DA HERANÇA TEMPLÁRIA À EXPANSÃO ATLÂNTICA: A FORMAÇÃO DA ORDEM DE CRISTO E O PROJETO MARÍTIMO PORTUGUÊS
Geraldo Marcelo Lemos Gonçalves[1]
DA HERANÇA TEMPLÁRIA À EXPANSÃO ATLÂNTICA: A FORMAÇÃO DA ORDEM DE CRISTO E O PROJETO MARÍTIMO PORTUGUÊS
Após a extinção da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, autorizada pelo papa Clemente V, a pedido do rei de França, em 1310, em Frielas, a 14 de Abril, foi feito o tratado entre o rei D. Dinis e o rei de Castela, para impedir que os bens da Ordem dos Templários fossem dados a estranhos aos respectivos reinos. D. Dinis mandou negociar, em Roma, a criação da uma nova ordem que o servisse e o ajudasse a defender o reino. O negócio foi cometido ao cavaleiro Lourenço e ao cónego de Coimbra, Pedro Pires, com procuração datada de 14 de Agosto de 1318.[2]
RESUMO
Este texto analisa a relação histórica entre a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a criação da Ordem de Cristo em Portugal e a expansão marítima portuguesa. Argumenta-se que a herança templária deve ser compreendida sobretudo como continuidade patrimonial, territorial, funcional e simbólica, e não como identidade jurídica entre as duas ordens ou como prova de uma transmissão secreta de conhecimentos náuticos. Após a supressão dos Templários, em 1312, D. Dinis negociou com a Santa Sé a criação de uma nova instituição, formalizada pela bula Ad ea ex quibus, de 1319 (Figura 01). Parte dos bens e das estruturas anteriormente templárias foi incorporada à Ordem de Cristo, cuja atuação se aproximou, no século XV, das iniciativas atlânticas portuguesas, especialmente sob o governo do Infante D. Henrique. Conclui-se que a contribuição dessa herança foi relevante, mas deve ser situada entre os diversos fatores políticos, econômicos, religiosos e técnicos que possibilitaram a expansão portuguesa.

Palavras-chave: Templários. Ordem de Cristo. D. Dinis. Infante D. Henrique. Expansão marítima portuguesa.
1 INTRODUÇÃO
A expansão marítima portuguesa dos séculos XV e XVI não resultou de uma única decisão política, de uma inovação isolada ou da ação exclusiva de navegadores célebres. Foi um processo de longa duração, sustentado pela consolidação territorial do reino, pela experiência militar, pelas relações entre monarquia e Igreja, pela administração de recursos e pelo desenvolvimento gradual de técnicas de navegação e construção naval. Nesse contexto, a presença dos Templários em Portugal e a posterior criação da Ordem de Cristo constituem elementos importantes para compreender a passagem de uma estrutura medieval de fronteira para um reino voltado também ao Atlântico.
A Ordem do Templo surgiu no contexto das Cruzadas e reuniu vida religiosa, disciplina comunitária e atividade militar. Ao longo do tempo, construiu uma rede internacional de propriedades, fortalezas e relações políticas. Em Portugal, sua atuação esteve ligada à defesa e à organização de territórios, sendo Tomar[4] um dos principais símbolos dessa presença. A supressão da ordem no início do século XIV colocou em debate o destino de seu patrimônio e das funções que desempenhava.
A hipótese central deste estudo é que a relação entre Templários, Ordem de Cristo e expansão portuguesa deve ser entendida como um processo de reconfiguração institucional. Parte da estrutura material templária foi preservada e reorganizada sob uma nova instituição, em circunstâncias políticas diferentes. Essa continuidade, porém, não equivale a uma identidade jurídica absoluta, nem comprova a existência de uma organização templária clandestina responsável pelos descobrimentos. Como destaca a historiografia das Cruzadas, as ordens militares devem ser analisadas no cruzamento entre religião, guerra, economia e poder (FLORI, 2005; RILEY-SMITH, 2019).
2 OS TEMPLÁRIOS EM PORTUGAL E A CRIAÇÃO DA ORDEM DE CRISTO
A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão desenvolveu-se em uma sociedade na qual a religião influenciava profundamente a organização política e social. As ordens militares não eram apenas grupos de combatentes: administravam propriedades, geriam bens, recebiam doações, construíam fortificações e mantinham redes de apoio. Essa combinação de funções religiosas, militares, “bancárias” e patrimoniais explica tanto sua importância quanto os conflitos que cercaram seu poder (JONES, 2021).
Em Portugal, os Templários participaram da consolidação territorial do reino. Sua presença envolveu castelos, comendas, rendas e atividades de defesa em regiões de fronteira. Tomar, cuja fortificação começou a ser construída em 1160 sob a liderança de Gualdim Pais, tornou-se um marco dessa história. A ordem passou, assim, a integrar a infraestrutura política e territorial portuguesa; seus bens não representavam apenas riqueza religiosa, mas também recursos estratégicos para a monarquia.
A crise templária teve início na França em 1307 e culminou na supressão canônica da ordem pelo papa Clemente V, em 1312. O destino dos bens templários variou conforme os contextos políticos de cada reino. Em Portugal, D. Dinis procurou evitar que esse patrimônio fosse transferido para uma autoridade externa. A solução negociada com a Santa Sé resultou na criação da Ordem de Cristo, instituída em 1319 pelo papa João XXII, por meio da bula Ad ea ex quibus. Bens, direitos e posições estratégicas anteriormente ligados ao Templo foram incorporados à nova milícia (ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO, 2019) e seu primeiro Grão Mestre foi D. Gil Martins, então também Mestre de Avis.
É essencial distinguir continuidade material de identidade jurídica. A Ordem do Templo deixou de existir como instituição reconhecida pela Igreja; a Ordem de Cristo nasceu por ato pontifício próprio e possuía configuração institucional distinta. Houve, portanto, uma reorganização: parte do patrimônio e das funções foi preservada, mas passou a operar em novo enquadramento político e religioso. A estratégia de D. Dinis pode ser compreendida como uma forma de resguardar recursos relevantes para o reino e, ao mesmo tempo, adequar sua administração às decisões da Santa Sé (ANDRADE, 2017).
3 DA FRONTEIRA TERRESTRE AO ATLÂNTICO
A passagem da Ordem de Cristo para o cenário marítimo não ocorreu de forma automática. Entre os séculos XIV e XV, Portugal passou por transformações políticas, econômicas e técnicas que ampliaram sua capacidade de navegar e atuar em regiões distantes. A expansão dependeu da Coroa, de mercadores, navegadores, pilotos, cartógrafos, construtores navais e comunidades portuárias, além de conhecimentos acumulados no Mediterrâneo e no Atlântico. Por isso, a Ordem de Cristo deve ser considerada um agente relevante dentro de uma conjuntura mais ampla, não a causa única dos empreendimentos ultramarinos (BOXER, 2011; DISNEY, 2019).
A ligação com o Infante D. Henrique fortaleceu a associação entre a ordem e as iniciativas atlânticas. A partir de 1420, D. Henrique exerceu o governo da Ordem de Cristo, aproximando a instituição de projetos ligados à navegação, à guerra e à expansão portuguesa. Seu patrimônio e sua legitimidade religiosa podiam contribuir para o apoio a empreendimentos marítimos, enquanto a tradição cruzadística oferecia uma linguagem ideológica para certas iniciativas da Coroa. Isso não significa que todos os objetivos fossem religiosos: comércio, procura de rotas, competição política e acesso a recursos também tiveram papel decisivo.
A Cruz de Cristo tornou-se um dos símbolos mais visíveis dessa associação. Sua presença nas velas das embarcações portuguesas comunicava pertencimento institucional e missão religiosa, ao mesmo tempo que ajudava a projetar a imagem de Portugal como potência cristã em expansão. O símbolo, contudo, pertence à história da Ordem de Cristo. Sua relação com a tradição templária decorre da reorganização histórica ocorrida em Portugal, e não de uma suposta continuidade jurídica secreta.
A expansão ultramarina reuniu, portanto, motivações que não devem ser tratadas como mutuamente excludentes. A guerra contra poderes muçulmanos, a evangelização, a busca por mercados, o controle de rotas e a afirmação da autoridade régia podiam coexistir em uma mesma empresa. Crowley (2016) e Cliff (2012) ressaltam dimensões militares, comerciais e religiosas da expansão; Boxer (2011) situa esses movimentos na formação de um império marítimo de alcance global. A Ordem de Cristo ofereceu uma estrutura institucional e simbólica útil nesse processo, mas sua contribuição deve ser analisada ao lado de múltiplos fatores humanos e materiais (Figura 02).
4 A TERRA DE SANTA CRUZ E OS LIMITES DAS NARRATIVAS SOBRE SEGREDOS
A chegada portuguesa à América em 1500 deve ser compreendida dentro de uma estratégia atlântica em desenvolvimento, que envolvia exploração, defesa, comércio, ocupação e evangelização. A incorporação do território americano às redes portuguesas não pode ser atribuída a um plano exclusivo da antiga Ordem do Templo. A presença de símbolos da Ordem de Cristo e a relação da instituição com a expansão são historicamente relevantes, mas não demonstram que os Templários tenham concebido ou dirigido um projeto específico de chegada ao Brasil.

Também exige cautela a narrativa segundo a qual os Templários teriam transmitido secretamente aos portugueses conhecimentos náuticos decisivos. Ordens militares possuíam redes internacionais e capacidade de circulação de pessoas e informações; contudo, essa possibilidade geral não comprova uma cadeia documental de transmissão de técnicas secretas responsáveis pelos Achamentos. O mesmo cuidado deve ser aplicado à chamada Escola de Sagres. A imagem popular de uma academia formal de navegação, astronomia e cartografia criada pelo Infante D. Henrique não é sustentada de modo conclusivo pela documentação. É mais prudente falar em redes de experiência, pilotos, cartógrafos, construtores e agentes ligados à expansão (ROCA-BRUZZO, 2019).
As tradições esotéricas e as lendas sobre os Templários são temas legítimos de investigação cultural, pois revelam como diferentes épocas reinterpretaram o passado. Entretanto, devem ser diferenciadas dos fatos documentados. A crítica histórica não elimina o valor simbólico dessas narrativas; apenas impede que sejam apresentadas como evidência sem apoio documental. A interpretação mais consistente reconhece que a herança templária foi significativa justamente por meio de bens, territórios, funções e símbolos que foram apropriados e transformados pela monarquia portuguesa.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A trajetória que liga a Ordem do Templo à Ordem de Cristo e, posteriormente, à expansão atlântica portuguesa deve ser entendida como uma sequência de rupturas e continuidades. Os Templários participaram da consolidação territorial do reino e deixaram uma infraestrutura patrimonial e militar importante. Após a supressão da ordem, D. Dinis negociou a preservação de parte desse legado por meio da criação da Ordem de Cristo, formalizada em 1319.
Nos séculos seguintes, a Ordem de Cristo aproximou-se das iniciativas ultramarinas, especialmente durante o governo do Infante D. Henrique. Seu patrimônio, sua tradição militar e seus símbolos contribuíram para articular aspectos religiosos e políticos da expansão. Ainda assim, os empreendimentos portugueses resultaram da convergência de interesses econômicos, decisões régias, conhecimentos técnicos, capacidades náuticas e ações de diversos grupos sociais.
Assim, a herança templária não precisa ser explicada por segredos ou por uma sobrevivência clandestina para ter relevância histórica. Sua importância reside na continuidade documentável de estruturas e símbolos que foram reorganizados em outro contexto. A Ordem do Templo não navegou para o Atlântico; contudo, parte do mundo institucional que ajudou a construir em Portugal foi incorporada à Ordem de Cristo e participou, de forma indireta e transformada, da história da expansão portuguesa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ANDRADE, Flávio Rodrigues. Uma manobra estratégica de D. Dinis na criação da Ordem de Cristo. 2017. 125 f. Dissertação (Mestrado em História Ibérica) – Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, 2017. Disponível em: https://repositorio.unifal-mg.edu.br/items/774e21d6-38d1-419e-a848-a5d9f35acfd8. Acesso em: 23 ago. 2026.
ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. Instituição da Ordem de Cristo. Lisboa: Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, 2019. Disponível em: https://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/ordem-de-cristo/. Acesso em: 23 ago. 2026.
BOXER, C. R. O império marítimo português: 1415-1825. 2. ed. Lisboa: Edições 70, 2011.
CLIFF, Nigel. Guerra santa: como as viagens de Vasco da Gama transformaram o mundo. São Paulo: Globo, 2012.
CROWLEY, Roger. Conquistadores: como Portugal forjou o primeiro império global. São Paulo: Planeta, 2016.
DISNEY, Anthony R. A história de Portugal e do Império Português. Lisboa: Clube do Autor, 2019.
FLORI, Jean. A cavalaria: a origem dos nobres guerreiros da Idade Média. São Paulo: Madras, 2005.
JONES, Dan. Templários: ascensão e queda dos guerreiros sagrados de Deus. São Paulo: Planeta, 2021.
RILEY-SMITH, Jonathan. As cruzadas: uma história. Campinas: Ecclesiae, 2019.
ROCA-BRUZZO, Pere. La Escuela de Sagres: la construcción de un mito historiográfico. Nuevas de Indias. Anuario del CEAC, v. 4, p. 81-111, 2019. DOI: https://doi.org/10.5565/rev/nueind.52.
ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. Instituição da Ordem de Cristo. Lisboa: Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, [s. d.]. Disponível em: https://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/ordem-de-cristo/. Acesso em: 25 out. 2026.
Notas de rodapé
[1] Bacharel em Odontologia pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM, 1999). Concluiu as especializações em Odontopediatria (UFVJM, 2003), Ortodontia (UFVJM, 2010), Implantodontia (UNIASSELVI, 2013). Habilitado em Sedação Consciente e Analgesia Inalatória (ABRASCO, 2015). Especialista em Maçonologia: História e Filosofia (UNINTER, 2018), Bacharel em Administração de Empresas (UNINTER, 2022), Mestre em Prótese Dental (SLMANDIC, 2023), Especialista em Radiologia Odontológica e Imaginologia (IOA 2026) e atualmente é acadêmico em História (UNINTER). Mestre Maçom Instalado, Membro da A. R. L. M. Estrela Maior de Turmalina nº 243 do G. O. M. G., Membro Correspondente da A.R.L.S. Virtual Lux in Tenebris n° 47 da G. L. O. M. A. R. O. N., Grau 13 do R. E. A. A., M. E. do Real Arco e Membro da AMVBL cadeira 45.
[2] ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. Instituição da Ordem de Cristo. Lisboa: Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, [s. d.]. Disponível em: https://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/ordem-de-cristo/. Acesso em: 25 out. 2026.
[3] ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO. Instituição da Ordem de Cristo. Lisboa: Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, [s. d.]. Disponível em: https://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/ordem-de-cristo/. Acesso em: 25 out. 2026.
[4] Município português situado no distrito de Santarém, cuja história está profundamente ligada à Ordem dos Templários e à Ordem de Cristo. Abriga o Convento de Cristo, antigo complexo templário e importante patrimônio histórico e arquitetônico de Portugal.
[5] Imagem gerada por IA.





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