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A RELAÇÃO METAFÓRICA ENTRE O GRAU DE MESTRE MAÇOM NO REAA E O JULGAMENTO DE OSÍRIS

  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Por Geraldo Marcelo Lemos Gonçalves[1]

 

A RELAÇÃO METAFÓRICA ENTRE O GRAU DE MESTRE MAÇOM NO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO E O JULGAMENTO DE OSÍRIS: UMA ANÁLISE SIMBÓLICO-INICIÁTICA


“Para teorizar sobre a natureza e o alcance da reflexão filosófica, os filósofos têm utilizado uma ampla gama de metáforas e analogias...”

MORIYON (2013)

 

RESUMO

Este artigo investiga a relação metafórica entre o Grau de Mestre Maçom, terceiro grau da Maçonaria Simbólica no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), e o Julgamento de Osíris, drama escatológico central da religião do Egito Antigo. A questão orientadora pergunta em que medida a Lenda de Hiram Abiff e a pesagem do coração na Sala das Duas Verdades compartilham estruturas simbólicas e iniciáticas, sem implicar derivação histórica entre as tradições. Por meio de pesquisa bibliográfica qualitativa, exploratória e interpretativa, identifica-se um esquema arquetípico comum de morte simbólica, julgamento, regeneração e elevação espiritual. Os paralelos — enfrentamento da morte, prova de integridade moral, perda e busca de um princípio sagrado e possibilidade de transformação interior — devem ser compreendidos como analogias simbólicas, e não como evidências de influência histórica direta (Figura 1). A aproximação amplia a compreensão filosófica do Grau de Mestre, evidenciando a permanência de arquétipos universais de iniciação presentes em diferentes tradições.

 

Palavras-chave: Mestre Maçom; Julgamento de Osíris; Hiram Abiff; Simbolismo iniciático; Rito Escocês Antigo e Aceito.


A RELAÇÃO METAFÓRICA ENTRE O GRAU DE MESTRE MAÇOM NO REAA E O JULGAMENTO DE OSÍRIS
Figura 1 – Sala das Duas Verdades (esquerda) e a Câmara do Meio (direita): espaços simbólicos de julgamento e transformação.

1 INTRODUÇÃO

Desde a consolidação da Maçonaria especulativa no século XVIII, o Grau de Mestre Maçom ocupa posição central na estrutura iniciática da Ordem. É nesse grau que se desenvolve a Lenda de Hiram Abiff, narrativa que articula fidelidade aos princípios, morte iniciática e regeneração espiritual, tornando-se o principal eixo simbólico do Rito Escocês Antigo e Aceito (STEVENSON, 1988; PIKE, 1871).

 

No contexto do Egito Antigo, o Julgamento de Osíris, descrito sobretudo no Capítulo 125 do Livro dos Mortos (FAULKNER, 1985), ocupa função igualmente central: a pesagem do coração na Sala das Duas Verdades submete o falecido ao critério de Maat — verdade, justiça e ordem cósmica —, determinando sua admissão aos Campos de Iaru ou sua aniquilação por Ammit (ASSMANN, 2011; HORNUNG, 1999).

 

Autores como Albert Pike, J. D. Buck e Kenneth Mackenzie estabeleceram aproximações entre os dois sistemas, enquanto egiptólogos como Jan Assmann e Erik Hornung aprofundaram os fundamentos filosóficos do julgamento osiríaco. Contudo, ainda faltam análises sistemáticas que distingam analogias simbólicas de hipóteses de influência histórica. Este estudo parte da hipótese de que ambos os relatos expressam um mesmo esquema arquetípico de morte simbólica, julgamento, regeneração e elevação espiritual, recorrente em tradições iniciáticas distintas. A abordagem privilegia a hermenêutica simbólica (ELIADE, 1972; DURAND, 2012) e a análise comparativa, sem pretender demonstrar vínculos históricos diretos.

 

2 O JULGAMENTO DE OSÍRIS NA TRADIÇÃO EGÍPCIA

Osíris, inicialmente associado à fertilidade e ao ciclo do Nilo, adquire progressivamente caráter escatológico a partir do Reino Médio, tornando-se soberano do Duat e juiz das almas (ASSMANN, 2011). Assassinado e desmembrado por Seth, é recomposto por Ísis e Anúbis, renascendo como senhor do além e paradigma da regeneração (PLUTARCO, 2008).

 

Na Sala das Duas Verdades, o falecido, conduzido por Anúbis, profere as Confissões Negativas diante de Osíris e dos quarenta e dois juízes. O coração (ib) — sede da consciência e da responsabilidade moral — é pesado contra a pena de Maat. Em equilíbrio, o morto recebe o título de maat-kheru (“justificado de voz”) e ingressa nos Campos de Iaru; se pesado, é devorado por Ammit, sofrendo a “segunda morte” (FAULKNER, 1985; WILKINSON, 2003).

 

Todo o processo fundamenta-se em Maat, princípio que reúne verdade, justiça, equilíbrio e ordem cósmica (ASSMANN, 2011). O julgamento não avalia a adesão a um credo, mas a conduta efetiva ao longo da vida. A morte deixa de ser término para tornar-se etapa decisiva de avaliação moral e eventual regeneração. O maior temor não era a morte física, mas a perda definitiva da existência. Assim, o Julgamento de Osíris articula ética, responsabilidade individual e esperança de regeneração, elementos que dialogam com o drama iniciático do Grau de Mestre.

 

3 O GRAU DE MESTRE MAÇOM NO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO

O Grau de Mestre constitui o terceiro e último grau da Maçonaria Simbólica. Embora o REAA compreenda trinta e três graus, a tradição regular distingue os três primeiros (Aprendiz, Companheiro e Mestre) dos subsequentes, que são complementares (PIKE, 1871; MACKEY, 1921). A consolidação do terceiro grau no século XVIII conferiu à instituição um drama iniciático próprio, centrado na morte simbólica e na regeneração moral (STEVENSON, 1988). A Loja em Grau de Mestre, denominada Câmara do Meio, privilegia a contemplação da mortalidade, da fidelidade e da continuidade da tradição.

 

O núcleo simbólico reside na Lenda de Hiram Abiff, mestre arquiteto do Templo de Salomão. Submetido à violência de três maus Companheiros que exigem o conhecimento reservado ao Grau de Mestre, Hiram prefere a morte a violar o compromisso assumido. Seu corpo é encontrado e elevado; a Palavra original permanece perdida e é substituída temporariamente. A narrativa ultrapassa o plano histórico para assumir a forma de mito iniciático: fidelidade, sacrifício, perda, busca e regeneração. Hiram personifica a fidelidade absoluta à verdade e aos princípios morais (PIKE, 1871).

 

A cerimônia de exaltação constitui rito de passagem cuja morte simbólica representa ruptura com uma condição anterior de consciência e ingresso em novo estágio de compreensão. A elevação ritual simboliza o triunfo da verdade sobre a violência e da vida espiritual sobre a finitude material, dialogando com os modelos de ritos de passagem de van Gennep (2011) e com a concepção de iniciação de Eliade (1972).

 

4 PARALELOS SIMBÓLICOS E METAFÓRICOS

A aproximação não pretende estabelecer continuidade histórica entre a religião egípcia e a Maçonaria especulativa. Diferenças cronológicas, culturais e documentais impedem tal conclusão. Os paralelos devem ser entendidos como correspondências estruturais e simbólicas, conforme a hermenêutica simbólica e o método comparativo das religiões (ELIADE, 1972; JUNG, 2013).

 

Em ambos os sistemas, a morte é prova iniciática e condição de transformação: no Julgamento de Osíris, passagem para o exame de conformidade com Maat; no Grau de Mestre, ruptura ritual com a consciência anterior. A integridade moral é condição da regeneração: a leveza do coração traduz conformidade com Maat; a fidelidade de Hiram, recusa em violar o compromisso, constitui paradigma ético. Em ambos os casos, a elevação decorre da fidelidade à verdade diante da prova extrema.

 

Há ainda o tema da perda seguida de busca restauradora: o desmembramento de Osíris e a recomposição do corpo; a perda da Palavra de Mestre e a utilização de palavra substitutiva. A perda assume função pedagógica, inaugurando processo permanente de reconstrução interior (DURAND, 2012). Por fim, Osíris torna-se paradigma do homem justificado, e Hiram, modelo permanente da conduta maçônica. A iniciação consiste na incorporação progressiva de um modelo de virtude.

 

Os desfechos também apresentam analogia estrutural: na tradição egípcia, permanência nos Campos de Iaru ou aniquilação por Ammit; na Maçonaria, possibilidade de contínua elevação moral cuja efetividade depende da interiorização dos ensinamentos. A Câmara do Meio pode ser compreendida, em chave hermenêutica, como espaço simbólico de permanente autojulgamento, no qual o Mestre confronta sua consciência com os princípios da Lenda de Hiram Abiff.

 

5 A DIMENSÃO INICIÁTICA DA MORTE E DA REGENERAÇÃO

Tanto o Julgamento de Osíris quanto o drama do Grau de Mestre estruturam-se em torno do esquema iniciático de separação, prova, transformação e reintegração. Segundo Eliade (1972), toda iniciação pressupõe ruptura com uma forma anterior de existência e ingresso em condição qualitativamente nova; o simbolismo da morte ritual é o instrumento dessa transformação. A Sala das Duas Verdades e a Câmara do Meio podem ser interpretadas como espaços de liminaridade (GENNEP, 2011; TURNER, 1974).

 

A verdade ocupa papel central na regeneração. Maat regula cosmos, sociedade e conduta individual; a leveza do coração possibilita a justificação (ASSMANN, 2011). Na tradição maçônica, a verdadeira mestria decorre da fidelidade incondicional aos princípios éticos representados pela Palavra. Maat e a Palavra de Mestre desempenham funções simbólicas comparáveis: ambas orientam a existência para além dos interesses imediatos. A regeneração torna-se possível apenas quando o indivíduo permanece fiel a esse princípio superior. Assim, a iniciação revela-se processo de aperfeiçoamento ético, no qual a transformação espiritual depende menos da aquisição de conhecimentos do que da interiorização permanente de valores.

 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise permite verificar que a Lenda de Hiram Abiff e o Julgamento de Osíris compartilham estruturas simbólicas e iniciáticas no plano arquetípico: a morte como condição de transformação; a integridade moral como critério de elevação; a perda de um princípio sagrado como inauguração de busca permanente; e a regeneração como ingresso em nova forma de existência. Tais convergências não autorizam afirmar influência histórica entre a religião egípcia e a Maçonaria moderna, mas evidenciam a recorrência de estruturas iniciáticas em diferentes tradições.

 

Do ponto de vista dos estudos maçônicos, a investigação amplia a compreensão filosófica do Grau de Mestre: a exaltação deixa de representar apenas a conclusão da Maçonaria Simbólica e revela-se como convite permanente ao aperfeiçoamento ético, ao exame da consciência e à fidelidade aos princípios. A Câmara do Meio torna-se espaço privilegiado de reflexão ética contínua.

 

O estudo reconhece suas limitações — abordagem qualitativa, bibliográfica e hermenêutica — e não pretende demonstrar relações históricas de transmissão cultural. Abre, contudo, possibilidades para pesquisas futuras comparativas, bem como para o diálogo interdisciplinar entre História das Religiões, Egiptologia e hermenêutica simbólica, evidenciando que, em diferentes tempos e culturas, a experiência iniciática continua a representar um dos mais profundos caminhos de reflexão sobre a transformação do ser humano.

 

REFERÊNCIAS

ASSMANN, Jan. Morte e além no Egito Antigo. Tradução de Claudia Abeling. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

BUCK, J. D. Mystic Masonry: or, The Symbols of Freemasonry and the Greater Mysteries of Antiquity. Chicago: Robert H. Rugg, 1897.

DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

ELIADE, Mircea. Nascimento e renascimento: o significado da iniciação na cultura humana. São Paulo: Perspectiva, 1972.

FAULKNER, Raymond O. The Ancient Egyptian Book of the Dead. Revised edition. London: British Museum Press, 1985.

GENNEP, Arnold van. Os ritos de passagem. Petrópolis: Vozes, 2011.

HORNUNG, Erik. The Ancient Egyptian Books of the Afterlife. Translated by David Lorton. Ithaca: Cornell University Press, 1999.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

MACKEY, Albert Gallatin. An Encyclopedia of Freemasonry and Its Kindred Sciences. Revised and enlarged edition. Chicago: The Masonic History Company, 1921.

MACKENZIE, Kenneth Robert Henderson. The Royal Masonic Cyclopaedia. London: John Hogg, 1877.

MORIYON, Félix García. Metáforas do ensino de filosofia. childhood & philosophy, Rio de Janeiro, v. 9, n. 18, p. 345-361, jul./dez. 2013. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/childhood/article/view/20640. Acesso em: 26 jul. 2026.

PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: Supreme Council of the Thirty-Third Degree for the Southern Jurisdiction, U.S.A., 1871.

PLUTARCO. Ísis e Osíris. Tradução de Maria do Céu Zambujo Fialho. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2008.

STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland’s Century, 1590-1710. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.

TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.

WILKINSON, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. London: Thames & Hudson, 2003.


Nota de Rodapé

Mestre em Odontologia; Bacharel em Administração; Especialista em Maçonologia: História e Filosofia; Membro da A∴ R∴ L∴ M∴ Estrela Maior de Turmalina nº 243 – GOMG/COMAB;

Pesquisador independente da história e ritualística maçônica.

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