O CAPITÃO DA ALMA NA ARTE REAL
- 16 de dez. de 2025
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Por Lucas do Couto Santana[1]
O CAPITÃO DA ALMA NA ARTE REAL
Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu — eterno e espesso,
A qualquer deus — se algum acaso existe,
Por mi'alma insubjugável agradeço.
Na garra cruel das circunstâncias,
Eu não lamentei, nem gritei em voz alta.
Sob os duros golpes do acaso,
Minha cabeça sangra, mas não se curva.
Além deste lugar de ira e pranto,
Somente o Horror da sombra se descortina,
E ainda assim a ameaça do tempo
Me encontra, e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito seja o portão,
Quão repleta de castigos seja a sentença,
Eu sou o mestre do meu destino,
Eu sou o capitão da minha alma.
Poema Invictus, escritor por William Ernest Henley (1849–1903),
Tradução atribuída a Thereza Christina Rocque da Motta
Sob o pálio estrelado do Templo, onde o Sol e a Lua vigiam em silêncio e o esquadro repousa sobre o compasso, ecoam palavras que não estão nos rituais, mas ressoam como se sempre ali tivessem habitado: "Eu sou o mestre do meu destino, eu sou o capitão da minha alma". No coração da iniciação, essas palavras traduzem o significado de sua realização, a soberania que cada Irmão deve conquistar sobre si mesmo.
William Ernest Henley (1849–1903) sofreu, desde a infância, de tuberculose óssea, uma condição excruciante que levou à amputação de uma das suas pernas abaixo do joelho na sua juventude e que acabou por matá-lo aos 53 anos. Aos 20 anos, confrontado com a possibilidade de perder a segunda perna, Henley recusou a amputação padrão e procurou Joseph Lister, o pioneiro da cirurgia antisséptica, na Enfermaria Real de Edimburgo. (DINIEJKO, 2011)
Foi durante o longo e doloroso isolamento na enfermaria (1873–1875) que Henley escreveu os versos que se tornariam Invictus, inseridos depois na série de poemas In Hospital aos 27 anos (HENLEY, 1921; JOSE, 2024). Era um período da era vitoriana tardia na Grã-Bretanha, marcado por uma obsessão cultural com o caráter, a resiliência masculina e a capacidade de suportar o sofrimento.
Em meio às trevas de um leito hospitalar, onde a dor e o acaso empunhavam o maço contra sua carne, William escreveu como quem esculpe a “pedra bruta”, com sangue, silêncio e fortaleza dentro de uma câmara de reflexão. Sua alma, embora golpeada, não se curvou. Nessa experiência-limite, o sofrimento se converte em ocasião de encontrar um sentido para a própria existência, numa linha muito próxima do que Viktor Frankl descreve como a possibilidade de dizer “sim à vida, apesar de tudo” (FRANKL, 2012; SILVEIRA; MAHFOUD, 2008).
Henley, forjado por duras provações pessoais, produziu em Invictus um testemunho universal do espírito indomável do ser humano frente ao sofrimento. Embora não tenha sido iniciado na Arte Real, seu poema parece tocado pela mesma Luz. Seu poema, nascido fora do Templo, fala a todos aqueles que buscam a medida da alma entre os extremos da existência. É um hino à autossuficiência e à resiliência, entendida aqui não apenas como “aguentar firme”, mas como capacidade de se reconstruir a partir da dor e das perdas (OLIVEIRA; ROCHA, 2016; SILVEIRA; MAHFOUD, 2008).
O Ritual do Aprendiz ensina que "do caos se faz ordem" (GLOMARON, 2016) e que a Luz deve ser buscada, desejada, conquistada com cada golpe de cinzel contra o orgulho, o medo, a ignorância. O poeta diz que não importa quão estreito seja o portão. Também a Câmara de Reflexão é estreita, escura, impregnada de morte e silêncio. Ali, entre esqueletos e o VITRIOL, o profano descobre que o verdadeiro inimigo não está fora, mas dentro de si (GLOMARON, 2016).
Ser “capitão da alma” é mais do que altivez declamatória, mas o fato de aceitar, com serenidade trágica, estoica, que não há piloto sem tempestade, nem virtude sem provação. O Maçom descobre, na solidão povoada da Câmara de Reflexão e na partilha silenciosa do Templo, que a liberdade interior não é licença para fazer o que quer, mas força para fazer o que deve. Forja-se, assim, como arquiteto de seu próprio Templo Interior, dominando paixões e vícios, aparando arestas, abrindo em si o espaço onde a Luz pode habitar.
Portanto, somos mestres de nosso destino. A verdadeira invencibilidade não está em jamais se curvar, mas em levantar-se após cada queda, com o coração mais humilde, o caráter mais firme e o olhar mais voltado ao “Oriente”. É nesse ponto em que o poema profano toca o Ritual, quando o Aprendiz compreende que ser “capitão da alma” é, em última instância, aprender a conduzi-la à Luz.
Referências bibliográficas utilizadas
ASLAN, Nicola. Comentários ao Ritual de Aprendiz-maçom. Londrina: A Trolha, 2006.
ASLAN, Nicola. Estudos maçônicos sobre simbolismo. 2. ed. Cabo Frio: Edições Nicola Aslan, 1978.
HENLEY, William Ernest. Poems. London: Macmillan, 1921.
DINIEJKO, Andrzej. William Ernest Henley: a biographical sketch. The Victorian Web, 2011. Disponível em: <https://victorianweb.org/authors/henley/bio.html>. Acesso em: 11 dez. 2025.
FRANKL, Viktor Emil. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2012.
GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DE RONDÔNIA. Ritual do Grau de Aprendiz Maçom. Porto Velho: GLOMARON, 2016.
JOSE, Luijim S. Unveiling resilience: a comprehensive stylistic analysis of William Ernest Henley’s poem “Invictus”. Interdisciplinary Journal of Applied and Basic Subjects, v. 4, n. 6, p. 9–16, 2024.
MOTTA, Thereza Christina Rocque da (trad.). Invictus (poema de William Ernest Henley). In: GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra. Invictus: o poema que inspirou Nelson Mandela em seus 27 anos de prisão. 2015. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/invictus-o-poema-que-inspirou-nelson-mandela-em-seus-27-anos-de-de-prisao/>. Acesso em: 11 dez. 2025.
OLIVEIRA, Ivana de; ROCHA, Fátima Niemeyer da. Resiliência e busca de sentido de vida na velhice frente aos desafios do caminho da existência. Revista Mosaico, Goiânia, v. 7, n. 1, p. 4–12, jan./jun. 2016.
SILVEIRA, Daniel Rocha; MAHFOUD, Miguel. Contribuições de Viktor Emil Frankl ao conceito de resiliência. Estudos de Psicologia (Campinas), Campinas, v. 25, n. 4, p. 567–576, out./dez. 2008.
Nota de rodapé
[1] Por Lucas do Couto Santana, Venerável Mestre da ARLS Lux In Tenebris n. 47 – GLOMARON e Membro da Academia Maçônica de Letras do Estado de Rondônia e Membro da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras – AMVBL.




Muito interessante e reflexivo. O que mais me chamou atenção, foi o seguinte parágrafo: O Ritual do Aprendiz ensina que "do caos se faz ordem" (GLOMARON, 2016) e que a Luz deve ser buscada, desejada, conquistada com cada golpe de cinzel contra o orgulho, o medo, a ignorância. O poeta diz que não importa quão estreito seja o portão. Também a Câmara de Reflexão é estreita, escura, impregnada de morte e silêncio. Ali, entre esqueletos e o VITRIOL, o profano descobre que o verdadeiro inimigo não está fora, mas dentro de si (GLOMARON, 2016).
T∴ F∴ A∴