top of page

A SOMBRA DE SUA PRÓPRIA GRANDEZA

  • há 11 horas
  • 3 min de leitura

Por Jorge Antônio Vieira Gonçalves


A SOMBRA DE SUA PRÓPRIA GRANDEZA 

A SOMBRA DE SUA PRÓPRIA GRANDEZA

A Maçonaria é um sistema de formação moral, ilustrado por símbolos e velado por alegorias, destinado a transformar o homem para que este, por sua vez, transforme a sociedade. Durante mais de três séculos, essa escola iniciática formou estadistas, cientistas, líderes mundiais e cidadãos comprometidos com a ética pública.

 

Ao ingressar no século XXI, a Ordem enfrenta um dos maiores desafios de sua história moderna: o envelhecimento de seus membros, a queda no número de obreiros e, sobretudo, a perda da função iniciática das Lojas. Em muitas jurisdições, a Maçonaria deixou de ser uma escola viva de virtude e transformou se em uma associação administrativa marcada por reuniões protocolares, rotinas burocráticas, leitura de atas e formalidades que preservam a forma, mas já não transmitem o conteúdo simbólico e transformador que sempre definiu a experiência maçônica.

 

As novas gerações, em busca de sentido, profundidade e autenticidade, não se satisfazem com encontros vazios de vivência simbólica. Quando encontram uma Ordem burocratizada, com ritual mecanizado, leituras mal conduzidas e educação superficial, afastam se naturalmente.

 

Paradoxalmente, a sociedade moderna precisa exatamente daquilo que a Maçonaria possui em sua essência: comunidade real, ética prática, formação do caráter e transcendência simbólica. O declínio não decorre da irrelevância da missão da Ordem, mas da ausência de um método organizado que traduza seus princípios imutáveis em práticas sistemáticas, mensuráveis e fiéis à tradição.

 

O exemplo da Maçonaria norte americana é claro e incontornável. Em 1959, a Ordem possuía cerca de 4 milhões de membros. Em 2023, restavam menos de 870 mil, o que representa uma redução aproximada de 80% em pouco mais de seis décadas. Essa queda acompanha o envelhecimento institucional, a baixa renovação geracional e, sobretudo, o enfraquecimento da formação simbólica profunda.

 

O ritual tornou se formalidade, a educação perdeu sua função pedagógica e a iniciação deixou de cumprir plenamente seu papel transformador.

 

Ao mesmo tempo, o mundo moderno vive o colapso das comunidades tradicionais. Os vínculos sociais baseados na convivência no mundo real, na confiança mútua e na participação cívica enfraqueceram diante do mundo virtual, do individualismo digital, do uso excessivo das telas, da privatização da vida social e da fragmentação das relações humanas. Esse processo atingiu todas as instituições, não apenas a Maçonaria.

 

Curiosamente, a Maçonaria foi criada exatamente para formar comunidade, virtude e sentido. O fracasso contemporâneo, portanto, não é de missão, mas de método.

 

Historicamente, sempre que a Ordem atravessou períodos de declínio, sua renovação ocorreu sem ruptura doutrinária, por meio do retorno disciplinado às suas fundações. A transição da Maçonaria operativa para a especulativa converteu ferramentas físicas em instrumentos morais. Em momentos críticos, a fidelidade ao ritual, a integridade ética e a caridade sustentaram a sobrevivência da instituição.

 

No período pós guerra, a integração familiar e comunitária promoveu o maior crescimento da história moderna da Maçonaria. Em todos esses ciclos, o renascimento resultou da organização consciente das boas práticas.

 

O processo de revitalização começa individualmente no maçom, por meio de formação simbólica sólida e contínua, educação estruturada e mentoria ativa, transformando símbolos em práticas.

 

A inclusão da família é fundamental. Ela não pode ocupar papel periférico, devendo tornar se parte ativa da vida maçônica, fortalecendo o pertencimento, a permanência dos membros e a continuidade geracional.

 

Nossas Lojas devem buscar incansavelmente esses pilares fundamentais: ritual executado com excelência simbólica, educação presente em todas as reuniões, mentoria ativa e caridade comunitária. Assim, a Loja deixa de ser meramente administrativa, não sendo um clube de serviços, e retoma sua vocação de centro de formação moral.

O futuro da Ordem não depende exclusivamente do número de iniciados, mas da qualidade da formação e da permanência consciente dos irmãos. Campanhas de filiação em massa e reformas superficiais não resolvem o problema.

 

O renascimento depende da qualidade da formação iniciática, da vivência simbólica autêntica, da integração familiar e da coerência ética praticada no cotidiano.

 

A Maçonaria sobreviverá não por quantos entram, mas por quão bem forma seus membros. Ou retorna às suas origens com método, profundidade e fidelidade histórica, ou continuará seu lento esvaziamento institucional, tornando se sombra de sua própria grandeza.

 

Bibliografia 

O presente texto constitui um resumo interpretativo do estudo de:

KASI, Arbab Naseebullah. Revitalizing Freemasonry in the Twenty First Century: The Universal Masonic Revival Model (UMRM) as a Lawful, Systematic, and Measurable Framework for Renewal. Academy of Masonic Knowledge, Grand Lodge of Pennsylvania, 2025.

 

 

 

2 comentários


Membro desconhecido
há 10 horas

Sensacional, preciso, oportuno e cirurgico!!! TFA

Curtir

Membro desconhecido
há 10 horas

Bom dia valoroso Ir.'. José Antônio Vieira Gonçalves. Quero parabenizar pelo belíssimo trabalho publicado e, na oportunidade, em agradecer pelos ensinamentos aqui retratados que substanciam de forma clara e objetiva os aspectos principiológicos maçônicos que tanto clamam pela sua efetividade na jornada do Obreiro. E, tudo isto não é somente necessário, mas também é de extraordinária importância na formação moral do maçom e na construção social...Que a centelha Divina de cada Obreiro possa ser exponencial tanto na família profana quanto maçônica...


Éder Clementino dos Santos CIM 319630; IME 101.101, ARL DEUS E CARIDADE III, N° 0580, Oriente de Ouro Fino/MG...

Curtir
bottom of page