos Séculos VII e VI a.C., nasciam as primeiras religiões monoteístas, o Zoroastrismo e o Judaísmo, não havendo dados históricos que deem certa sobre datas nem quem antecedeu ao outro, embora fossem vizinhos, o Zoroastrismo na Pérsia e o Judaísmo na Palestina.
Consabido que Jesus nasceu e viveu sob o judaísmo e somente após sua morte a doutrina por ele ensinada, e propagada por seus Apóstolos, mas, principalmente por Paulo de Tarso, se estabeleceu e se organizou como Cristianismo, mas só se consolidando no terceiro século de nossa era. Seis séculos depois o mundo viu a emergência do Islamismo. Basicamente são essas três últimas as religiões monoteístas na atualidade, também conhecidas como “religiões do Livro”, porque suas doutrinas estão nas escrituras recebidas em grande parte por revelação.
2. Deus e o problema do Mal
Um dos enigmas mais desafiadores quando se reflete sobre Deus e seus atributos, e dentre eles o da providência, é perguntar como se explica não só a existência do Mal e suas tão inevitáveis quão frequentes precipitações sobre povos ou mesmo sobre indivíduos. As intempéries naturais ocorrem amiúde — inundações, furacões, erupções vulcânicas, abalos sísmicos, secas devastadoras, fenômenos climáticos como o temido “El niño”, sem falar das guerras, das pestes dizimadoras, do holocausto — eventos que provocam ou provocaram danos de grande monta senão mortandades de incontáveis vidas.
E nesse viés ocorrem situações curiosas. Quando ocorre qualquer fenômeno com potencial para causar danos e as pessoas envolvidas escaparam ilesas, costumam dizer com grande senso de gratidão: “graças a Deus”! Mas é muito raro ver-se alguém culpando Deus pela existência desse mesmo fenômeno e blasfemando contra Ele. É uma questão cultural.
Contudo, as interrogações sobre a existência do mal confrontado com o notório atributo da bondade divina é tema muito presente. Basta ir às prateleiras de qualquer livraria, pesquisar em sites de vendas, para se constatar que existem dezenas de obras fazendo esse questionamento: se Deus existe e é bom, por que permite o mal?
É diante dessa interrogação que vale lembrar do “Paradoxo de Epicuro”, que é geralmente expresso por meio de uma série de perguntas: (a) Se Deus está disposto a evitar o mal, mas não é capaz, então Ele não é onipotente? (b) Se Ele é capaz, mas não está disposto, então Ele é malevolente? (c) Se Ele é tanto capaz quanto disposto, por que o mal existe?
Essa sequência lógica destaca a aparente contradição entre as características tradicionalmente atribuídas a Deus (onipotência, onisciência e benevolência) e a existência do mal. Se Deus é realmente todo-poderoso, Ele deveria ser capaz de eliminar o mal. Se Ele é onisciente, estaria ciente de todo sofrimento. Se Ele é completamente bom, Ele desejaria acabar com o sofrimento. A persistência do mal, portanto, levanta dúvidas sobre a coexistência desses atributos.
Filósofos e teólogos, no entanto, propuseram várias refutações ao paradoxo de Epicuro. Uma das mais notáveis é a “Defesa do Livre-Arbítrio”, que argumenta que o mal existe porque Deus concedeu aos humanos o livre-arbítrio, um bem maior que implica no agir moral. Segundo essa visão, o mal resulta do mau uso do livre-arbítrio pelos humanos, e não de uma falta de poder ou benevolência divina.
Estas refutações, no entanto, só explicariam os males resultantes de ações humanas, mas nada dizem sobre os males ou danos causados por intempéries e fenômenos naturais que, querendo ou não são um mal. Esse é um enigma que permanece em aberto, sem solução.
3. Como Deus é concebido pelos que creem
De modo geral da antiguidade, todas as civilizações tiveram crenças em Seres sobrenaturais, por assim dizer, administradores ou organizadores do mundo. Dir-se-ia mesmo que no politeísmo primitivo não havia muita preocupação com a forma que Deus teria.
Na tradição judaica fundada nos relatos bíblicos[2], a forma de Deus foi antropologizada. Daí para a consolidação dessa forma, foi só aguardar que os artistas da pintura e da escultura renascentista reproduzissem essa ideia em suas obras como se pode ver em Museus e Igrejas Católicas Romanas pelo mundo afora.
Essa ideia não deixa de ser contraditória. A ciência em seu estágio atual tem evidências de que o Universo tem bilhões de anos-luz de extensão e continua se expandindo[3]. Ainda de Deus, se diz que é infinito. Ora, ao Planeta Terra o astrônomo Carl Sagan se referiu como sendo um “pálido ponto azul” na vastidão do cosmos. Isso já dá uma ideia de quão insignificantes, em termos de tamanho, somos em relação não só ao Planeta Terra, mas, sobretudo, ante o Universo. Então, se temos consciência de nossa insignificância dimensional, não podemos crer que fomos criados à semelhança de Deus, porque, por lógica isso implica concluir que Deus não é infinito, mas tem a nossa dimensão.
Daí, não se pode pensar que fomos feitos à imagem de Deus, em sentido dimensional. O Filósofo pré-socrático Xenófanes (570/475 a.C.) já havia dito: “Se bois, cavalos e leões tivessem mãos ou pudessem desenhar e fazer obras como os homens, representariam os seus Deuses como bois cavalos ou leões.” Essa ideia antiga foi retrabalhada por um autor moderno. Cuida-se de REZA ASLAN que escreveu “DEUS, UMA HISTÓRIA HUMANA[4]” obra na qual, grosso modo ratifica a conclusão do Filósofo grego. Este minúsculo excerto de suas conclusões basta para esclarecer o ponto. Diz ele. “Deus não nos fez a sua imagem; nem nós simplesmente fizemos Deus à nossa imagem. Em vez disso, somos a imagem de Deus no mundo, não em forma e semelhança, mas em essência.
Por essas e outras é que, definitivamente, a Bíblia não pode ser lida em sua literalidade.
4. Existência de Deus, propostas de provas
De modo geral se pode dizer que Deus não se exibe. Muitos, para não dizer a maioria da humanidade nEle acreditam radicalmente, mas nunca o viram, até porque é inquestionável que se trata de um Ente espiritual. As imagens que Dele se propagam são fruto da imaginação artística de crentes, possivelmente mal interpretando a passagem de Gênesis.
Não obstante isso, no seio do Cristianismo, em que pese o âmbito do conhecimento seja o da metafísica, houve pensadores que ousaram expor argumentos que, segundo eles, provariam a existência racional de Deus. Por certo cometo pecados não mencionando outros pensadores, mas o que seguem foram os mais notórios e convictos.
Platão (428/347 a.C.) é tido como pensador dualista, ou seja, dividindo o mundo em “sensível” — as coisas materiais — e “das ideias” — o supra sensível. Este, seria um mundo perfeito, eterno, imutável enquanto aquele seria necessariamente imperfeito, temporal e mutável. Dizia Platão que não conheceríamos a verdade analisando o mundo sensível, porque é mera sombra, reflexo da perfeição do mundo das ideias. E o Ser perfeito, suprassumo da perfeição era o Demiurgo, organizador do mundo a que só teríamos acesso quando nossa alma fosse para o mundo das ideias.
Aristóteles (384/322 a. C) nunca se referiu a Deus propriamente, mas em sua filosofia criou a teoria das quatro causas, que pode ser aplicada em tudo quanto se possa imaginar: Causa material (de que algo é feito); Causa Eficiente (quem fez o objeto); Causa Formal (que forma tomou o objeto) e, Causa Final (télos ou finalidade do objeto). Aprofundando a ideia da causação, complementa-a a ideia de movimento que, por sua vez afirma que cada corpo em movimento, teve uma causa que o impulsionou. Assim, regressivamente, chega a um ponto em que concebe um “motor imóvel” algo, incausado e embora ele não tenha dito, seus interpretes posteriores concluem que esse motor imóvel é o Deus criador. Esse raciocínio lógico do Estagirita seria pelos séculos o embasamento que deu suporte aos que tentaram provar racionalmente que Deus existe.
Santo Agostinho (354/430 d. C), nascido em Tagaste, África, na sua juventude teve uma vida bastante mundana e depois tendo esposa e um filho antes da conversão, em Milão, quando já contava com 32 anos. Ordenado sacerdote voltou para a África e se tornou Bispo de Hipona, onde ao par da vida religiosa se dedicou à Filosofia sendo reconhecido como um dos maiores pensadores da humanidade e considerado um dos Pais da Igreja. Agostinho, seguindo a lógica e estrutura de pensamento de Platão contrapõe a imperfeição humana com a perfeição Divina e assim o fato de podemos pensar em Deus perfeito só é possível porque Deus assim nos permite. Se não fosse por Deus não conseguiríamos pensar algo perfeito, sendo imperfeitos e nesse raciocínio conclui que está a prova da existência de Deus.
Santo Anselmo de Cantuária (1033/1109 d. C) tornou-se famoso por sua “Prova Ontológica de Deus.” A Prova Ontológica proposta por Santo Anselmo baseia-se na ideia de que Deus é “aquele do qual nada maior pode ser pensado”. O argumento pode ser resumido da seguinte forma: (a) Deus é o ser mais perfeito e maior que se pode conceber. (b) Se Deus existisse apenas na mente (como uma ideia), então poderíamos imaginar um ser ainda maior: um que existisse tanto na mente quanto na realidade. (c) Mas isso seria uma contradição, pois Deus é definido como o ser supremo, do qual nada maior pode ser pensado. (d) Logo, Deus deve existir na realidade, pois a existência real é maior do que a existência apenas no pensamento.
Esse raciocínio apresenta a existência de Deus como algo necessário e não mera contingência, pois se Ele não existisse, não seria o Ser Supremo. Seu argumento não pretende substituir a fé, mas mostrar que a crença em Deus pode ser racionalmente fundamentada.
São Tomás de Aquino (1225/1274 d.C.) também um dos Pais da Igreja, é de longe o pensador mais prolífico da Filosofia. Sua obra Suma Teológica é editada ainda hoje em cinco volumes e existem versões eletrônicas que abrangem quase 4300 páginas. Sua proposta acerca da prova racional de Deus fundamenta-se no pensamento Aristotélico e a expõe estruturada em cinco vias: (a) Via do primeiro motor imóvel, segundo o qual um Ser não se move a si mesmo. Assim, tudo o que existe teve uma causa primeira e esse primeiro motor imóvel é Deus; (b) Via da primeira causa eficiente segundo a qual não há efeito sem causa. Assim, retrocedendo ao infinito não poderíamos senão chegar a uma causa que dá o primeiro impulso e essa causa que dá causa de si mesmo e de todas as coisas é Deus; (c) Via da contingência, segundo a qual algo pode existir ou não existir. Contudo como nada vem do nada, deve existir um Ser primeiro cuja existência é necessária — não contingente — e esse ser é Deus; (d) Via da Graduação, segundo o qual os seres no mundo tem graus de perfeição e, deve existir um ser com o grau máximo de perfeição e se o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus esse é o Ser com o máximo de perfeição, e, (e) Via Ordinária segundo a qual, tudo no mundo existe por uma finalidade (télos) e alguém determina qual pode ser esse fim. Desse modo quem determina a finalidade de tudo só pode ser Deus.
René Descartes (1596/1650 d. C) conhecido por sua racionalidade radical sintetizada no famoso “cogito, ergo sum”, conclusão a que chegou depois de demorada e profunda reflexão crítica sobre tudo, também agregou a ideia de Deus como sendo uma das conclusões necessárias que ficavam imune à dúvida radical. Chegou à conclusão de que existia justamente porque duvidava, sendo a dúvida uma verdade a priori. O fato de duvidar e isso provar sua própria existência, implicava a conclusão de que era imperfeito. Se fosse perfeito não duvidaria. E se mesmo duvidando conseguia pensar em Deus que é perfeito, é Deus que permite esse pensar e, portanto, Deus existe.
Blaise Pascal (1623/1662), na verdade, divergia de Descartes dizendo que não se pode pensar Deus de forma racional, mas que se deve senti-lo. Não obstante, tornou-se famosa a sua “aposta de Pascal”. Na verdade a “aposta” não pretende provar a existência, mas com certeza quer convencer de que é mais racional apostar na existência do que o contrário. A premissa de Pascal é a existência da vida eterna. Assim, (a) se Deus existe e apostamos nessa existência, vamos levar uma vida virtuosa e temos boas chances de ganhar o Paraíso; (b) se Deus não existe mas apostamos que existe e por isso levamos vida virtuosa, não perdemos nada, a não ser a vida limitada na terra e ainda por curto tempo porque a vida é breve; (c) se Deus não existe e apostamos que não existe, nosso ganho é o de uma vida de prazeres libertinos na terra o que não será grande coisa, porque a consciência cessando com a morte, sequer teremos como celebrar a aposta ganha, e, (d) se Deus existe e apostamos na não existência, temos tudo a perder porque nosso destino será o inferno. Sua conclusão é que é sempre melhor apostar na existência.
Isaac Newton (1643/1727 d.C.) foi um dos maiores cientistas que o mundo já conheceu a tal ponto que a física clássica é também conhecida como física newtoniana. Conhecendo matematicamente as leis que regem a harmonia do universo ele intuiu que alguém estabeleceu essas leis, como segue. “A maravilhosas disposição e harmonia do universo só podem ter tido origem segundo um plano de um ser que tudo sabe e tudo pode. Isso fica sendo a minha última e mais elevada descoberta. A gravidade explica os movimentos dos planetas, mas não pode explicar quem colocou os planetas em movimento. Deus governa todas as coisas e sabe tudo o que é ou que pode ser feito.”
Amit Goswami (1936/... [5]) tido como uma referência mundial em estudos que buscam conciliar ciência e espiritualidade. Em seu livro “Deus não está morto, Evidências cientificas da existência Divina”, usa a moderna física quântica, especialmente a teoria da causação descendente para referir eventos quânticos onde detecta evidências científicas da existência de Deus.
Existiram outros grandes pensadores que também deixaram registradas suas concepções sobre Deus, como Baruch Spinoza (1632/1677), de família judaica, mas excomungado do judaísmo por suas concepções panteístas de Deus; Moisés Maimônides (1138/1204) teólogo e filósofo judeu e Avicena (980/1037) filósofo e médico persa, todavia, para os limites deste breve ensaio impróprio pretender resenhar suas ideias.
5. Brevíssimas notas sobre os filósofos ateus
Em contraponto aos filósofos crentes em Deus e com argumentos que provariam sua existência, também existiram os que duvidavam ou negavam.
Ludwig Fuerbach (1804/1872), alemão, chegou a estudar teologia, mas optou pela filosofia sendo aluno de Hegel. Escreveu “A ESSÊNCIA DO CRISTIANISMO”, obra que influenciou outros filósofos. Escreveu ele: “... não somos a imagem e semelhança de Deus, mas sim, o contrário. O Deus cristão é a própria idealização do homem projetada na ideia de Deus. O homem criou Deus para ser o suprassumo de todas as qualidades que gostaria de ter e não tem.”
Karl Marx (1818/1883) tido como o pai do socialismo, entendia que tanto a ideia de Deus como a de religião não passavam de instrumentos de manipulação ideológica, usada pelos governos autoritários como instrumento de coesão social e esperança num futuro melhor. Ele escreveu: “Deus foi criado para manter o povo apaziguado. A religião é o ópio do povo.”
Charles Darwin (1809/1882) não é tido por ateu porque tenha escrito obras ou tratados negando Deus, mas por ter escrito sua famosa A ORIGEM DAS ESPÉCIES na qual demonstra que a vida não deriva de um Criador, mas que é um lento e demorado processo adaptativo a partir de uma forma muito rudimentar de organismo vivo, e que por seleção natural os de melhor adaptação foram evoluindo. Suas ideias formam a doutrina do Evolucionismo, em contraposição à ideia de criação divina, chamada Criacionismo.
Sigmund Freud (1856/1939), tido como o pai da psicanálise, sua grande inovação foi ter por assim dizer descoberto o “inconsciente” no qual estariam depositados noventa e cinco por cento de todo nosso psiquismo. A partir dessa descoberta, rompe com o conceito de Deus criador e ordenador da humanidade. Freud postula que na infância temos medo de perder o amor e aprovação dos pais. Esse medo rege nossas ações. Ao crescer transferimos esse medo de reprovação a uma instância superior, que representa nossos pais e que passamos a chamar de Deus.
Friedrich Nietzsche (1844/1900) que foi o mais contundente crítico do Cristianismo — a ponto de ter sido chamado de ANTICRISTO — criticando acerbamente as louvadas virtudes cristãs, Fé e Esperança. Para Nietzsche qualquer ideologia transcendente é uma negação da vida como ela é de fato. Seus postulados ficaram conhecidos como AMOR FATI ou amor ao destino que, mais ou menos na linha dos filósofos estoicos, pregava que se devia enfrentar, até suportar os reveses da vida como se nos apresentam, sem projeções futuras e esperançosas ou transcendentes. Outro, foi o ÜBERMENCH, traduzido como “super homem”, no sentido de independência e autonomia, ou seja, nós humanos devemos lutar para ser autônomos, independentes, auto suficientes, sem depender de “muletas metafísicas”. Em seu livro “GAIA CIÊNCIA” chegou a dizer: “Deus está morto”, o que é interpretado como o declínio errefragável do Cristianismo.
Abade Meslier (1664/1729) exerceu seu ministério sacerdotal na paróquia rural de Étrépigny, Ardenes, França, por 40 anos. Ao falecer, veio a surpresa. Deixou cartas e escritos nas quais fez contundentes críticas à Igreja, às Escrituras e à crença. Dentre outros, por brevidade, colacionamos estes excertos de suas memórias: “Considerai bem as razões que existem para crer ou para não crer, naquilo que vossa religião vos ensina e vos obriga absolutamente a crer. Asseguro que, caso sigais a clareza natural de vosso espírito, ao menos tão bem e tão claramente quanto eu, que todas as religiões do mundo não passam de invenções humanas e que tudo o que vossa religião vos ensina, e vos obriga a crer, como sobrenatural e divino, é no fundo erro, mentira, ilusão e impostura. (...) Se o homem deve renunciar à razão para acreditar em Deus, não há mais limite para a impostura. (...) Como é que um ser tão perfeito teria criado um universo tão miserável, tão cheio de males, vícios e maldades? A fé, portanto, é uma crença cega.”
Esta resenha dos filósofos ateus poderia se alongar muito. Me limito a citar os que seguem pela contemporaneidade de seus escritos: CHRISTOPHER HITCHENS (1949/2011), americano que escreveu: “deus não é Grande, como a religião envenena tudo”; Michel Onfray (1959/...), francês que escreveu TRATADO DE ATEOLOGIA; LUC FERRI (1951/... [6]) e ANDRÉ CONTE-SPONVILLE (1952/... [7]), filósofos contemporâneos e declaradamente ateus.
6. Implicações Maçônicas
A Maçonaria Especulativa foi institucionalizada em 1717 depois de um período de transição dos operativos, tempo em que as Lojas eram autônomas, no sentido de não se congregarem sob uma autoridade comum. Os operativos se reunião em seus alojamentos contíguos às obras a que se dedicavam. No período de transição, com a admissão gradual dos especulativos (aceitos), se reuniam em PUBs.
A certidão de nascimento dessa institucionalização é a Constituição de Anderson, Pastor Presbiteriano encarregado da missão. Esse período histórico era de plena efervescência iluminista que era integrado pelo desenvolvimento da Revolução Científica. O escopo do Iluminismo é de todos conhecido. A Maçonaria nasceu sob esse signo da conciliação, do respeito pelo pensamento divergente, como via para a convivência harmônica das concepções diferentes.
Desde então, a Maçonaria de raízes Britânicas, Escocesas e Irlandesas seguiram com um viés Teísta enquanto anos mais tarde a França, ou uma das Potências francesas, adotando o viés Deísta. Essa dicotomia que ao longo do tempo se tornou mais complexa pela proliferação um tanto desordenada de Ritos, aos poucos foi se assentando pela consagração de um universo de Ritos muito mais limitado, todavia, predominando a vertente Teísta.
O Rito Escocês Antigo e Aceito é indiscutivelmente teísta à medida que seus Rituais contemplam orações e pedidos de proteção ao G.A.D.U., todavia, sem intervir nas crenças particulares de cada obreiro, salvo as condições irrenunciáveis para a iniciação, quais sejam a crença em um Princípio Criador e na vida post-mortem. Mas se assim se acha estabelecido nos Rituais, faz sentido elucubrar a respeito? Acredito que sim, quanto mais não seja porque Sócrates já sentenciou que “a vida não refletida não vale a pena ser vivida”. Ademais, a Maçonaria se proclama progressista e que o Maçom é um livre pensador. Nessa perspectiva é dever do Maçom manter postura filosófica, ou seja, não se contentar com a mentalidade de rebanho, mas indagar-se e indagar construtivamente as instituições de que toma parte.
Penso que mesmo em termos de doutrina maçônica ou dos Rituais, não se pode pensá-los como petrificados e imutáveis, embora gozem do saudável atributo da estabilidade. Nossos Rituais sofrem atualizações. As próprias concepções fundamentais da Maçonaria se veem na contingência de se adaptarem à cultura da época, de que é bom exemplo a orientação da Grande Loja Unida da Inglaterra acerca dos transgêneros, sejam os que desejam ingressar, sejam os que já sendo iniciados mudam de gênero.
A questão do divino é e continuará sendo um tema em aberto e predominantemente pertencente ao aspecto da fé, o que não significa que não possa ser pensado no campo da racionalidade, quanto mais não seja para ratificar ou reforçar a concepção maçônica, não de um Deus antropologizado, mas de um Princípio Criador e Organizador do Universo, uma vez que é curial, na linha de pensamento de Newton, que se é indiscutível que o cosmos se move dentro de rigorosa regularidade, não há provas científicas de quem projetou essa harmonia.
Aliás, constitui-se em equívoco “endeusar” a ciência. Esta já deu um salto evolutivo gigantesco, mas está longe de conciliar, por exemplo, a física newtoniana com a quântica; longe de saber o que são e de que se constituem a energia e a matéria escuras, que comporiam noventa e cinco por cento do universo; de saber por que o universo continua em expansão. Nossas viagens espaciais são infinitamente insignificantes em termos de distâncias e sabe-se cientificamente que a vida humana é breve demais para se imaginar explorações de planetas distantes.
Indispensável ressalvar que para o tema de tão largo espectro, estas reflexões têm que ser necessariamente vistas como uma tentativa de muito incipiente abordagem, quiçá válida como despretensiosa resenha e provocação de novos estudos pelos em que tiverem sua curiosidade despertada.
Enfim, a ideia de Deus continua sendo muito tentadora, embora faça parte do enigma saber se Ele interfere no funcionamento e ouve nossas preces (teísmo) ou se criou as regras e as mantém ativas sem interferir (deísmo) nos destinos do mundo e seus felizardos habitantes.
Pensar, meditar a respeito, é preciso!
Referências bibliográficas:
- O Deus da Filosofia, Deus existe, Chileno Gomes, 2021, Ed. Literare Books;
- Deus, Sua história na epopeia humana, Frédéric Lenoir, 2011, Ed. Objetiva;
- Deus, uma história humana, Reza Aslan, 2017, Ed. Zahar;
- O futuro de Deus, Deepak Chopra, 2015, Ed. Planeta;
- Deus Não Está Morto, Evidências científicas da existência Divina, Amir Goswami, 2008, Ed. Aleph
- A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, 1975, Ed. Hemus
- História do Ateísmo, Georges Minois, 2012, Ed. Unesp.
Notas de rodapé
[1] José Darci Pereira Morsch Soares, M∴ M∴, ARLS Progresso e Fraternidade, 222, REAA, GLMERS, Porto Alegre.
[2] Gênesis 1:26: também disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança;
[3] Descoberta atribuída ao físico e matemático russo Alexander Friedmann, em 1922, aprofundando estudos sobre a Teoria da Relatividade Geral de Einstein (apud Stephem Hawking & Leonard Mlodinow, in “Uma Nova História do Tempo”, Ediouro, 2005.
[4] Editora ZAHAR, 2017
[5] Indiano, graduado pela Universidade de Calcutá. naturalizado Americano, Professor aposentado de Física Teórica da Universidade de Oregon.
[6] Obras: A Sabedoria dos Mitos Gregos, Aprender a Viver; A tentação do Cristianismo; Filosofia para os Novos Tempos (Ed. Objetiva); Vencer os Medos (Ed. Martins Fontes).
[7] Obra: O Espírito do Ateísmo (Ed. Martins Fontes).


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