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O PONTO DENTRO DO CÍRCULO: HISTÓRIA, ESCRITURA E TRADIÇÃO MAÇÔNICA

  • há 4 dias
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Atualizado: há 3 dias


Por Leonardo Pastoreli Lima Peruzzo 


COMPARAÇÃO ENTRE TRADIÇÕES JOANINAS E A LEITURA MOISÉS–SALOMÃO, COM AUTORES INGLESES E DE OUTRAS NACIONALIDADES


O PONTO DENTRO DO CÍRCULO
Representação gráfica do ponto dentro do círculo

 

Introdução e metodologia

A pesquisa mobiliza fontes primárias e secundárias preferencialmente em língua inglesa, com documentação digitalizada em domínio público (Google Books, Internet Archive, Projetos editoriais) e publicações de Grandes Lojas e revistas especializadas. Para a seção bíblica, privilegiam-se a Bíblia King James de 1611, citações bíblicas na Constituição de Anderson (edição de 1855), calendário joanino. Para a seção maçônica, monitores (Webb), compêndios simbólicos (Mackey), leituras escocistas (Pike) e manuais pedagógicos (Preston), além de estudos e artigos (The Builder, The Square Magazine, Research Lodge of Wellington).

 

Tese do artigo: este estudo demonstra, com base em fontes primárias digitalizadas (catecismos, monitores, pranchas) e literatura maçônica de referência, que o ponto dentro do círculo apresenta continuidade histórica anterior à Maçonaria especulativa e estabilidade funcional no ensino do ofício. Especificamente: (I) a forma centro-circunferência fornece um vocabulário técnico para trabalhar centralidade e limites; (II) a releitura inglesa do século XIX, ao deslocar os paralelos de Santos João para Moisés–Salomão, amplia a aceitabilidade interconfessional sem alterar a função normativa; (III) os tracing boards a partir de 1801 consolidam um padrão visual que sustenta essa pedagogia.

 

1. História antiga do símbolo

O símbolo do ponto no centro do círculo é antiquíssimo e com muitos significados, inclusive já podemos estabelecer aqui que ele é muito anterior à formação da Maçonaria (1717). No Mediterrâneo oriental (Levante, Anatólia, Grécia e Egito), aparece associado ao disco solar e à ideia de eternidade. No repertório helênico (período clássico da Grécia), a geometria fornece o vocabulário preciso para compreender a sua estrutura: centro e circunferência.

 

O símbolo do ponto no centro do círculo aparece associado ao deus Rá no Egito Antigo. A tradição egípcia vinculava o círculo-com-ponto ao disco solar, que era considerado manifestado por Rá. Segundo a publicação “Circle Dot” no site Hmolpedia:

In ancient Egypt, ʘ was a symbol of the sun god Ra. Each of the 28 divisions of the Egyptian royal cubit was consecrated to a particular divinity, and, appropriately enough, the first division of the cubit, the number 1, bears the symbol of ʘ.” (No Egito antigo, ʘ era símbolo do deus-sol Rá. Cada uma das 28 divisões do cúbito real egípcio era consagrada a uma divindade particular, e, apropriadamente, a primeira divisão do cúbito, o número 1, ostenta o símbolo ʘ.”).

 

Exemplos representando Rá foram esculpidos em pedra no obelisco do Ramesseum, o templo mortuário de Ramsés II, localizado em Tebas, no Egito.
Exemplos representando Rá foram esculpidos em pedra no obelisco do Ramesseum, o templo mortuário de Ramsés II, localizado em Tebas, no Egito.

Rá passou a ser considerado uma das divindades mais importantes do Egito Antigo durante a Quinta Dinastia (aproximadamente 2494–2345 a.C.). Sua associação com o disco solar e a ascensão como um deus principal ocorreram nesse mesmo período, no qual seu culto alcançou grande proeminência. Nesse momento já atribuíam significado ao ponto central como origem, centro vital, princípio gerador. Em símbolos alquímicos e filosóficos medievais, ele também aparece repetidamente. No site Symbology Wiki está registrado que:

The most primitive and fundamental of all symbols is the dot.” — Manly P. Hall; Lectures on Ancient Philosophy (“O mais primitivo e fundamental de todos os símbolos é o ponto.”)

 

Essa frase reforça que, para muitos estudiosos, o ponto não é mero ornamento, mas algo que remete a origem de tudo: o ponto é o princípio, o indivisível, aquilo que antecede a multiplicidade.

 

Há também uso do símbolo em artefatos ornamentais antigos, especialmente em objetos que tinham função religiosa. Por exemplo, um artefato listado no Metropolitan Museum (Egito, entre os séculos III e XII d.C.) apresenta motivo decorativo de “dot-in-circle motif” (ponto no centro do círculo):

“The dot-in-circle motif recalls designs presumed to be of magical significance, most likely an abstract eye to ward off the evil-eye, which serve an apotropaic function.” (O motivo de pontos em círculos evoca desenhos presumivelmente de significado mágico, provavelmente um olho abstrato para afastar o mau-olhado, que cumpre uma função apotropaica.) (SPOOL - https://www.metmuseum.org/)

 

Spool - 3rd–12th century - Metropolitan Museum
Spool - 3rd–12th century - Metropolitan Museum

Esses exemplos mostram que o ponto dentro do círculo serviu tanto para expressar devoção, como para marcar limites simbólicos, proteção, origem ou divindade.

 

Uma outra definição remonta a Euclides de Alexandria (325 a.C.  265 a.C.), que foi um professor, matemático platônico e escritor grego, muitas vezes referido como o “Pai da Geometria”. Ele diz:

A circle is a plane figure contained by one line such that all the straight lines falling upon it from one point among those lying within the figure are equal to one another; And the point is called the centre of the circle.” (Um círculo é uma figura plana contida por uma linha tal que todas as retas que incidem sobre ela, a partir de um ponto entre os que jazem no interior da figura, são iguais entre si; E esse ponto é chamado de centro do círculo.) (EUCLID, Book I, Defs. 15–16).

 

Círculo de Euclides
Círculo de Euclides

Essa definição euclidiana organiza, desde a Antiguidade, a intuição do centro como origem e medida, sendo um referencial da época.

 

Para Pitágoras (570–495 a.C.) e para a escola pitagórica, fundada em Crotona, na Itália, por volta de 525 a.C., o ponto dentro do círculo possuía uma representação muito significativa, como se observa na publicação “Circumpunct”, disponível no site Symbology.wiki:

For the Pythagoreans, the production of number sequences held significance not only in the realm of geometry but also in cosmogony. According to Diogenes Laërtius, the monad gave rise to the dyad, which led to the creation of numbers. From numbers emerged points, followed by lines, two-dimensional entities, three-dimensional entities, and bodies, eventually culminating in the formation of the four elements: earth, water, fire, and air, which serve as the foundational building blocks of our world.

To Pythagoras, the Monad embodied the genesis point of creation, encapsulating the concept of the Supreme Being, divinity, or the entirety of existence. It symbolized a notion of cosmic consciousness, an awareness that observes and learns from the intricate interplay between the micro and macrocosms.”

(Para os pitagóricos, a produção de sequências numéricas tinha importância não apenas no âmbito da geometria, mas também na cosmogonia. Segundo Diógenes Laércio (historiador e biógrafo dos antigos filósofos gregos), a mônada deu origem à díade, que levou à criação dos números. Dos números surgiram pontos, seguidos por linhas, entidades bidimensionais, entidades tridimensionais e corpos, culminando na formação dos quatro elementos: terra, água, fogo e ar, que servem como os blocos de construção fundamentais do nosso mundo.

Para Pitágoras, a Mônada personificava o ponto de gênese da criação, encapsulando o conceito do Ser Supremo, da divindade ou da totalidade da existência. Simbolizava uma noção de consciência cósmica, uma percepção que observa e aprende com a intrincada interação entre o micro e o macrocosmo).

 

Símbolo esotérico da mônada hieroglífica.
Símbolo esotérico da mônada hieroglífica.

No estudo “Stonehenge Decoded”, Gerald Hawkins propõe que o arranjo geométrico de Stonehenge (formação em pedra na Inglaterra), que possui cerca de 5.000 anos, utilizado por povos celtas e druidas em rituais solares, materializa o símbolo do ponto dentro do círculo. Essa configuração representa o centro sagrado do mundo, onde o Sol, princípio vital, conecta o terreno ao divino, expressando a ideia celta de equilíbrio cósmico e renovação cíclica da vida:

“In its circular layout and central altar stones, Stonehenge mirrors a solar design: a circle with a point at its heart, symbolizing the union of heaven and earth through the sun.” (“Em seu layout circular e nas pedras centrais do altar, Stonehenge reflete um design solar: um círculo com um ponto em seu coração, simbolizando a união do céu e da terra através do sol.”).

 

Stonehenge, localizado na Inglaterra, no condado de Wiltshire.
Stonehenge, localizado na Inglaterra, no condado de Wiltshire.

Convém também reconhecer que a presença do ponto dentro do círculo em diferentes civilizações não implica, por si só, qualquer linha direta de continuidade simbólica. O fato de o emblema surgir em contextos egípcios, semitas ou helênicos, por exemplo, demonstra apenas a recorrência de uma forma geométrica simples, dotada de forte poder expressivo. A Maçonaria, ao reinterpretá-lo, não reivindica uma transmissão ininterrupta desse símbolo ao longo dos séculos, mas o reinsere em seu próprio sistema de significados, atribuindo-lhe um valor iniciático e moral coerente com sua pedagogia ritual.

 

2. Referências bíblicas e eclesiásticas (João, Moisés e Salomão)

Importante começarmos a entender quem são as figuras que sempre aparecem associadas ao ponto dentro do círculo. Pois, geralmente, o ponto dentro do círculo não é mostrado sozinho; ele sempre vem acompanhado de duas linhas paralelas (cada linha representa uma figura) ao círculo e até mesmo com o volume da Lei Sagrada na parte superior. Adiante veremos as quatro figuras que compõem este trabalho: São João Batista; São João Evangelista; Moisés; e Salomão.


São João Batista - João Batista é apresentado na Bíblia como o profeta enviado para preparar o caminho do Messias. Seu nascimento foi anunciado ao sacerdote Zacarias pelo anjo Gabriel: “Não temas, Zacarias, porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua esposa, dará à luz um filho, e chamarás o seu nome João.” (Lucas 1:13, BKJA). Desde jovem, João viveu no deserto, pregando arrependimento e batizando no rio Jordão: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas.” (Mateus 3:3, BKJA). Sua missão era apontar o Cristo: “E João olhou para Jesus, quando andava, e disse: Eis o Cordeiro de Deus!” (João 1:36, BKJA). João Batista foi morto por ordem de Herodes após denunciar publicamente o adultério do rei: “E mandou degolar João no cárcere.” (Mateus 14:10, BKJA). Seu nascimento é tradicionalmente situado em Judá, e seu martírio provavelmente na fortaleza de Maqueronte, na Pereia, conforme relatos históricos.

 

São João Evangelista - Conhecido como “o discípulo a quem Jesus amava”, João, filho de Zebedeu, foi pescador na Galileia antes de ser chamado por Cristo: “E, passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão... e os chamou.” (Mateus 4:21, BKJA). O evangelho que leva seu nome começa com a sublime afirmação sobre a natureza divina de Jesus: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1:1, BKJA). E continua: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14, BKJA). João também é reconhecido como autor do Apocalipse, que recebeu enquanto estava exilado na ilha de Patmos: “Eu, João, que também sou vosso irmão e companheiro na tribulação, e no reino, e na paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e pelo testemunho de Jesus Cristo.” (Apocalipse 1:9, BKJA). A tradição cristã afirma que João viveu até idade avançada, sendo o único apóstolo a morrer de causas naturais, provavelmente em Éfeso.

 

Moisés - Figura central do Antigo Testamento, Moisés nasceu em um período de perseguição aos hebreus no Egito, sendo salvo das águas do Nilo: “E chamou-lhe o seu nome Moisés, e disse: Porque das águas o tirei.” (Êxodo 2:10, BKJA). Mais tarde, Deus o chama para libertar o povo da escravidão, manifestando-se na sarça ardente: “E apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo, do meio de uma sarça; e ele olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, mas a sarça não se consumia.” (Êxodo 3:2, BKJA). Moisés conduz o Êxodo, recebe as Tábuas da Lei no Sinai e intercede continuamente pelo povo: “E falava o Senhor a Moisés face a face, como um homem fala com o seu amigo.” (Êxodo 33:11, BKJA). A Bíblia registra sua morte na terra de Moabe, após ver a Terra Prometida de longe: “Assim morreu Moisés, servo do Senhor, na terra de Moabe, conforme a palavra do Senhor.” (Deuteronômio 34:5, BKJA). Moisés é lembrado como o libertador, legislador e profeta por excelência, sendo reconhecido também nas tradições judaica, cristã e islâmica.

 

Salomão - Filho do rei Davi e de Bate-Seba, Salomão ascendeu ao trono de Israel e foi abençoado com sabedoria incomparável. A Escritura narra: “E deu à luz uma criança, e chamou o seu nome Salomão; e o Senhor o amou.” (2 Samuel 12:24, BKJA). Quando Deus lhe apareceu em sonho, Salomão pediu entendimento, e o Senhor respondeu: “Eis que te dei um coração sábio e entendido; de maneira que antes de ti não houve nenhum como tu, nem depois de ti se levantará outro como tu.” (1 Reis 3:12, BKJA). Ele construiu o Grande Templo de Jerusalém, símbolo da presença divina entre o povo, e compôs numerosos provérbios e cânticos: “E proferiu três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco.” (1 Reis 4:32, BKJA). O reinado de Salomão durou quarenta anos, e o texto bíblico encerra sua história dizendo: “E dormiu Salomão com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi, seu pai; e Roboão, seu filho, reinou em seu lugar.” (1 Reis 11:43, BKJA). Sua figura é lembrada não apenas pela sabedoria, mas também pela construção do Templo, ponto de referência espiritual e simbólica em diversas tradições, incluindo a Maçonaria.

 

2.1. Mudança do significado das linhas paralelas

O Ocidente cristão integrou as festas dos dois Santos João (24 de junho e 27 de dezembro) à sua cultura litúrgica, e desde cedo as Grandes Lojas inglesas ajustaram seu calendário a essas datas. As Constituições de Anderson registram explicitamente essa prática, evidenciando a centralidade joanina no século XVIII.

 

Podemos ver no trecho a seguir, onde a constituição afirma que a comunicação anual deveria acontecer em uma data joanina:

“XXII. The Brethren of all the Lodges in and about London and Westminster , ſhall meet at an ANNUAL COMMUNICATION and Feast, in ſome convenient Place, on St. John Baptist's Day, or elſe on St. John Evangelist's Day, as the Grand Lodge ſhall think fit by a NEW REGULATION, having of late Years met on St. JOHN Baptist's Day : Provided…” (XXII. Os Irmãos de todas as Lojas em Londres e Westminster e arredores, se reunirão em uma COMUNICAÇÃO ANUAL e Festa, em algum local conveniente, no Dia de São João Batista, ou então no Dia de São João Evangelista, conforme a Grande Loja considerar adequado por um NOVO REGULAMENTO, tendo se reunido nos últimos anos no Dia de São João Batista: desde que…) (ANDERSON, 1855 [1723], Regulations XXII).


Quadro pintado por Roy Mandell e Margaret Schmidt, com o título de “The Patron Saints and the Point Within the Circle” (2014)
Quadro pintado por Roy Mandell e Margaret Schmidt, com o título de “The Patron Saints and the Point Within the Circle” (2014). À esquerda temos São João Batista e, à direita, São João Evangelista

Ao longo do século XIX, na Inglaterra, começou a surgir um movimento que buscava aproximar diferentes tradições religiosas, tornando suas práticas mais inclusivas e menos restritas a uma única crença. Nesse contexto, para evitar críticas de que suas referências simbólicas eram excessivamente cristãs, as chamadas Lectures (seções explicativas) associadas a Hemming passaram a reinterpretar certos símbolos. Entre 1813 e 1816, o Reverendo Dr. Samuel Hemming chefiou o trabalho de compilar um sistema de lectures que serviria como compromisso entre as duas tradições (Antigos e os Modernos). Essas “Hemming lectures” substituíram em grande parte as apresentações anteriores (Prestonian lectures) na Inglaterra. Essa mudança deslocou o foco de um simbolismo exclusivamente cristão para um sentido mais universal, capaz de ser compartilhado por diferentes linhas.


Um exemplo marcante foi a mudança do significado das duas linhas paralelas, que antes representavam os Santos João (Batista e Evangelista), figuras do cristianismo, e passaram a ser associadas a Moisés e Salomão, personagens do Antigo Testamento reconhecidos por várias tradições religiosas, incluindo o judaísmo e o islamismo. Podemos ver isso em um trecho da publicação feita no jornal maçônico “The Builder Magazine”, com o título “THE HOLY SAINTS JOHN”, escrito em 1922 pelo irmão Benjamin Wellington Bryant:

“In the Hemming system the Johannine dedication was eliminated, the parallel lines were said to represent Moses and Solomon, and the lodges dedicated "to God and his service." Thus our English brethren silenced, so far as these two Saints were concerned, all possibility of a charge of sectarianism.” (No sistema de Hemming, a dedicação joanina foi eliminada; disse‑se que as linhas paralelas representavam Moisés e Salomão, e as Lojas foram dedicadas “a Deus e ao Seu serviço”. Assim, nossos Irmãos ingleses calaram, quanto a esses dois Santos, toda possibilidade de acusação de sectarismo.) (THE BUILDER, July 1922).

 

A adoção prática dos textos de Hemming implicou em reinterpretar símbolos e isso gerou queixas formais e debates dentro da Ordem. Há registros de reclamações por volta de 1819, de irmãos que não haviam acatado as alterações propostas por Hemming:

“In 1819 a complaint, endorsed by Peter Gilkes, was made to the Board of General Purposes that Bro. Philip Broadfoot and the Lodge of Stability were working in a manner not conformable to the system established by the Lodge of Reconciliation.”

(“Em 1819, uma reclamação, endossada por Peter Gilkes, foi apresentada ao Conselho de Assuntos Gerais, alegando que o Irmão Philip Broadfoot e a Loja Stability estavam trabalhando de uma forma não conforme ao sistema estabelecido pela Loja de Reconciliação.”) (PHOENIX MASONRY, 1965)

 

A mudança foi debatida por décadas, sendo que autores como George Oliver publicaram críticas (por exemplo, A Mirror for the Johannite Masons, 1848), mostrando que não houve aceitação unânime e que a situação continuou sendo discutida ao longo do século XIX. Algumas jurisdições (ex.: Grande Loja da Escócia) mantiveram a dedicação aos Santos João. Ou seja, a mudança foi principalmente o padrão adotado pela United Grand Lodge of England após a união, não uma regra mundial imediata.


Mas qual foi o motivo dessa mudança de pensamento da época? A mudança de interpretação simbólica na Maçonaria inglesa decorreu tanto de fatores externos, sendo a crescente diversidade religiosa do século XIX (como a Emancipação Católica de 1829, avanços civis para judeus e o fortalecimento dos não-conformistas), que tornaram problemáticos símbolos percebidos como exclusivamente cristãos. Quanto aos fatores internos, sobretudo o esforço de padronização ritual após a união das Grandes Lojas em 1813, deixando-o menos religioso, voltado a tornar a Ordem mais inclusiva.

 

3. Interpretações maçônicas

Os autores ingleses e americanos consolidaram o ensinamento do ponto‑círculo nas obras maçônicas e de monitorias. A seguir, apresentam-se algumas passagens e trechos de diversos estudos e publicações (com tradução) de diversos autores.

 

O primeiro autor que apresento é Thomas Smith Webb, que teve grande relevância no cenário maçônico americano por ter criado o Rito de York. Ele publicou o famoso “O Monitor dos Franco-Maçons”, onde em determinado momento fala sobre o ponto dentro do círculo:

“The point representing an individual brother; the circle representing the boundary line of his duty to God and man, beyond which he is never to suffer his passions, prejudices or interest to betray him…” (O ponto representa um Irmão individual; o círculo representa a linha‑limite do seu dever para com Deus e o homem, além da qual jamais deve permitir que suas paixões, preconceitos ou interesse o traiam…) (WEBB, Freemason’s Monitor, 19th‑cent. ed.).

 

O segundo autor, também americano, é Albert Mackey, que possui diversas obras e é muito conhecido pelos famosos Landmarks. Em sua publicação “A Simbologia da Franco Maçonaria” ele diz:

“The Point within a Circle is another symbol of great importance in Freemasonry… We are told that the point represents an individual brother, the circle the boundary line of his duty to God and man…” (O Ponto dentro de um Círculo é outro símbolo de grande importância na Maçonaria… Diz‑se que o ponto representa um Irmão individual; o círculo, a linha‑limite do seu dever para com Deus e o homem…) (MACKEY, The Symbolism of Freemasonry, ch. XV).

 

O autor maçom inglês Walter Leslie Wilmshurst. Publicou quatro livros sobre a Maçonaria Inglesa e submeteu diversos artigos à revista “The Occult Review”. Ele fala que:

It is a point within the circle of our own nature and, living as we do in this physical world, the circle of our existence is bounded by two grand parallel lines; ‘one representing Moses; the other King Solomon’…” (É um ponto dentro do círculo da nossa própria natureza e, vivendo como vivemos neste mundo físico, o círculo da nossa existência é limitado por duas grandes linhas paralelas; ‘uma representando Moisés; a outra, o Rei Salomão’…) (WILMSHURST, The Meaning of Masonry - 1922).

 

O autor, professor e editor escocês William Preston foi amplamente reconhecido por seu trabalho como maçom e por seu livro Illustrations of Masonry. Nesse trabalho ele menciona explicitamente o símbolo do ponto dentro de um círculo na seção final da palestra do 1º Grau:

“In every well regulated and governed Lodge, there has been a certain point within a circle… and while a Mason keeps himself thus circumscribed, he cannot materially err.” (Em toda Loja devidamente regulada e governada existe um certo ponto dentro de um círculo… e, enquanto um Maçom se mantém assim circunscrito, ele não pode errar materialmente.) (PRESTON, Illustrations of Masonry - 1796, 9ª ed. Página 45).

 

O americano e redator do New York Herald, Carl H. Claudy, publicou o artigo “Point Within a Circle” em 1923 (ano aproximado), onde ele fala que:

“Our ancient brethren used the point within a circle as a test for the rectitude of the tools by which they squared their work… In the Speculative sense we use it as a test for the rectitude of our intentions and our conduct…” (Nossos antigos Irmãos usavam o ponto dentro de um círculo como prova da retidão das ferramentas com as quais esquadrinharam o trabalho… Em sentido Especulativo, usamos como prova da retidão de nossas intenções e de nossa conduta…) (CLAUDY, apud The Square Magazine, 2020).

 

O autor neozelandês George Allan, fez um trabalho que se intitula “A Point Within a Circle from which a Mason Cannot Err” em 2013, onde ele utiliza diversas referências muito interessantes, porém o ponto que ele traz é:

All Freemasons are human beings and human beings make mistakes so what can this phrase from which a Mason cannot err mean? On going round the circle containing the point in a Masonic Lodge we must necessarily touch on both parallel lines, likewise on the VSL …” (Todos os maçons são seres humanos e seres humanos cometem erros, então o que pode significar essa frase “da qual um maçom não pode errar”? Ao contornar o círculo que contém o ponto numa Loja Maçônica, devemos necessariamente tocar ambas as linhas paralelas; da mesma forma na VSL…) (ALLAN, Research Lodge of Wellington, 2013).


Já o Reverendo inglês Dr. George Oliver, um grande historiador, embora às vezes considerado muito inventivo, que escreveu mais de 30 obras sobre nossa ordem, coloca em sua obra “THE HISTORICAL LANDMARKS AND OTHER EVIDENCES OF FREEMASONRY” o seguinte ponto:

“Chief point, principal point, and point within a circle… The third teaches us to circumscribe our actions within the limits of scriptural commands.” (Ponto principal, ponto capital e ponto dentro de um círculo… O terceiro ensina‑nos a circunscrever nossas ações dentro dos limites dos mandamentos escriturísticos.) (OLIVER, Historical Landmarks…, p. 244).

 

O famoso maçom americano, Albert Pike, aprofunda a cosmologia do símbolo, conectando-o a tradições antigas. Primeiro, ele associa o Tau ao Círculo como figura de Vida e Eternidade:

“As the simple Tau represented Life, so, when the Circle, symbol of Eternity, was added, it represented Eternal Life.” (Assim como o simples Tau representa a Vida, quando se acrescentou o Círculo, símbolo da Eternidade, passou a representar a Vida Eterna.) (PIKE, Morals and Dogma, 1871).

 

Em seguida, ao discutir diretamente o ponto dentro do círculo, Pike registra o enunciado tal como é usado no rito York:

Our Brethren of the York Rite say that ‘there is represented in every well-governed Lodge, a certain point, within a circle; the point representing an individual Brother; the Circle, the boundary line of his conduct, beyond which he is never to suffer his prejudices or passions to betray him.’” (Nossos Irmãos do Rito de York dizem que “em toda Loja bem governada, há representado um certo ponto, dentro de um círculo; o ponto representando um Irmão individual; o Círculo, a linha-limite de sua conduta, além da qual ele jamais deve permitir que seus preconceitos ou paixões o traiam”.) (PIKE, Morals and Dogma, 1871).

 

Logo depois, ele propõe uma leitura mais próxima da simbologia, ligando o ponto ao centro do Universo e à tradição egípcia:

It is said by some, with a nearer approach to interpretation, that the point within the circle represents God in the centre of the Universe. It is a common Egyptian sign for the Sun and Osiris, and is still used as the astronomical sign of the great luminary.” (Dizem alguns, com uma aproximação maior da interpretação, que o ponto dentro do círculo representa Deus no centro do Universo. É um sinal egípcio comum para o Sol e Osíris, e ainda é usado como o signo astronômico do grande luminar.) (PIKE, Morals and Dogma, 1871).

 

Por mais que não seja um autor específico, a Grande Loja Maçônica de Ohio, diz em seu site, em uma matéria que se intitula “Behind the Masonic Symbol: The Point Within A Circle” que:

“The circle represents the line between our passions, vices, prejudices, and those around us…” (O círculo representa a linha entre nossas paixões, vícios, preconceitos e aqueles ao nosso redor…) (GRAND LODGE OF OHIO, 2021).

 

Outro site que busca publicar diversos artigos maçônicos o “The Masonic Journey”, e trouxe um escrito por Gregory Preston em 2013, traz um ponto que achei interessante:

“The point within a circle is the center, the point from which every part of the circumference is equidistant; it is that point from which a Master Mason cannot err…” (O ponto dentro de um círculo é o centro, o ponto a partir do qual toda a circunferência é equidistante; é esse o ponto do qual um Mestre Maçom não pode errar…) (THE MASONIC JOURNEY, 2013).


3.1 Tracing Boards e a primeira publicação de John Cole (1801)

A importância do ponto dentro do círculo se vê também no patrimônio material das Lojas, sobretudo nos tracing boards, que condensam em imagem aquilo que as lectures explicam em palavras. Não é por acaso que, no começo do século XIX, John Cole fez uma das primeiras séries impressas de pranchas: “In 1801 John Cole published the designs for a set of tracing boards in his Illustrations of Masonry.” (Em 1801, John Cole publicou os desenhos de um conjunto de tracing boards em seu Illustrations of Masonry.) Essa fixação gráfica não surgiu do nada; ela sistematiza décadas de prática didática, em que o traçado do grau passava do chão de giz para a prancha gravada.

 

Pesquisadores lembram que já existiam ocorrências iconográficas anteriores e paralelas, o que ajuda a medir a antiguidade do motivo:

there is a pictorial representation in Cole’s ‘Illustrations of Masonry (1801),’ also one in an English pamphlet entitled ‘Solomon in all his Glory (1768),’ and others in the French book 'Le Maçon Démasqué (1757)’” (há uma representação pictórica no Illustrations of Masonry de Cole [1801], outra em um panfleto inglês intitulado Solomon in all his Glory [1768] e outras no livro francês Le Maçon Démasqué [1757]).

 

Em outras palavras, quando Cole imprime suas pranchas, ele já dialoga com um repertório que vinha sendo desenhado, copiado e ensinado no longo século XVIII.


Tábua de Delinear de Primeiro Grau, gravada por F. Curtis e impressa por John Cole, 1801
Tábua de Delinear de Primeiro Grau, gravada por F. Curtis e impressa por John Cole, 1801.

4. Comparações internacionais

No eixo americano, a linha que liga dois ícones é nítida: o tom didático de Mackey e a ambição filosófica de Pike. Em Mackey, o ponto dentro do círculo funciona como gramática do dever: o ponto identifica o Irmão; o círculo demarca a fronteira ética; e a lição prática é governar as paixões dentro de “devidos limites”. Já Pike desloca o foco: o círculo deixa de ser só perímetro moral e passa a figurar a Eternidade; o ponto, por sua vez, torna-se princípio de vida e de sentido. Em termos simples, aquilo que Mackey organiza como catecismo de conduta, Pike alarga a filosofia do símbolo.

 

Na linhagem inglesa, sobretudo após a união de 1813, prevalece um equilíbrio entre ritual e didático. O tracing board fixa a imagem quase canônica: ponto central, duas paralelas e, acima, o Volume da Lei Sagrada. As lectures de Emulation repetem a máxima de que o Irmão não erra se se mantém no ponto dentro do círculo; mas a identidade das paralelas varia conforme o contexto. No universo dos antigos e dos americanos, persistem os dois Santos João; na Inglaterra pós-1813, avança a leitura Moisés–Salomão, um gesto de tornar o símbolo mais inclusivo, que preserva a arquitetura e seu significado (centro/limite/referenciais) trocando patronos cristãos por figuras do Antigo Testamento (Veterotestamentárias). Em suma, o pensamento inglês privilegia a clareza pedagógica: o ponto dentro do círculo como geometria visível do dever, com as paralelas servindo de balizas de retidão, quaisquer que sejam os nomes que lhes atribuímos.

 

5. Síntese interpretativa

O símbolo opera em três planos: (a) cosmológico (sol, eternidade, círculo do mundo); (b) geométrico (definições euclidianas e pitagóricas); e (c) moral‑ritual (circunscrever paixões; caminhar “em torno” do centro; manter‑se dentro de “devidos limites”). A passagem de João (Antigos/York) para Moisés e Salomão (Inglaterra pós‑1813) não diminui o peso bíblico, mas o amplia para um horizonte mais inclusivo, ao mesmo tempo em que reforça a pedagogia do limite e da centralidade do Aprendiz.

 

6. Linha do tempo histórica do símbolo do ponto dentro do círculo

Período / data

Marco histórico / contexto

Relação com o símbolo do ponto dentro do círculo

c. 3000 a.C.

Stonehenge – Britânia pré-histórica

Complexo megalítico em círculo, com pedras centrais associadas a observações solares e rituais sazonais.

c. 2494–2345 a.C. (V Dinastia)

Egito Antigo – culto a Rá

Uso do sinal ʘ ligado ao deus-sol Rá e ao cúbito real, relacionando o ponto central ao poder criador do disco solar.

séc. VI–V a.C.

Escola pitagórica

Doutrina da mônada, em que o ponto gerador dentro do círculo expressa unidade, ordem e harmonia cósmica.

c. 325–265 a.C.

Geometria grega – Euclides

Definição clássica de círculo e centro nos Elementos (Book I), oferecendo o vocabulário geométrico que será apropriado mais tarde pelo simbolismo iniciático.

séc. I d.C.

Cristianismo primitivo

Vida, ministério e culto litúrgico aos dois Santos João, mais tarde associados ao eixo simbólico do ponto dentro do círculo com linhas paralelas.

séc. III–XII d.C.

Arte têxtil e religiosa tardia

Motivo decorativo “spool” e variações de ponto dentro do círculo em artefatos têxteis, possivelmente com função apotropaica (proteção contra o mau-olhado).

1717

Fundação da Maçonaria especulativa moderna

Constituição da Grande Loja de Londres e Westminster, marcada como início institucional da Maçonaria especulativa na forma hoje conhecida.

1723

Constituições de Anderson

Publicação das Constituições com o Regulamento XXII, vinculando reuniões das Lojas aos dias dos Santos João e reforçando o eixo joanino no calendário maçônico.

1757–1768

Iconografia maçônica europeia

Gravuras como Le Maçon Démasqué (1757) e Solomon in all his Glory (1768), que apresentam os primeiros esquemas impressos do ponto dentro do círculo.

1796

Preston – Illustrations of Masonry (9ª edição)

Formulação didática clássica segundo a qual toda Loja regular possui um ponto dentro de um círculo “do qual um maçom não pode errar”, consolidando a leitura moral do símbolo.

1801

John Cole – tracing boards impressos

Produção das primeiras pranchas gravadas com o conjunto ponto, círculo, linhas paralelas e Livro da Lei, definindo um padrão iconográfico para o ensino ritual.

1813–1816

União das Grandes Lojas e “Hemming Lectures

Criação da Loja de Reconciliação e adoção das Hemming Lectures, com reinterpretação das linhas paralelas, que passam a ser associadas a Moisés e Salomão em diversas jurisdições.

1819–1848

Debates internos na UGLE

Reações às alterações de Hemming e obras como A Mirror for the Johannite Masons (1848), que defendem a manutenção da leitura joanina tradicional do símbolo.

2ª metade séc. XIX

Consolidação do simbolismo anglo-americano

Autores como Mackey, Pike e Oliver sistematizam o ponto dentro do círculo como limite moral, em torno do qual o maçom deve circunscrever suas paixões, e como figura cosmológica ligada ao Sol e à Divindade.

1922

Interpretações especulativas modernas

Textos como os da revista The Builder e de Claudy e Wilmshurst aprofundam a leitura psicológica e interiorizada do símbolo, aproximando-o de conceitos de autoconsciência espiritual.

1965

Hawkins – Stonehenge Decoded

Leitura arqueoastronômica de Stonehenge que reforça a associação entre círculos de pedra, observação solar e sacralização do centro, dialogando com o simbolismo maçônico do ponto-círculo.

2013–2021

Produção maçônica contemporânea

Estudos como os de Allan (2013), The Masonic Journey (2013) e publicações da Grande Loja de Ohio (2021).

Fonte: Elaboração do autor com base em Euclides, Preston, Cole, Hemming, Pike, Mackey e demais referências utilizadas no artigo.

 

Conclusão

Este estudo demonstrou, com base em documentação textual e iconográfica, que o ponto dentro do círculo possui continuidade histórica anterior à Maçonaria especulativa e foi progressivamente recontextualizado em ambientes bíblicos/litúrgicos e rituais/pedagógicos. A revisão de fontes clássicas (Euclides; tradição pitagórica), registros bíblicos utilizados pela cultura joanina e corpus maçônico anglo-americano (monitores, lectures, pranchas) permite afirmar três resultados: I) a forma ponto dentro do círculo oferece um espaço para discutir limites morais; II) a releitura inglesa do século XIX, associada às Hemming Lectures, desloca a identificação dos paralelos dos Santos João para Moisés e Salomão com o objetivo de ampliar a aceitabilidade interconfessional sem alterar a função normativa do símbolo; III) os tracing boards, desde Cole (1801), consolidam um padrão visual que opera como suporte didático e favorece uniformização interpretativa.

 

Considero relevante mencionar que o ponto dentro do círculo também possui uma dimensão prática vinculada ao uso operativo, anterior à sua interpretação especulativa. Assim como o maço, o cinzel, a régua e os demais instrumentos do Primeiro Grau, esse emblema servia como referência geométrica básica nas artes construtivas, funcionando como marcador de centralidade, medida e limite para o traçado de formas. Sua incorporação pela Maçonaria Especulativa, portanto, não se deu apenas por seu valor simbólico antigo, mas também pela natural continuidade de elementos que, embora oriundos do trabalho manual, foram revestidos de significado moral. Essa perspectiva reforça que o símbolo mantém raízes simultaneamente operativas e especulativas, enriquecendo sua interpretação e ampliando o escopo de sua permanência no corpus maçônico.

 

Ao comparar autores e tradições, verificou-se convergência mínima sobre o núcleo funcional do emblema: Webb, Mackey e Oliver o descrevem como mecanismo de contenção ética e governo de si; Pike amplia o horizonte histórico/religioso, mas sem comprometer essa questão moral; Wilmshurst explicita a leitura Moisés/Salomão em linha com a padronização inglesa. Essa convergência não implica unanimidade simbólica, mas indica estabilidade suficiente para caracterizar o símbolo como ferramenta de ensino do primeiro grau. A principal contribuição deste artigo foi integrar três camadas analíticas, sendo histórica, geométrica e ritual, em um quadro comparado sustentado por fontes primárias digitalizadas e literatura maçônica de referência, distinguindo dados (datas, edições, iconografia) de interpretações (função pedagógica, inclusividade). Com isso, evita-se tanto a leitura meramente alegórica quanto o reducionismo historicista: o símbolo não é “apenas” cosmológico nem “apenas” moral; ele é operacional no ensino do ofício, porque associa uma forma simples a um conjunto estável de expectativas comportamentais.

 

Do ponto de vista aplicado, o ponto relevante para a prática de Loja é que a efetividade do ensino simbólico depende de explicitar a relação entre forma e conduta. O ponto como princípio de compromisso individual; a circunferência como fronteira ética; os paralelos e o Volume da Lei Sagrada como referências institucionais. Essa análise permite transformar o emblema em procedimento a ser seguido: leitura do símbolo, derivação de critérios de ação, verificação de alinhamento no trabalho ritual e profano. É nessa transição, da imagem para a prática, que reside sua grandeza duradoura: enquanto houver irmãos dispostos a recentrar intenções e circunscrever condutas, o emblema sustentará não apenas a memória da tradição, mas a exigência concreta de excelência moral e precisão no ofício.

 

Referências (URLs para verificação)

ALLAN, J. A point within a circle from which a mason cannot err. Research Lodge of Wellington, 2013. Disponível em: https://themasons.org.nz/div/pointwithincircle.pdf. Acesso em: 15 out. 2025.

ANDERSON, James. The constitutions of the free-masons. 1855 ed. Regulations XXII–XXIII (St. John’s Days). Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/33/James_Anderson._The_Constitutions_of_the_Free_Masons_%281855%29.pdf. Acesso em: 10 out. 2025.

BREED, E. T. Masonic tracing boards (sobre John Cole, 1801). Disponível em: https://masonicshop.com/masonic-library/books/Masonic%20Tracing%20Boards%20-%20E%20A%20T%20Breed.pdf. Acesso em: 16 out. 2025.

CLAUDY, Carl H. Point within a circle. The Square Magazine, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.thesquaremagazine.com/mag/article/202006point-within-a-circle/. Acesso em: 16 out. 2025.

COLE, John. Illustrations of masonry: primeiras pranchas impressas de tracing boards. Disponível em: https://www.rookebooks.com/1801-illustrations-of-masonry. Acesso em: 16 out. 2025.

EUCLID. Book I, defs. 15–16. David Joyce / Green Lion editions, [s.d.]. Disponível em: https://aleph0.clarku.edu/~djoyce/elements/bookI/defI15.html. Acesso em: 5 out. 2025. Disponível em: https://www.greenlion.com/PDFs/Eu-I-1-7.pdf. Acesso em: 5 out. 2025.

GRAND LODGE OF OHIO. Behind the masonic symbol: the point within a circle. 2021. Disponível em: https://www.freemason.com/point-within-circle/. Acesso em: 16 out. 2025.

HAWKINS, Gerald. Stonehenge decoded. London: Doubleday, 1965. Disponível em: https://archive.org/details/stonehengedecode00gera/mode/2up. Acesso em: 7 out. 2025.

HMOLPEDIA. Circle dot. [S.d.]. Disponível em: https://hmolpedia.com/page/Circle_dot. Acesso em: 1 out. 2025.

MACKEY, Albert G. The symbolism of freemasonry, ch. XV: “The point within a circle”. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/11937/11937-h/11937-h.htm. Acesso em: 15 out. 2025.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Spool (3rd–12th century), object no. 21.6.104. [S.d.]. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/447352. Acesso em: 2 out. 2025.

OLIVER, George. A mirror for the Johannite masons: in a series of letters to the Right Hon. the Earl of Aboyne. [S.l.: s.n.], 1848. Disponível em: https://archive.org/details/mirrorforjohanni00olivrich. Acesso em: 12 out. 2025.

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PHOENIX MASONRY. The collected “Prestonian lectures: para referência comparativa com lectures anteriores e mudanças. Disponível em: https://www.phoenixmasonry.org/prestonian_lectures_volume_2.htm. Acesso em: 12 out. 2025.

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WEBB, Thomas Smith. Freemason’s monitor: point within a circle. Disponível em: https://archive.org/download/webbsfreemasonsm00webb/webbsfreemasonsm00webb.pdf. Acesso em: 14 out. 2025. Disponível em: https://www.phoenixmasonry.org/webbs_monitor/remarks_on_the_first_lecture.htm. Acesso em: 14 out. 2025.

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