ROSAE CRUCIS
- há 47 minutos
- 4 min de leitura
Por Lucas do Couto Santana[1]
ROSAE CRUCIS

Quando o poente dobra o flâmeo altar,
e a tarde verte um vinho de agonia,
parece o céu, no extremo do fulgor,
beijar a cruz no fim do último dia.
Desce ao Capítulo o augusto tremor
de um mal antigo e de uma paz futura.
Não é só luto, pranto, sangue e dor.
É o Verbo abrindo a noite à formosura.
Não geme só a pedra; o mundo inteiro
retém no peito a dor da antiga cruz;
e o homem, entre a sombra e o nevoeiro,
procura em treva viva a eterna Luz.
Ali, no santo horror da quinta-feira santa,
a memória acende o que não cessa,
a Dor não é somente a derradeira
é a mão de Deus lavrando a alma excelsa.
Calam-se as mãos, inclina-se a razão,
e cada irmão, em grave recolhida,
escuta, além do som e da visão,
o passo de outra morte, outra vida.
A Rosa, aberta em lenho redentor,
não se derrama em débil ornamento.
Arde no escuro como um puro amor
que fez do sacrifício um sacramento.
E o Pelicano, régio em sua dor,
rasgando o peito em íntima oferenda,
ensina ao homem a ciência do amor
que perde tudo e tudo ainda emenda.
Sete luzes se erguem no sagrado,
sete astros sobre a noite penitente.
Cada qual traz um nome iluminado
e inscreve um sol no íntimo do crente.
Fé que não se rende,
O amor que ampara e redime.
A paz que ao coração se estende,
A lei que o orgulho sempre reprime.
É a Esperança, estrela sobre o abismo.
É a Lei, severa e compassiva.
No fim, derrota do próprio cisma,
Unge de eternidade a carne viva.
Per crucem ad rosam. Soa no invisível.
Pela ferida ascende a claridade.
Quem morre em si, renasce para o Rei,
e aprende a luz na escura cavidade.
Hoje, a rosa passa pela cruz.
Hoje, é noite, carvão, cinza e exílio.
Hoje, a esperança germina nas Trevas.
Ali não chora apenas o divino.
Ali padece o homem em sua queda.
Ali se vê, na flor crucificada,
a alma que tombou, mas não se entrega.
Cada espinho se torna um pensamento.
Cada folha, remorso não vencido.
Cada pétala escura, uma lembrança
do coração humano dividido.
In manus tuas vai o sopro humano,
e, no abandono, o universo se ilumina.
Cai a coroa do poder profano,
mas nasce a glória que jamais declina.
Então ressoa, grave, sobre o ar,
a suma voz do drama redimido,
como se o cosmos fosse ajoelhar
ao ver o Amor morrer e ser cumprido.
Consumatum Est.
A noite treme em íntima escuta.
O Templo inteiro curva-se ao mistério.
A dor que parecia austera e bruta
revela um reino mais alto e mais sério.
A noite, em reverência, desfalece.
A cruz floresce em rosa purpurina.
A morte, que aos cegos prevalece,
ante a Luz do Cordeiro se inclina.
Ó noite sacra, ó sexta já pressentida,
ó quinta santa, amarga e soberana,
tu mostras que a mais alta e dura vida
nasce da chaga que o amor engalana.
Não é derrota o madeiro erguido.
Não é silêncio o túmulo cerrado.
O que parece ao mundo consumido
é no Eterno princípio revelado.
Ó Cavaleiro Rosa-Cruz, recorda.
Não foste ungido para o vão triunfo.
Tua vitória é esta estrada absorta
em que o silêncio vale mais que o triunfo.
Leva no peito a rosa e o sofrimento,
o amor que dá, a fé que não se dobra.
Sê no mundo o discreto sacramento
de uma verdade que no sangue sobra.
Sê manso e firme. Sê coluna e brisa.
Sê chama oculta em templo e tempestade.
Faze da dor uma celeste divisa,
e da renúncia uma real dignidade.
Pois Endoenças, no mistério seu,
não é memória apenas repetida.
É quando a alma toca o que é de Deus
e aprende a cruz como ciência da vida.
Pax et Amor.
Eis o segredo da Vida.
A cruz não mata a rosa verdadeira.
A cruz a purifica e a glorifica.
Ó Cavaleiro Rosa Cruz, contempla.
E aprende da flor o augusto ensinamento.
A rosa negra mora em toda alma
que ainda atravessa a paixão do sofrimento.
Mas se for fiel à Luz no escuro,
se não fugir da prova nem da dor,
verá nascer de sua antiga cinza
a rosa branca da paz e do amor.
Ó Rosa Nigra, flor do sacrifício,
quem te vê presa à cruz e ao desalento
mal sabe que em teu luto dormitava
o branco sol de um novo nascimento.
Pétala a pétala o luto se dissolve.
Espinho a espinho a dor se transfigura.
A rosa negra, exausta de martírio,
vai-se vestindo de celeste alvura.
Já não parece flor de sexta amarga,
nem flor de túmulo, saudade e pranto.
É rosa branca, rosa reconciliada,
lavada em paz, transfigurada em canto.
Branca de amor que não conhece orgulho.
Branca de paz que não conhece guerra.
Branca de luz que desce do alto Céu
para ensinar mansidão à dura terra.
Agora a cruz não é suplício apenas.
É eixo santo da transformação.
Pois sobre o lenho a rosa teve a noite,
mas fez da noite a sua redenção
Ó Cavaleiro Rosa Cruz, contempla.
Teu próprio ser está nesta visão.
Também em ti existe a rosa escura
que pede ao Alto nova conversão.
Também em ti há sombra e antiga queda,
há pranto oculto, há cinza e provação.
Mas se abraçares com firmeza a cruz,
a paz descerá viva ao teu coração.
Não fujas da vigília nem da prova.
Não temas o silêncio do Senhor.
A rosa negra só alcança o branco
quando atravessa inteira a via do Amor.
E então levará no peito, em vez de treva,
uma alva flor de silenciosa chama.
Não mais a rosa escrava do martírio,
mas a rosa que o Eterno unge e reclama.
Nota de rodapé
[1] Venerável Mestre da ARLS Lux In Tenebris n. 47 – GLOMARON, Membro da Academia Maçônica de Letras do Estado de Rondônia – AMLRO e da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras – AMVBL.



Comentários