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O IRMÃO QUE AINDA NÃO ENCONTREI

há 10 horas
9 min de leitura

Por Paulo Cesar T. Ribeiro


O IRMÃO QUE AINDA NÃO ENCONTREI

Fraternidade, presença e a corrente invisível que sustenta quem nunca se viu

 

Uma palavra antes de começar: Este é um texto longo, e seria mais fácil prometer-lhe pressa. Mas há reflexões que não cabem num relance, porque tratam daquilo que também não se constrói depressa — e a fraternidade é uma delas. Peço-lhe, por isso, não o tempo de uma leitura rápida, mas o de uma conversa sem relógio. O que proponho aqui não é informação a ser consumida e esquecida; é um convite a olhar de outro modo para o Irmão que você conhece, para aquele que talvez nunca conheça e, no fim, para si mesmo. Se o texto se demora, é porque quer chegar fundo, e o fundo pede vagar. Leia-o como quem se senta diante de alguém que tem algo a dizer e todo o tempo para dizê-lo. Ao final, se uma só frase permanecer com você depois que o avental for guardado, terá valido cada minuto.


O IRMÃO QUE AINDA NÃO ENCONTREI
Do autor

Há uma experiência silenciosa que raramente nos detemos para examinar, embora ela esteja no coração mesmo da vida maçônica. Neste instante, enquanto escrevo, existem homens que nunca vi, cujos nomes ignoro, cujos rostos jamais reconhecerei numa rua, e que, no entanto, já me chamam de Irmão. E eu a eles. Antes de qualquer conversa, antes de qualquer afinidade, antes mesmo de sabermos se simpatizaríamos um com o outro, um vínculo foi anunciado. É um fato curioso, quase desconcertante quando olhado de frente: a fraternidade maçônica começa oferecendo pertencimento a desconhecidos.

 

Poderíamos tratar isso como mera formalidade, uma convenção gentil entre membros de uma mesma instituição. Mas há algo mais profundo escondido nessa saudação dirigida a quem nunca encontramos. Chamar de Irmão um homem que não conheço é fazer-lhe, antecipadamente, uma promessa. É dizer, sem palavras, que sua existência me diz respeito, que se um dia ele cruzar meu caminho não precisará provar nada para ser recebido, e que, enquanto isso não acontece, ele já conta, de algum modo, com a minha boa vontade. Poucos laços humanos ousam tanto. A maioria dos nossos afetos é construída devagar, a partir do que o outro nos mostra e do que vamos reconhecendo nele. Aqui, o movimento se inverte: o reconhecimento vem primeiro, e o conhecimento, se vier, virá depois.

 

Vale perguntar o que torna isso possível. Não é o sentimento, porque não se sente afeto por quem não se conhece. Não é o interesse, porque nada se espera, concretamente, de um Irmão que vive a milhares de quilômetros e que talvez nunca se materialize diante de nós. O que sustenta esse elo é de outra ordem. É a travessia de uma mesma porta simbólica, a entrega aos mesmos símbolos, a disposição comum diante de um mesmo trabalho interior. Quem passou pela iniciação sabe que ela não acrescenta apenas um conjunto de conhecimentos; ela reorganiza a maneira de habitar a própria vida. E quando dois homens foram remodelados pela mesma experiência, ainda que separadamente, carregam dentro de si uma gramática comum que os torna capazes de se reconhecer sem apresentação. É disso que trata, no fundo, o caminho que explorei em Da Iniciação à Individuação: um processo em que o homem deixa de ser apenas o que as circunstâncias fizeram dele e começa a responder por quem escolhe ser.

 

Carl Jung oferece uma chave preciosa para entender esse reconhecimento à distância. Abaixo da nossa história pessoal, dizia ele, repousa uma camada mais antiga e compartilhada da psique, povoada por imagens que não inventamos, mas que herdamos de toda a humanidade. Entre essas imagens está a do Irmão, a do companheiro de jornada, a do outro que é, ao mesmo tempo, semelhante e distinto de mim. Quando a tradição maçônica nomeia Irmão um desconhecido, ela não está criando um laço do nada; está tocando um arquétipo que já dormia dentro de nós, esperando ser despertado. Por isso a palavra ressoa tão fundo. Ela não descreve apenas uma relação institucional; ela aciona algo primordial, a memória de que nunca fomos feitos para a solidão.

 

A Cadeia de União, aquele gesto em que as mãos se entrelaçam ao fim dos trabalhos, é a tradução sensível dessa verdade. Mas há nela uma dimensão que às vezes nos escapa. O círculo que formamos no Templo não se fecha apenas sobre os presentes. Ele se abre, simbolicamente, para os Irmãos de outras Lojas, de outras cidades, de outras nações, e também para aqueles que já partiram e para os que ainda nem foram iniciados. A mão que ofereço ao meu lado é também, de certo modo, a mão que estendo a quem não está ali e talvez nunca esteja. A corrente não exige que eu conheça cada elo para me sustentar. Basta que cada um, em seu lugar, não solte o seu. É essa a imagem silenciosa que proponho que você leve consigo: a de que você já é, agora, um elo que segura um homem invisível e, ao mesmo tempo, é segurado por mãos que jamais verá.

 

Aqui, porém, a honestidade psicológica nos obriga a uma pausa. É fácil, perigosamente fácil, amar a humanidade em abstrato e não suportar o Irmão sentado na cadeira ao lado. O amor ao desconhecido não custa quase nada, porque o desconhecido não nos contraria, não disputa espaço conosco, não toca nossas feridas. Ele permanece ideal justamente porque permanece distante. Jung chamava de sombra tudo aquilo que recusamos reconhecer em nós e que, não suportado dentro, acabamos depositando no outro. Quando um Irmão concreto nos irrita, muitas vezes é a nossa própria sombra que nos olha de volta pelos olhos dele. Por isso, uma fraternidade que só sabe celebrar o Irmão distante e ideal, mas fracassa diante do Irmão próximo e real, ainda não amadureceu. Ela ama a ideia da fraternidade; falta-lhe amar o homem que a encarna com todas as suas arestas.

 

E aqui está, talvez, o paradigma que vale a pena fortalecer. O Irmão invisível e o Irmão da cadeira ao lado não são dois temas separados; eles se educam mutuamente. Quando aprendo a honrar aquele que não conheço, exercito uma generosidade que não depende de mérito nem de retorno, e essa generosidade, uma vez despertada, amacia o modo como trato quem está perto. Na direção inversa, quando consigo permanecer leal ao Irmão próximo mesmo quando ele me frustra, torno verdadeira, e não apenas bonita, a promessa que faço ao Irmão distante. Um sustenta o outro. A fraternidade com o desconhecido não é fuga da convivência difícil; é o seu horizonte mais largo, aquilo que dá sentido ao esforço cotidiano de suportar e ser suportado.

 

A psicologia de Winnicott acrescenta a essa reflexão uma palavra que me parece indispensável: continente. Ele observou que o ser humano só floresce quando encontra um ambiente capaz de sustentá-lo, um colo, no sentido amplo, que o segura sem sufocá-lo e que permanece confiável mesmo quando ele vacila. Uma Loja viva é exatamente isso, um ambiente suficientemente bom, no qual um homem pode baixar a guarda sem medo de desabar. E há algo comovente nessa ideia quando a estendemos à fraternidade universal. Winnicott dizia que a maturidade inclui a capacidade de estar só na presença do outro. O maçom conhece uma versão rara dessa experiência: a capacidade de se sentir acompanhado mesmo na ausência. Saber que, em algum lugar, há Irmãos sustentando a mesma causa produz uma companhia que não precisa estar fisicamente presente para ser real. Em um tempo marcado por tantas formas de desamparo silencioso, esse pertencimento que atravessa a distância talvez seja um dos bens mais preciosos que a Ordem tem a oferecer.

 

A tradição contemplativa do Oriente ilumina esse mesmo ponto por outro ângulo. Na psicologia budista existe uma prática antiga, a do cultivo da benevolência, em que se deseja o bem, em círculos cada vez mais amplos, àqueles que amamos, àqueles que mal conhecemos e, por fim, a todos os seres. O que essa prática ensina é que a compaixão não precisa esperar pela intimidade para existir. Ela não é uma recompensa que o outro conquista ao se tornar meu amigo; é uma disposição que eu cultivo dentro de mim e que me transforma antes mesmo de alcançar quem quer que seja. Desejar sinceramente que um Irmão desconhecido esteja bem, que atravesse suas noites difíceis, que encontre quem o ampare, é um exercício que alarga o coração de quem deseja. A fraternidade, sob essa luz, deixa de ser apenas uma rede de favores recíprocos e se torna um modo de ser, uma maneira de habitar o mundo com o coração menos fechado.

 

Há uma leitura ética que não podemos deixar de fazer. Cuidar de quem conhecemos tem sempre algo de natural, quase instintivo. Cuidar de quem jamais veremos é outra coisa. É ali que a fraternidade revela se é genuína ou apenas conveniente. O compromisso com o Irmão invisível é, em última análise, um compromisso com um princípio, não com uma pessoa específica, e é essa generalidade que o torna nobre. Mas essa mesma generosidade carrega uma exigência: ela não pode terminar na fronteira do grupo. Se o cuidado que aprendo a ter pelo Irmão desconhecido não transborda para o estranho que sofre na rua, para o colega de trabalho, para aquele de quem discordo profundamente, então a iniciação ainda não cumpriu sua tarefa mais difícil. O Templo interior, afinal, só se prova no mundo que ajudamos a construir fora dele.

 

É nesse ponto que a reflexão ganha um contorno quase futuro. Vivemos uma época em que as pessoas estão, ao mesmo tempo, mais conectadas e mais sozinhas do que em qualquer outro momento da história. Multiplicam-se as telas e escasseiam os vínculos que sustentam de verdade. Há uma solidão que não aparece nas estatísticas, aquela que se instala mesmo no meio de muitos, inclusive, às vezes, dentro das próprias Lojas, quando a presença física deixa de vir acompanhada de presença humana. Foi sobre esse adoecimento sutil que me debrucei em O Cansaço Silencioso da Loja Maçônica, ao refletir sobre o afastamento de tantos Irmãos que se vão sem que ninguém perceba exatamente quando o elo se rompeu. Diante desse cenário, a fraternidade que une quem nunca se viu não é um resquício romântico do passado; é uma resposta surpreendentemente atual. Ela aponta para um futuro em que o cuidado possa ser uma rede invisível, estendida muito além do alcance do olhar, feita de homens que decidiram não soltar a corrente.

 

Imagine, por um momento, o que significa levar isso a sério. Significa compreender que a sua constância, a sua decisão de comparecer, de honrar os trabalhos, de permanecer fiel ao que prometeu, não se encerra em você. Ela se soma a um campo maior, uma espécie de atmosfera moral que sustenta Irmãos que você nunca encontrará. Quando você permanece íntegro na sua Loja, há, em algum lugar, um homem que você jamais conhecerá sendo um pouco sustentado por isso, ainda que nenhum dos dois saiba nomear essa conexão. Os antigos chamavam essa força de egrégora. Podemos, hoje, entendê-la também em termos psicológicos: um campo compartilhado de intenção e cuidado, que se fortalece a cada gesto verdadeiro e se enfraquece a cada vez que alguém trata a fraternidade como palavra vazia. Você contribui para esse campo ou o empobrece, mesmo quando pensa que ninguém está vendo.

 

Os símbolos que carregamos guardam essa sabedoria há muito tempo, à espera de que a vivamos, e foi a essa linguagem silenciosa da alma que dediquei Símbolos da Alma. A acácia nos lembra de uma continuidade que não se interrompe com a ausência nem com a morte, de uma transmissão que liga Irmãos que nunca se cruzaram no tempo. A pedra que cada um lapida em si mesmo, longe dos olhos dos outros, torna-se parte de um edifício comum que nenhum de nós verá concluído, mas para o qual todos trabalhamos. E a Cadeia de União, mais uma vez, nos diz tudo: uma corrente só existe porque cada elo confia que os demais também estão firmes, mesmo os que não enxerga. A força do conjunto nunca dependeu de que cada um conhecesse todos. Dependeu, sempre, de que cada um fizesse bem a sua parte, confiando no invisível.

 

Talvez seja esta a maneira mais honesta de encerrar, devolvendo a você, leitor, a pergunta que me acompanha. Em algum lugar, esta noite, pode haver um Irmão que você nunca encontrará atravessando uma dificuldade, e é possível que ele se mantenha de pé, em parte, porque homens como você decidiram manter a corrente inteira. E, do mesmo modo, quando chegar a sua vez de vacilar, você estará sendo sustentado por mãos que jamais verá. A fraternidade que nos une para além de qualquer apresentação não é feita de milagres, mas de uma decisão repetida e simples: a de não soltar. Fortalecer o Irmão que ainda não encontrei começa, portanto, muito perto, no modo como trato o Irmão ao meu lado e no cuidado com que guardo, dentro de mim, a fidelidade ao que prometi. O avental é guardado ao fim da sessão. O elo, não. Ele segue comigo, invisível e firme, segurando e sendo segurado, onde quer que haja um homem disposto a chamar o outro de Irmão e a fazer dessa palavra uma presença.

 

Referências do autor

RIBEIRO, Paulo Cesar T. Símbolos da Alma. São Paulo: Biblioteca da Psique; Maçonaria com Excelência.

RIBEIRO, Paulo Cesar T. O Cansaço Silencioso da Loja Maçônica. São Paulo: Biblioteca da Psique, Maçonaria com Excelência.

 

Ir.'. Paulo Cesar T. Ribeiro

Celular / Whatsapp: 11 98199-5612

Psicólogo clínico, palestrante, autor e organizador da Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.comMestre Maçom Gr.'. 33, Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital. Membro a A.'.R.'.B.'.L.'.S.'. Quintino Bocaiuva nº 10, G.'.L.'.E.'.S.'.P.'..

Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos IIr.'. reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.

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