top of page
APROVEITE:
Frete Grátis por Tempo Limitado! Seu pedido sem custo de entrega, independente do valor da compra. Promoção válida somente até 31/08/2026.

ETARISMO VERSÃO II – A PEDRA ANGULAR RENEGADA

  • há 8 horas
  • 7 min de leitura

Por Paulo Cesar T. Ribeiro



O SILÊNCIO DOS SÁBIOS – ETARISMO E REVERÊNCIA NA MAÇONARIA


ETARISMO VERSÃO II – A PEDRA ANGULAR RENEGADA
Imagem ilustrativa gerada por IA

Tempora mutantur et nos in illis. Os tempos mudam, e nós mudamos com eles. É deste axioma antigo que parto, porque há reflexões que só amadurecem quando o homem já viveu o bastante para reconhecer, no espelho da Ordem, aquilo que a sociedade insiste em recusar aos seus mais velhos.

 

Há, no cerne da Maçonaria, um convite ao autoconhecimento e ao aprimoramento moral — um trabalho interior que deveria, por sua própria natureza, dissolver as barreiras que o preconceito ergue entre os homens. E, no entanto, é preciso coragem para admitir que nem sempre é isto o que se vê. A casa que se proclama Templo da Igualdade não está imune às sombras que projetam-se sobre o mundo profano. Ela é, como escrevi em outra parte, um microcosmos da sociedade humana: repercute, em suas paredes, os mesmos fenômenos que atravessam o tecido social mais amplo. E entre esses fenômenos há um que se instalou entre nós de maneira particularmente silenciosa — o etarismo, a discriminação por idade, a velhofobia que exclui, sem alarde, justamente aqueles que mais deram à Ordem.

 

Escrevo estas linhas como quem oferece uma modesta adição ao esforço de trazer à luz uma reflexão que reputo essencial e urgente. Não movido pela denúncia fácil, nem pelo tom militante que tanto empobrece o debate, mas pelo desejo de instigar meus irmãos a envolverem-se na pavimentação de um caminho — o da inclusão de todos os que aqui chegam ou aqui permanecem, em qualquer estação da vida, buscando conhecimento e dignidade.

 

Os Pedreiros Livres formam uma das mais antigas instituições do mundo, fundamentada nos valores de fraternidade, liberdade e igualdade. Filosófica e progressista, incita ao autoconhecimento e à prática do altruísmo, guiada pela tolerância e pela justiça. Ora, numa sociedade em que as divisões se mostram cada vez mais prevalentes, o combate ao preconceito assume urgência global. A perpetuação de estigmas restringe o próprio potencial humano e acarreta consequências que ultrapassam em muito o âmbito de nossas Oficinas. Como defensores da verdade e da moralidade, nós, maçons, temos a responsabilidade de liderar pelo exemplo. Não se trata de uma cortesia — trata-se de uma obrigação ética.

 

Convém, porém, olhar de frente para as raízes históricas. Durante muito tempo, os Antigos e Aceitos foram alvo da desconfiança do mundo profano; à medida que crescia seu impacto social e político, multiplicavam-se as teorias conspiratórias e as inverdades que distorciam a percepção pública. O que talvez incomode mais é reconhecer que certos preconceitos foram nutridos também dentro de casa — por membros que, sem o perceber, perpetuavam estereótipos que corroíam as próprias normas que juraram guardar. A verdade histórica é que a Maçonaria nunca esteve inteiramente imune ao preconceito: houve tempos em que limitações severas, fundadas em religião, raça e gênero, chegaram a ser institucionalizadas, refletindo as normas sociais de sua época. Hoje o preconceito veste roupagens mais discretas. Mas discrição não é ausência. É aqui que desejo demorar-me, porque é aqui que a reflexão se torna, para mim, mais dolorosa e mais necessária.

 

O silêncio dos sábios

Há uma forma de discriminação que raramente é nomeada entre nós, precisamente porque se disfarça de reverência. Prestamos homenagens aos veneráveis irmãos, celebramos as bodas maçônicas, evocamos com emoção os nomes dos que nos precederam — e, no mesmo instante, sem contradição aparente, deixamos de convidá-los para as decisões, retiramo-los dos papéis ativos, tratamo-los como relíquias a serem admiradas de longe, jamais como vozes a serem ouvidas de perto. A esse respeito, escrevi no livro que dá origem a estas reflexões: os maçons antigos frequentemente encontram barreiras invisíveis que os excluem de papéis ativos e tomadores de decisão dentro das Oficinas. Barreiras invisíveis — eis a expressão exata. Ninguém as ergue declaradamente. Ninguém precisa. Elas operam no não-dito, no convite que não se faz, na deliberação da qual o irmão provecto vai sendo, aos poucos, poupado até restar apenas o silêncio.

 

Num ambiente que respira, ainda que involuntariamente, as tendências do mundo — onde a juventude se associa ao vigor e à inovação, e a idade avançada, à obsolescência —, subestima-se aquilo que os mais velhos oferecem: sabedoria, experiência, equilíbrio na hora de decidir. Exalta-se a modernização, a tecnologia, a renovação constante; e, sob o pretexto legítimo de renovar, exclui-se. Vista sob a perspectiva de um psicólogo — e é como psicólogo, tanto quanto como maçom, que escrevo —, essa dinâmica revela algo mais fundo do que um simples desapreço geracional: revela uma resistência à mudança que se projeta, paradoxalmente, sobre os que menos mudaram de compromisso. Tememos envelhecer, e por isso afastamos de nossa vista aqueles que nos anunciam que envelheceremos. Memento mori. Há, no etarismo, uma recusa mal resolvida da própria finitude.

 

A pedra angular renegada

Na simbólica de nossa Arte, a pedra rejeitada pelos construtores é justamente aquela que se torna a pedra angular. Que ironia amarga, então, que a Ordem cuja linguagem inteira se organiza em torno da pedra que edifica seja capaz de renegar suas próprias pedras angulares — os irmãos cujas décadas de vivência sustentam, ainda que invisivelmente, tudo o que somos. A marginalização do maçom idoso não fere apenas o indivíduo. Ela empobrece o conjunto. Sobre isto, permito-me insistir com as palavras que já registrei: o esquecimento gradual e alarmante das valiosas contribuições dos maçons mais experientes, cujas vivências e conhecimentos profundos constituem ativos inestimáveis que engrandecem o patrimônio cultural e educacional da nossa Venerável Confraria.

 

Quando afastamos o obreiro veterano, não perdemos apenas uma presença afetuosa nas colunas. Perdemos um acervo. A transmissão dos valores essenciais, que se faz de geração a geração, sofre uma interrupção que a organização dificilmente percebe no momento em que ocorre — e amargamente lamenta depois, quando o vazio já se instalou. Esse esvaziamento do saber não compromete só a continuidade histórica; limita nossa própria capacidade de inovar, porque a inovação verdadeira nasce do diálogo entre a experiência e o frescor, não da amputação de uma das partes. E há ainda o custo humano, que como clínico não posso deixar de sublinhar: a marginalização produz isolamento e perda do senso de propósito, ferindo o bem-estar mental e emocional de homens que dedicaram a vida à Ordem e que, na estação em que mais precisariam do pertencimento, encontram a porta encostada.

 

O templo da igualdade

A igualdade maçônica não é um estado que se herda; é um ato que se pratica. E a tolerância — convém dizê-lo com clareza — não é passividade, mas um exercício consciente, deliberado e responsável. Quando a Irmandade acolhe genuinamente a diversidade etária, ela se torna aquilo que sempre prometeu ser: um microcosmo ideal, um antídoto ao sectarismo que grassa lá fora. Quando não o faz, desonra o próprio moral e fragiliza a eficácia de suas ações conjuntas em prol do bem maior. Não há meio-termo confortável aqui.

 

Por isso, o que proponho não é um lamento, mas um trabalho — e um trabalho tem instrumentos. O primeiro é a autoavaliação sincera: que cada irmão examine, na intimidade de sua consciência, os próprios preconceitos, inclusive os que não sabe que carrega, pois são justamente esses os mais operantes. O segundo é a educação continuada: workshops, palestras e materiais de formação que desconstruam os estereótipos ligados ao envelhecimento e restituam à experiência dos veteranos o seu justo valor. O terceiro, e a este atribuo especial esperança, é a mentoria — a criação deliberada de espaços em que o saber acumulado dos mais antigos encontre a energia dos mais jovens, não em competição, mas em intercâmbio. É na mentoria que a pedra angular volta a ocupar seu lugar na construção, e a Loja readquire a plenitude de suas gerações.

 

Elevemos, pois, o padrão moral e ético que a Maçonaria representa para a humanidade. A transformação que peço não contraria a tradição — ao contrário, honra-a em seu sentido mais profundo, pois reverenciar o passado e construir o futuro não são movimentos opostos, mas o mesmo gesto realizado com maturidade.

 

Dictum et factum. Dito e feito: que estas palavras não se esgotem na leitura, mas se convertam em ações concretas, em cada Oficina, em cada coração que as acolher.

 

Sobre o livro que origina estas reflexões

Estas páginas são um desdobramento de Maçonaria, Tradição e Etarismo — Reverenciando o Passado, construindo o Futuro (Biblioteca da Psique / Novo Milênio, 2025), onde desenvolvo o tema com o vagar que um artigo não permite. Vale, para o leitor deste texto, uma palavra sobre a obra.

 

Você pode adquirir tanto a versão física quanto a versão digital.

MAÇONARIA TRADIÇÃO E ETARISMO
COMPRAR

MAÇONARIA TRADIÇÃO E ETARISMO DIGITAL
COMPRAR

 

O livro tem uma virtude que reputo rara no gênero: ele não trata o etarismo como uma pauta importada do vocabulário contemporâneo e sobreposta artificialmente à Maçonaria, mas o lê a partir de dentro, na chave simbólica que é própria da Arte Real. A imagem da pedra angular renegada, o silêncio dos sábios, o templo da igualdade — os títulos dos capítulos já anunciam que se trata de pensar o problema com os instrumentos da própria Ordem, e não contra ela. Há, além disso, um enraizamento afetivo e histórico que dá densidade ao argumento: a obra abre-se com a citação da centenária Loja Quintino Bocaiuva nº 10, GLESP e com o belíssimo estudo historiográfico do saudoso irmão Ricardo Mário Gonçalves, de modo que a defesa dos mais velhos não é abstrata — ela brota da gratidão concreta a irmãos reais, nomeados, cujas falas, como registro na dedicatória, abriram-me as portas do entendimento sobre a verdadeira essência da Maçonaria.

 

O diferencial da obra, a meu ver, está no cruzamento de olhares. Escrevo como maçom que percorreu os cargos da Ordem, do Guarda do Templo, Secretário, Hospitaleiro e outros a Delegado Distrital, mas também como psicólogo de linha humanista-existencial, junguiana e budista. É esse segundo olhar que permite ao livro ir além da constatação sociológica e nomear o que se passa na alma do fenômeno: o etarismo como resistência à mudança, como recusa da finitude, como conflito interno projetado sobre o outro. E é também esse olhar clínico que sustenta o capítulo dedicado a envelhecer com saúde mental, no qual proponho a própria vida de Loja como suporte psicológico e existencial contra o isolamento da velhice — tese que, num tempo de solidão epidêmica entre os idosos, ganha alcance que ultrapassa os muros do Templo.

 

Se há um reparo fraterno que faço à obra, e que ofereço menos como crítica do que como convite ao debate, é que sua força propositiva pede continuidade: as sugestões de mentoria e educação intergeracional, tão acertadas em princípio, merecem, num próximo trabalho, o aprofundamento de modelos concretos de implementação nas Grandes Lojas e Orientes. Mas talvez seja justo que um livro que pede a continuidade entre as gerações deixe, ele próprio, a obra aberta para que outras mãos a continuem. Como escreveu o irmão Ricardo Gonçalves, em passagem que o livro acolhe: foi dado um primeiro passo; caberá a outros palmilhar o caminho.

 

Fica, portanto, o convite — à leitura e, sobretudo, ao trabalho que dela deve nascer.

 

Ir.'. Paulo Cesar T. Ribeiro

Celular / Whatsapp: 11 98199-5612

Psicólogo clínico, palestrante, autor e organizador da Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.com.Mestre Maçom Gr.’. 33, Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital.

Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos IIr.’. reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.

 


Comentários


bottom of page