O CANSAÇO SILENCIOSO DA LOJA MAÇÔNICA
- há 23 horas
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Por Paulo Cesar T. Ribeiro
O CANSAÇO SILENCIOSO DA LOJA MAÇÔNICA
Uma leitura psicológica e iniciática sobre a vitalidade, o pertencimento e a produção de sentido na vida coletiva

Lojas maçônicas se parecem com as pessoas: nascem, crescem, atravessam suas maturidades e, um dia, também morrem. Têm infância hesitante, juventude entusiasmada, meia-idade de responsabilidades e velhice. O consolo dessa comparação está na longevidade. Ao contrário dos homens que a compõem, uma loja pode viver por muito tempo, atravessar gerações inteiras, ver netos ocuparem as colunas que os avós um dia ocuparam. Há Oficinas que contam a própria história em séculos, e isso é motivo de justo orgulho.
Mas há uma armadilha escondida nessa longevidade. Uma pessoa, quando adoece por dentro, sente. O corpo avisa, a fadiga se impõe, algo dentro dela pede socorro. Uma loja, não. Ela pode continuar de pé, funcionando, cumprindo seu calendário, aparentando saúde plena, enquanto por dentro já perdeu boa parte daquilo que a mantinha viva. E é dessa condição estranha, de uma instituição que segue existindo formalmente muito depois de ter deixado de existir em espírito, que eu gostaria de falar aqui.
Há lojas que morrem de morte visível. Rompem-se em conflitos abertos, dividem-se em facções, perdem membros em desavenças que todos comentam, ou simplesmente fecham suas portas. Essas são as lojas decadentes, e sobre elas costumamos falar com facilidade, porque a doença que as acomete se apresenta ao olhar. Existe, porém, uma outra condição, muito mais silenciosa e talvez mais frequente, sobre a qual raramente encontramos palavras. É a loja que continua abrindo seus trabalhos com pontualidade, cumpre o ritual com correção, mantém o calendário e realiza suas sessões ordinárias, e, todavia, perdeu, em algum ponto do caminho, aquilo que fazia daquelas reuniões um acontecimento. Essa loja não está decadente. Está cansada. E o cansaço, ao contrário da decadência, não faz barulho.
Convém distinguir uma coisa da outra, porque o remédio de uma seria veneno para a outra. A loja decadente rompeu com seus princípios ou com a convivência entre os Irmãos, e precisa de reconstrução. A loja cansada segue funcionando plenamente no plano formal, cumpre todos os seus deveres, e apenas deixou de se renovar por dentro. Ela não perdeu a forma. Perdeu a expectativa. E é justamente por manter a forma intacta que seu cansaço passa tanto tempo despercebido, até mesmo por aqueles que o vivem.
Mas o que significa, afinal, dizer que uma loja está cansada, se uma loja não tem corpo, não dorme, não adoece e não envelhece como envelhecem os homens? A pergunta parece retórica, e, no entanto, é dela que tudo depende. Uma loja não existe nas suas colunas, nos seus paramentos ou nas atas que arquiva. Existe psiquicamente, na qualidade das relações entre seus membros, na disposição interior com que eles chegam ao Templo, no significado que atribuem àquilo que ali se faz e, sobretudo, na capacidade daquele grupo de continuar produzindo pertencimento, transformação e desejo genuíno de estar junto. Quando falamos que uma loja está cansada, falamos dessa dimensão invisível, que nenhuma ata registra e nenhum livro de presenças mede.
Ao longo de muitos anos ouvindo homens falarem daquilo que os move e daquilo que os esvazia, aprendi a reconhecer um sinal discreto, quase imperceptível, que precede todos os outros. Uma loja começa a se cansar no momento em que seus membros ainda comparecem aos trabalhos, mas já não esperam que alguma coisa verdadeiramente significativa aconteça dentro deles. Continuam presentes, mas a presença passou a ser movida pelo peso do dever, pela força do hábito ou pela cobrança estatutária, e não mais por aquela expectativa silenciosa de que a noite reserve algum encontro capaz de tocá-los. Quando isso ocorre, a voltagem psíquica do grupo cai, e o rito, embora perfeito em sua execução, perde a força de mobilizar quem dele participa.
Esse esvaziamento tem sinais, e o primeiro deles é o mais paradoxal. É a ritualização impecável esvaziada de experiência. Tudo se faz com precisão: a abertura, a circulação, as palavras, os sinais, o encerramento. O problema não está no ritual, e é preciso dizer isso com clareza, porque a tentação seria culpar a forma. O ritual permanece admirável. O que se perdeu foi o instante em que ele deixou de ser vivido e passou apenas a ser executado. O símbolo continua ali, diante de todos, mas já não ressoa em ninguém. É como assistir a alguém recitar de cor um poema que já não compreende. As palavras estão todas certas. Só a alma se ausentou.
Há um segundo sinal, e este produz um desgaste que se instala devagar, quase sem que ninguém perceba. São sempre as mesmas vozes que falam, os mesmos Irmãos que assumem responsabilidades, os mesmos que tentam mobilizar os demais. Com o tempo, forma-se um fenômeno de dois lados. De um lado, um pequeno núcleo se sobrecarrega e começa a se ressentir da passividade geral. De outro, a maioria aprende, progressivamente, a acomodar-se na posição de espectadora. E então se fecha um círculo cruel: quem faz passa a ressentir-se de quem não faz, e quem não faz passa a sentir que aquela loja pertence apenas àqueles que sempre fizeram. Ninguém decidiu que seria assim. O arranjo se construiu sozinho, tijolo por tijolo, no silêncio de muitas sessões.
O terceiro sinal talvez seja o mais doloroso, porque toca naquilo que dá razão de ser à própria fraternidade. É a perda do encontro humano. Uma loja pode ter sessões litúrgicas irretocáveis e, ao mesmo tempo, relações interpessoais empobrecidas. Os Irmãos sabem os cargos e os graus uns dos outros, conhecem a antiguidade, a coluna que cada um ocupa, e, entretanto, pouco sabem sobre os homens que estão por trás dos aventais. Convivem durante anos sem conhecer verdadeiramente as angústias, as perdas, as alegrias silenciosas e as dores cotidianas daqueles que chamam de Irmãos. Chamam-se Irmãos, e são, muitas vezes, apenas conhecidos cerimoniosos que se reencontram em datas marcadas.
É aqui que a psicologia dos grupos tem algo importante a dizer, e o que ela diz é contraintuitivo. O contrário do cansaço coletivo não é o entusiasmo. O entusiasmo é volátil, incendeia-se numa festa e se apaga na sessão seguinte. O verdadeiro contrário do cansaço é o vínculo. Uma loja suporta crises, divergências, dificuldades financeiras e até quedas temporárias de frequência quando seus membros sentem, no fundo, que aquele espaço lhes pertence e que ali existem laços humanos reais. O vínculo é o que segura um grupo quando tudo o mais falha. E o verdadeiro perigo não é o conflito, que ao menos revela que ainda há investimento afetivo naquilo. O verdadeiro perigo é a indiferença. O Irmão indiferente deixa de reclamar, deixa de sugerir, deixa de discordar, deixa de propor. E, por fim, deixa de comparecer. Mas é preciso compreender uma coisa: antes de abandonar fisicamente a loja, ele quase sempre já a abandonou por dentro, muito tempo antes, sem que ninguém tenha notado a partida.
Existe ainda um cansaço de natureza diferente, mais sutil, que costumamos confundir com a idade. Dizemos que uma loja envelheceu porque seus Irmãos envelheceram, e nisso nos enganamos. Conheci lojas de homens de cabelos brancos, muitos deles já octogenários, que ostentavam uma vitalidade admirável, uma curiosidade viva, um desejo de aprender que envergonharia jovens de vinte anos. E conheci grupos de homens jovens psiquicamente mofados, presos a uma inércia que nada tinha de biológico. Uma loja não envelhece quando seus Irmãos envelhecem. Uma loja envelhece quando somente o passado consegue entusiasmá-la.
A tradição, é verdade, é indispensável à Maçonaria. Mas tradição não é a repetição imóvel daquilo que passou. Tradição é a transmissão de uma chama viva, para que cada nova geração possa, por sua vez, experimentá-la no presente. Uma casa em que a única narrativa capaz de emocionar começa por “antigamente nossa loja era” é uma casa que interrompeu sua capacidade de gerar sentido novo. Ela ainda guarda brasas, e as brasas aquecem. Mas já não acende fogo. E de brasas ninguém vive por muito tempo.
Desse mesmo engano nasce outra ilusão consoladora: a de que iniciar novos membros basta para renovar uma loja. Receber Aprendizes não garante coisa alguma. Se o recém-iniciado entra, assiste, permanece silencioso por muito tempo e não encontra acolhimento, mentoria, responsabilidades graduais e interlocutores verdadeiros com quem construir seu pertencimento, ele pode permanecer inscrito no Quadro durante anos sem jamais tornar-se, psicologicamente, parte daquela comunidade. Estará presente e ausente ao mesmo tempo, como um hóspede que nunca desfez as malas. A loja acreditará que se renovou, quando apenas aumentou o número de participantes.
Chegamos então à pergunta que de fato importa, e que nenhuma outra pode substituir. Como uma loja cansada volta a viver? A resposta que primeiro nos ocorre é quase sempre a errada. Não se começa por campanhas de frequência, por festas, por cobranças aos ausentes ou por ativismo administrativo. Essas medidas atacam os sintomas e deixam a doença intacta. Antes de qualquer providência, é preciso ter a coragem de fazer à própria Oficina uma pergunta simples e desarmante: por que vale a pena estar aqui?
Talvez essa seja a interrogação que uma loja deveria ter a coragem de dirigir periodicamente aos seus próprios membros, não em tom de cobrança, mas de escuta. Por que você vem à loja? O que encontra aqui que não encontra em nenhum outro lugar da sua vida? O que, em algum momento da sua caminhada, você deixou de encontrar aqui? Em que instante você se sentiu verdadeiramente acolhido e genuinamente Irmão de alguém desta Oficina? E, sobretudo, o que faria você desejar, com vontade e não por obrigação, estar presente na próxima sessão? As respostas a essas perguntas dizem, sobre a saúde de uma loja, muito mais do que qualquer planejamento administrativo poderia dizer.
Retorno, para concluir, ao símbolo que nos é mais caro, o da construção. Uma loja cansada não precisa, necessariamente, de mais atividades. Precisa de mais significado. Não precisa apenas de mais sessões no calendário, mas de sessões que deixem alguma coisa dentro de quem delas participou. Não precisa somente iniciar novos homens, mas voltar a produzir experiências capazes de transformar aqueles que já foram iniciados e que, com o tempo, foram esquecendo o que os trouxe até ali.
Porque o verdadeiro indicador da vitalidade de uma loja não é quantos nomes constam do seu Quadro, nem a pompa das suas instalações, nem sequer quantos Irmãos ocupam suas colunas em noite de sessão. É algo mais difícil de medir, e infinitamente mais precioso: quantos ainda chegam ao Templo esperando encontrar ali alguma coisa que os ajude a continuar trabalhando sobre si mesmos e polindo, com paciência, sua Pedra Bruta. Enquanto essa expectativa existir, por mais discreta que seja, a loja está viva. E quando ela começar a desaparecer, terá chegado a hora não de cobrar dos Irmãos que compareçam mais, mas de perguntar, com humildade, à própria loja, por que eles estão sentindo, a cada dia, um pouco menos de vontade de voltar.
Ir.'. Paulo Cesar T. Ribeiro
Celular / Whatsapp: 11 98199-5612
Psicólogo clínico, palestrante, autor e organizador da Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.com.
Mestre Maçom Gr.'. 33, Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital.
Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos IIr.'. reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.




Obrigado meu irmão por essa pérola. Maçonaria e psicologia social. Que texto brilhante, que análise sensacional.