PORQUE BATI ÀQUELA PORTA DO TEMPLO MAÇÔNICO
Por Paulo Cesar T. Ribeiro
PORQUE BATI ÀQUELA PORTA DO TEMPLO MAÇÔNICO
As razões que me levaram à Maçonaria, revisitadas vinte anos depois

Há decisões que tomamos sem compreender inteiramente, e que só nos entregam o seu sentido muito depois, quando a vida já nos deu tempo de olhar para trás e reconhecer, no gesto antigo, uma sabedoria que então não sabíamos possuir. Bater à porta de uma Loja Maçônica foi, para mim, uma dessas decisões. Vinte anos se passaram desde aquela noite, e confesso, com a franqueza que a maturidade finalmente autoriza, que os motivos que me conduziram até ali não eram, naquele momento, tão nítidos quanto hoje me parecem. Alguns eu sabia nomear. Outros, só a travessia revelou. Quero, nestas páginas, revisitá-los — não como quem exibe um itinerário concluído, mas como quem reabre um mapa antigo e descobre, surpreso, que a estrada ainda continua.
Eu já era, quando ingressei, um homem de meia-idade e um psicólogo de longa estrada. Havia passado décadas numa cadeira, em silêncio, escutando a vida alheia se desenrolar diante de mim — as perdas, os medos, as esperanças teimosas que resistem mesmo quando tudo parece conspirar contra elas. Conhecia, por ofício, os labirintos interiores do ser humano. E, no entanto, havia em mim uma inquietação que o consultório não bastava para acolher: a de que o homem que ajuda os outros a olhar para dentro também precisa, ele próprio, de um lugar onde continuar a sua travessia. Não bastava compreender a alma dos que me procuravam. Eu queria pertencer a algo que trabalhasse a minha.
O que eu dizia que buscava — e o que buscava de verdade
Quando alguém me perguntava, naqueles primeiros tempos, por que eu havia entrado, eu respondia com as razões respeitáveis, as que cabem numa conversa de pé: o estudo filosófico, a convivência fraterna, o trabalho pelo bem comum. Tudo verdade. Mas aprendi, na clínica, a desconfiar das primeiras razões que damos — não porque sejam falsas, mas porque costumam ser a parte visível de um desejo mais fundo, que ainda não encontrou palavras. Hoje reconheço que havia, por baixo daquelas respostas de ocasião, algo que eu só mais tarde seria capaz de nomear: a necessidade de um método para me tornar quem eu ainda não era.
A psicoterapia me ensinara que o autoconhecimento é um empreendimento interminável e, ainda assim, impossível de se fazer sozinho. É um dos mais sutis autoenganos humanos imaginar que podemos nos conhecer isolados do mundo, num solitário exercício de introspecção. Conhecemo-nos no espelho dos outros, no atrito das relações, na forma como reagimos àquilo que não escolhemos. Eu sabia disso como teoria. A Maçonaria me oferecia vivê-lo como prática — e, mais do que isso, me oferecia um símbolo para orientar a jornada.
A pedra bruta, ou a psicoterapia vista de dentro
A primeira coisa que o iniciante descobre é que ele próprio é uma pedra bruta. Não um erro a ser corrigido, mas uma potencialidade ainda não lapidada, uma forma que já existe por dentro e que o trabalho paciente de uma vida inteira vai aos poucos revelando. Lembro-me do impacto que essa alegoria teve sobre mim, justamente por eu ser psicólogo. Durante anos eu havia descrito aos meus pacientes, com os conceitos de Jung, aquilo que a Maçonaria dizia em pedra e ferro: a individuação, esse processo pelo qual o homem se torna quem verdadeiramente é, integrando luz e sombra, o que mostra e o que esconde, o que sustenta e o que sente.
A pedra bruta é a individuação feita imagem. O cinzel e o malho são as ferramentas da elaboração psíquica. E desbastar as próprias arestas nunca foi outra coisa senão isto: trazer ordem ao caos interior, alinhar a conduta a uma harmonia que nos ultrapassa. Eu entrei, portanto, em parte, para submeter-me ao que eu pedia aos outros. Há uma honestidade terapêutica em fazer isso — em sentar-se, também, do outro lado; em aceitar ser, eu mesmo, pedra a ser trabalhada, e não apenas quem observa a pedra alheia. Vinte anos depois, posso dizer que foi uma das razões mais verdadeiras, e das que mais se aprofundaram com o tempo.
Um lugar para o símbolo, num mundo que o perdeu
Como clínico, eu observava — e observo ainda hoje, com crescente preocupação — um empobrecimento silencioso da vida simbólica do homem contemporâneo. Vivemos uma cultura do excesso de explicação, da pressa, da eficiência, da desconfiança diante de tudo o que é silêncio, ambiguidade ou mistério. Ensinamo-nos a compreender, controlar e medir; e, no mesmo movimento, desaprendemos a sentir, simbolizar e elaborar. Boa parte do sofrimento psíquico que encontro nasce precisamente daí: de uma alma que perdeu as suas referências, como um céu que ficou sem estrelas, e já não sabe para onde olhar.
A Maçonaria me atraiu, confesso, como atrai o homem sedento a um poço antigo. Ela guardava, intacto, aquilo que o mundo lá fora dilapidava: ritos, mitos, símbolos, a experiência da liminaridade, o valor do silêncio. Oferecia o que Winnicott chamaria de espaço potencial — um território intermediário entre o mundo interno e o externo, onde o sujeito pode, protegido, experimentar sentidos e reconstruir-se. Eu não procurava segredos ocultos; descobri, aliás, bem cedo, que os verdadeiros segredos não são palavras nem sinais, hoje banalizados pela internet, mas a experiência subjetiva do rito, aquilo que nenhuma frase traduz. Procurava, isto sim, reaprender a linguagem que a modernidade me ensinara a esquecer: a linguagem pela qual a alma fala consigo mesma.
A fraternidade como antídoto — e como trabalho
Há uma razão que eu não teria coragem de confessar aos vinte, nem talvez aos trinta, mas que a maturidade torna possível admitir: eu procurava fraternidade. Não a camaradagem fácil, nem a rede de contatos — isso o mundo oferece de sobra, e quase sempre vazio. Procurava o vínculo horizontal entre homens que, vindos de origens, profissões e crenças distintas, se tratassem como iguais e se deixassem conhecer de verdade. Vivemos, hoje mais do que nunca, uma epidemia silenciosa de solidão, e ela recai de modo particular sobre os homens, que envelhecem muitas vezes sem amizades profundas, adestrados desde cedo a confundir autossuficiência com força. A Loja me oferecia o contrário desse adestramento: um lugar onde baixar a guarda não era fraqueza, e onde a presença do outro não exigia disfarce.
Mas há aqui uma descoberta que só o tempo me deu, e que registro como uma das lições mais importantes destes vinte anos: a fraternidade não é um estado que se herda ao cruzar a soleira. É uma obra de manutenção permanente. Ela não se rompe por grandes traições; desgasta-se no atrito miúdo dos dias — uma palavra atravessada que não se reparou, um reconhecimento que se deixou de dar, uma escuta que virou pressa. A união não morre de grandes golpes. Morre de pequenos abandonos. Entrei imaginando que encontraria uma fraternidade pronta; aprendi que ela é um jardim que se rega, e que interromper a rega por tempo suficiente é vê-lo secar sem que ninguém perceba o momento exato. Essa, talvez, tenha sido a razão que mais se transformou: vim buscar abrigo e descobri que precisava ser, também, jardineiro.
O descentramento do ego, ou o antídoto ao narcisismo
Confesso uma razão ainda mais íntima, e que toca diretamente o psicólogo que sou. Vivemos um tempo que exalta o ego, que ensina cada homem a interpretar o mundo inteiro a partir de si — de suas feridas, de seus desejos, de sua necessidade de reconhecimento. É a organização narcísica da experiência, na qual tudo gira em torno do próprio umbigo. E eu, que observo clinicamente o adoecimento que essa lógica produz, sentia a necessidade de um lugar que me descentrasse — que me lembrasse, sem me humilhar, que eu não sou o centro do universo.
Encontrei esse lugar sob o teto estrelado do Templo. A Abóbada Celeste faz, em silêncio, algo que nenhum discurso faria: coloca o homem diante da imensidão e devolve as coisas à sua real dimensão. Diante do vasto, o eu encolhe — e, no entanto, não nos sentimos diminuídos, mas estranhamente mais leves, mais ligados ao que nos cerca. É o que a psicologia hoje chama de awe, o assombro reverente, e que Jung chamava de numinoso. A Maçonaria me ofereceu a experiência rara de reverenciar sem submeter-me, de reconhecer-me pequeno diante do infinito e descobrir, nesse reconhecimento, não a aniquilação que o narcisista teme, mas o começo de uma dignidade maior. Entrei, em parte, para escapar da prisão do próprio umbigo. E o paradoxo é que, ao olhar para cima, para fora, fui obrigado a encarar a imensidão que trazia dentro de mim.
A esperança que não é ingênua
Entrei, também, movido por esperança — e esta é uma palavra que preciso manejar com cuidado, porque gastaram-na. Não falo da esperança fácil, aquela que cruza os braços e espera que a realidade se conserte sozinha. Falo da esperança crítica, como a chamava Paulo Freire: a que não basta por si, mas sem a qual a luta fraqueja. Eu havia visto, no consultório e na rua, o suficiente do sofrimento humano para não me permitir o otimismo ingênuo. E, no entanto, recusava-me ao cinismo, essa forma elegante de desistência que tantas vezes se disfarça de lucidez.
A Maçonaria traz, em sua divisa mais antiga, uma promessa que eu precisava escutar: Ordo ab chao — a ordem que emerge do caos. Não a ordem imposta de fora, mas a que nasce de dentro, pelo trabalho paciente sobre a matéria bruta da vida. Essa é a esperança que me manteve: a de que o caos não é a última palavra; a de que há, no próprio homem e no próprio mundo, uma tendência à construção, à ligação, ao sentido, que podemos escolher servir. Vinte anos depois, continuo achando que foi uma boa razão para entrar — e uma razão ainda melhor para permanecer.
A reverência ao que é mais antigo do que nós

Houve, por fim, um motivo que eu mal sabia formular na época, e que hoje reconheço como profundamente psicológico. Eu desejava pertencer a algo mais antigo e mais longo do que a minha própria vida. Viktor Frankl observava que o homem adoece quando perde a percepção de que participa de algo que o transcende. Viver não é apenas satisfazer desejos individuais; é tomar parte numa construção que começou antes de nós e continuará depois de nossa passagem. A Maçonaria me ofereceu exatamente essa inscrição numa corrente — a sensação, rara e curativa, de ser um elo consciente entre os que vieram antes e os que virão.
E com isso veio uma descoberta que o tempo, implacável e generoso, só agora me entrega em toda a sua força. Quando ingressei, eu olhava para os irmãos mais velhos com a reverência de quem admira de longe. Hoje caminho, eu mesmo, em direção àquela estação da vida, e compreendo o quanto de sabedoria, equilíbrio e memória esses homens carregam — e com que facilidade uma instituição, mesmo a que se proclama Templo da Igualdade, pode renegar suas próprias pedras angulares. Memento mori: há, no modo como tratamos os mais velhos, uma recusa mal resolvida da própria finitude. Entrei buscando mestres; descubro-me, agora, querendo ser digno de um dia ser, para alguém, a presença que esses mestres foram para mim. A transmissão de valores de geração a geração talvez seja a mais silenciosa das razões que me trouxeram — e a que mais me obriga, hoje, a permanecer ativo e disponível.
Vinte anos depois
Olho para trás e vejo que as razões que me trouxeram não eram exatamente as que me mantiveram. Vim buscar conhecimento e encontrei um método de me conhecer. Vim pela filosofia e fiquei pelo símbolo. Vim procurar fraternidade e aprendi que ela é trabalho, não troféu. Vim fugir do ego e aprendi a erguer os olhos. Vim por esperança e descobri que a esperança, para ser honesta, precisa somar-se à vontade e à ação. Vim admirar os mestres e caminho, agora, para ocupar o lugar deles.
Se há algo que eu diria a quem hesita diante daquela porta, não seria uma promessa, porque a Maçonaria não promete, não impõe e não força — apenas oferece. Diria apenas isto: o rito não falha; o que varia é a nossa disponibilidade de sermos atravessados por ele. A porta se abre para todos, mas atravessá-la de verdade é tarefa de cada um, refeita a cada vez que se cruza a soleira do Templo. Bati àquela porta sem compreender inteiramente por quê. Vinte anos depois, agradeço ao homem que fui por ter tido a coragem de bater sem ter todas as respostas. Porque algumas portas a gente só entende depois de atravessá-las — e algumas travessias, as mais importantes, não terminam nunca.
Ir.'. Paulo Cesar T. Ribeiro
Celular / Whatsapp: 11 98199-5612
Psicólogo clínico, palestrante, autor e organizador da Biblioteca da Psique – www.bibliotecadapsique.com
Mestre Maçom Gr.'. 33, Ex Venerável Mestre e Ex Delegado Distrital. Membro a A.'.R.'.B.'.L.'.S.'. Quintino Bocaiuva nº 10, G.'.L.'.E.'.S.'.P.'..
Dedica-se há décadas ao estudo das interfaces entre a Psicologia, a Filosofia e o Simbolismo Maçônico. Como parte de seu trabalho de difusão dessas ideias, oferece palestras gratuitas em Lojas Maçônicas, levando aos IIr.'. reflexões que aproximam a vivência iniciática do autoconhecimento psicológico.





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