O DISSENSO COMO RETORNO À COMPLEXIDADE
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Por Dr. Cídio Lopes de Almeida
O DISSENSO COMO RETORNO À COMPLEXIDADE: UMA LEITURA MAÇÔNICA SOBRE O CONVÍVIO SEM CONSENSO

Resumo
A presente resenha investiga, de modo ensaístico, a possibilidade de convivência com o diferente sem a exigência prévia de consenso, situando a Maçonaria como espaço privilegiado para a recuperação do dissenso como valor social. Partindo da constatação de que a esfera pública contemporânea busca assintomaticamente uma fala consensual, o texto argumenta que a diversidade social não depende de unanimidade para se sustentar. A Maçonaria, instituição não proselitista por excelência, emerge como contraponto à monocultura de objetos simbólicos que ameaça a complexidade das sociedades pluralistas. Por fim, a resenha reflete criticamente sobre os bordões maçônicos de “livre-pensamento”, situando-os em seu contexto histórico de origem.
Palavras-chave: dissenso; Maçonaria; pluralismo; complexidade social; livre-pensamento.
Em que sentido pode-se conviver com o diferente sem haver consenso? Esta pergunta, aparentemente simples, encerra um desafio de proporções epistemológicas e éticas que atravessa toda a tradição do pensamento ocidental. No momento em que o diálogo tem se escasseado, e o faz de maneira particularmente aguda nas democracias contemporâneas, observa-se uma busca assintomática por uma fala na esfera pública de cariz consensual. Trata-se de um fenômeno que merece atenção, a pressão por unanimidade, por uma linguagem homogeneizada, por um horizonte de expectativas partilhado que, paradoxalmente, não promove a união, mas antes a pasteurização do debate. O que não se percebe, contudo, é que não é preciso haver consensos para se estar dentro de uma sociedade plural. Pelo contrário, o consenso forçado é, em si mesmo, um sintoma de empobrecimento sociocultural. A diversidade social que é debatida de modos variados, mas poderemos retroceder até pensadores como Baruch de Espinosa e Jonh Lock, que formularam as ideias filosóficas que deram a base para o Estado Moderno, tinham em tela, em traços gerais, com garantir a existência da singularidade das pessoas, em que ela pudesse se sentir livre para exprimir-se segundo o que lhe apetecesse a alma, e ao mesmo tempo convivesse em sociedade com as demais pessoas. Essa longa fortuna literária portanto não é uma brincadeira juvenil, de liberdade no vácuo, de diferença no vácuo. A dignidade humana não está em discussão, a diversidade não contorna esse valor; toda a diversidade parte dele.
O que está posto de antemão em nossos dias é justamente o fim de uma sociedade complexa, que começa a se destruir em sua diversidade, passando a uma monocultura de objetos simbólicos. Não se trata aqui de uma crítica meramente estética ao empobrecimento da linguagem, mas de uma constatação de ordem antropológica, quando a sociedade deixa de tolerar o dissenso legítimo, ela deixa de ser complexa e torna-se, na melhor das hipóteses, complicada ou empobrecida simbolicamente, isto é, empilha normas e regras sobre uma base que já não sustenta mais a diferença. Ter que salientar que a diversidade que se preconiza não é uma que comporta elementos deliberadamente destrutivos dos demais; já em si outro sintoma da pasteurização e diminuição da potência do viver humano, parafraseando aqui Espinosa. A via de uma violência contra os outros no corpo social é, em si, parte da autodestruição da complexidade em nome da uniformidade. A violência no interior de uma ordem social, particularmente contra a diferença é um sintoma de outra coisa, é a ordem que não admite ser questionada; é um tipo de ordem, a ordem autoritária, que não encontra mais lastro nas pessoas, pois está a serviço outro, não o de garantir a liberdade individual. Uma ordem que gera vida, pois toda vida precisa de ordem, não precisa recorrer à violência.
Nesse quadro, as sociabilidades na esfera da sociedade civil em geral, e a Maçonaria em particular, tem muito a recolocar o lugar do dissenso como um retorno à complexidade social, fonte de criatividade e da tão aclamada liberdade. Convém esclarecer, desde já, um mal-entendido recorrente, a Maçonaria não é proselitista, ainda que convide pessoas que tenha o perfil para seus objetivos de sociabilidade filosófica; pode-se dizer que são dois movimentos. Ela não busca convertidos no sentido de adesão epifânica a um sistema de pensamentos ou ideais; seu método é mais no sentido de uma prática existencial, em que a aderência vai sendo alcançada pelo adepto na medida que ao se aplicar ao método, percebe validade para si de tais princípios; cosmovisões; o que implica particularmente a ideia de liberdade e protagonismo dos seus adeptos.
Seus princípios identitários podem ocupar o lugar de dogmas, pois são ideias que permanecem no tempo, tal como a dignidade da pessoa, um valor especial à razão humana; aqui vale uma digressão, essa valor a razão não em oposição ao que excede ao racional e se faz presente na nossa percepção de várias formas. Essa razão valorada pela Maçonaria não é contrária ao mistério da vida, que sempre lhe escapa aos ditames da necessidade preconizado por Aristóteles; A razão apreciada é aquela que não se furta dessa habilidade humana, mas procura justamente fazer o melhor uso dela, como parte de um mistério, de uma dádiva, que temos de partida na existência. Em definitivo, a razão apreciada aqui não se coloca em oposição à temas compartilhados com outras tradições, como a ideia de graça na religião cristã. Ainda dentro dos seus ideais, não impõe uma visão de mundo simplista, antes, propõe um horizonte de sentido bem alargado e aberto à diversidade. Ainda que revele uma contradição nesse ponto, como a exclusão de mulheres dos grupos majoritários, entre outras, como é próprio dos fenômenos humanos concretos, são partes das contradições do seu tempo, ainda que estampe desejos de superação.
Ao contrário, sendo otimista na leitura dos seus rituais, panfletos institucionais, suas cartas constitutivas, sua força reside precisamente na seleção de integrantes que, por uma junção entre a vontade própria e o convite, buscam nela um espaço de investigação da verdade, enquanto ser e tema da filosofia ocidental desde os pré-socráticos em regime de plena liberdade. A admissão não é um fim, mas um começo, e um começo que exige trabalho, dedicação e, sobretudo, a capacidade de conviver com o diferente sem a âncora do consenso forçado. O maçom não é convencido a entrar; ele bate à porta e é convidado. Essa disposição, por si só, já configura um gesto de liberdade que contraria a lógica proselitista dominante em nossos tempos.
A Maçonaria, nesse sentido, emerge como uma escola de sabedoria onde o dissenso não é um defeito a ser corrigido, mas uma condição estrutural do convívio fraterno. Seus ensinamentos, ministrados através da prática de rituais que fundem o simbolismo das iniciações inspirado em tradições medievais dos construtores de edificações e nas antigas Escolas de Filosofia da Grécia Antiga, o hermetismo, a cabala e as tradições filosóficas, constituem um corpus que não busca uniformidade de crenças, mas sim a elevação moral do indivíduo; e por moral não uma perspectiva panfletária, mas a construção pessoal das normas de vida em sociedade. A proibição de debates político-partidários e religioso-sectários dentro dos Templos não é uma fuga do real, mas uma estratégia deliberada para preservar o espaço do dissenso; se não se pode discutir para vencer, discute-se para compreender. E a compreensão, no limite, é o único consenso que a Maçonaria busca, um consenso sobre a impossibilidade de um consenso totalizante.
O que a Maçonaria oferece, então, é um modelo de sociabilidade onde a diferença não precisa ser resolvida, mas vivida. Seus lemas apreciados entre nós brasileiros, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, não são promessas de um mundo sem conflitos, mas princípios orientadores para um mundo onde os conflitos sejam enfrentados sem violência. A tolerância para com as doutrinas religiosas e políticas, estando acima das rivalidades que geram conflito, não é indiferença, mas uma forma superior de engajamento, o engajamento pela preservação da complexidade. Numa época em que a esfera pública se fragmenta em bolhas de consenso, a Maçonaria lembra que a verdadeira fraternidade não exige identidade de opiniões, mas sim o respeito mútuo na diferença. E esse respeito, longe de ser uma atitude passiva, é um exercício ativo de humildade intelectual e moral.
Em suma, conviver com o diferente sem consenso não é um fracasso da razão, mas sua maior realização. A Maçonaria, ao recusar o proselitismo e ao cultivar o dissenso como valor, oferece uma alternativa à lógica da uniformidade que ameaça as sociedades contemporâneas. Seu legado não está em ter resolvido as tensões da modernidade, mas em ter institucionalizado um espaço onde essas tensões possam ser pensadas sem a urgência de uma resposta definitiva. Nesse sentido, a Maçonaria não é uma resposta, mas uma pergunta, e é na pergunta, não na resposta, que reside a verdadeira liberdade.
Referências
CONFEDERAÇÃO MAÇÔNICA DO BRASIL. O que é Maçonaria. Disponível em: <https://comab.org.br/o-que-e-maconaria/>. Acesso em: 20 jul. 2026.
GRANDE LOJA DO PARANÁ. A Maçonaria: entenda a essência e os princípios. Disponível em: <https://www.grandelojadoparana.org.br/a_maconaria/>. Acesso em: 20 jul. 2026.
GRANDE ORIENTE DO BRASIL. O que é Maçonaria? Disponível em: <https://www.gob.org.br/o-que-e-maconaria/>. Acesso em: 20 jul. 2026.
MORIN, E. O método 1: a natureza da natureza. 6. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011.
SANTOS, B. S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2010.




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