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CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FONTES FILOSÓFICAS NA MAÇONARIA

  • 25 de mai.
  • 9 min de leitura

 

Por Cídio Lopes de Almeida[1]

 

IDEIAS PRELIMINARES A PARTIR DO GRAU DE APRENDIZ MAÇOM DO REAA [2]


CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FONTES FILOSÓFICAS NA MAÇONARIA
Imagem ilustrativa gerada por IA

RESUMO

O presente trabalho/exposição investiga os aspectos filosóficos e éticos estruturantes do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) no grau de Aprendiz Maçom. Partindo de uma definição acadêmica e rigorosa de filosofia e ética, o artigo visa afastar a compreensão banalizada do termo "filosofia", contrapondo-a ao arcabouço textual da Iniciação e das sete instruções do ritual maçônico[3]. Através de um levantamento exegético das fontes, demonstra-se que a Maçonaria exige de seus iniciados uma autêntica "atitude filosófica" focada na superação do senso comum e na aquisição do hábito da virtude por meio do livre-arbítrio e da razão. A discussão avança no sentido de comprovar que o REAA performatiza uma ontologia e uma ética prática perfeitamente alinhadas com as concepções clássicas de Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant e Spinoza.

 

INTRODUÇÃO

Na contemporaneidade, há um uso generalizado e vulgarizado do termo "filosofia", frequentemente aplicado a multifacetadas formas de ideias, meras opiniões de senso comum ou estratégias corporativas. É diante deste esvaziamento semântico que emerge a questão central deste estudo: o que é propriamente a filosofia e de que maneira ela se encontra consubstanciada no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) no grau de Aprendiz?

 

Para responder a esta indagação, formulamos a seguinte hipótese, O REAA, no seu grau de Aprendiz, não emprega o termo filosofia de forma alegórica ou vulgar. Pelo contrário, o ritual de iniciação e as sete instruções operam como uma rigorosa propedêutica que exige do indivíduo uma ruptura epistêmica com as trevas do senso comum e a assunção de um compromisso ético-racional. O rito maçônico configura-se como um sistema de filosofia prática que demanda o uso autônomo da razão (Esclarecimento), o exercício do livre-arbítrio e a transformação do caráter através do hábito da virtude.

 

O texto a seguir divide-se em três partes fundamentais: 1) O que é Filosofia e Ética à luz de referenciais acadêmicos; 2) O destacamento de referências textuais do REAA que denotam essa atitude; e 3) Uma discussão profunda que demonstra como o texto ritualístico pode ser considerado uma autêntica práxis filosófica.

 

1 O QUE É FILOSOFIA E O QUE É ÉTICA

A definição profissional e rigorosa de Filosofia exige, primeiramente, o seu distanciamento de crenças pré-estabelecidas e aceitações tácitas. Segundo a pensadora Marilena Chauí, a filosofia consolida-se em uma atitude com duas dimensões. Inicialmente, "A primeira característica da atitude filosófica é negativa: é um dizer 'não' ao senso comum, aos preconceitos, aos juízos, aos fatos e às ideias da experiência cotidiana" (Chauí, 2015, p. 17). Rompendo com a ignorância, surge a segunda característica, que é "positiva: é uma interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos" (Chauí, 2015, p. 17). Longe de ser apenas um agrupamento de opiniões, "A Filosofia é um trabalho intelectual sistemático" (Chauí, 2015, p. 31), que demanda fundamentação racional e rigorosa.

 

A Ética, como disciplina indissociável da filosofia prática, ocupa-se da conduta humana, do livre-arbítrio e da aquisição da virtude. Desde a tradição clássica, consolidada na obra de Aristóteles, entende-se que a moralidade não é inata, mas construída pela prática e pela repetição, "a virtude, ou excelência moral, resulta do hábito" (Marcondes, 2007, p. 515). A ação ética, contudo, só é possível se o indivíduo for livre para fazer escolhas. Na tradição escolástica de São Tomás de Aquino, compreende-se que "o homem possui o livre-arbítrio pelo simples fato de ser racional" (Marcondes, 2007, p. 554). Baruch Spinoza expande esse conceito ao atrelar a virtude à própria ontologia da ação, afirmando que "A virtude é a própria potência do homem" (Marcondes, 2007, p. 589). Por fim, na modernidade, Immanuel Kant define a autonomia moral e racional como o auge do desenvolvimento humano, definindo o Esclarecimento (Aufklärung) como "a saída do homem da condição de menoridade autoimposta" e lançando o imperativo: "Sapere aude! Tenha coragem em servir-te de teu próprio entendimento!" (Marcondes, 2007, p. 622).

 

2 REFERÊNCIAS TEXTUAIS DO REAA QUE PODEMOS APRECIAR COMO SENDO FILOSOFIA

Ao examinar os textos do Ritual de Aprendiz do REAA, encontramos um repositório rigoroso de passagens que exigem, na prática, a atitude filosófica e o compromisso ético descritos pela academia.

 

Na Iniciação. A jornada filosófica maçônica começa na Câmara de Reflexões, um ambiente concebido para a meditação fúnebre e isolada. O ritual adverte explicitamente: "A caverna onde estivestes, como tudo que nos cerca, é simbólica. [...] Se desejais vos tornar um verdadeiro Maçom, deveis primeiro, extinguir as vossas paixões, os vícios e os preconceitos mundanos que ainda possuís, para viverdes com Virtude, Honra e Sabedoria" (REAA, 1927a, p. 78). Exige-se do candidato a mais plena liberdade de vontade, alertando-o de que "Todo homem é livre... O homem que, voluntariamente, abdica de sua liberdade deve ser excluído de nossos Mistérios, porque, não sendo senhor de sua própria individualidade, não pode contrair qualquer compromisso sério" (REAA, 1927a, p. 170). O ato de despojar-se de metais é um corte com o mundo ilusório: "A privação dos metais faz lembrar o Homem antes da civilização", indicando "A abdicação das vaidades profanas e a necessidade imprescindível de Instrução, que é o alicerce da Moral Humana" (REAA, 1927a, p. 171-172). A venda que o cega ilustra a condição não-filosófica inicial, "O estado de cegueira em que vos encontrais é o símbolo das trevas que cercam o mortal que ainda não recebeu a Luz que o guiará na estrada da virtude" (REAA, 1927a, p. 71).

 

Nas Sete Instruções:

  • Primeira Instrução. O rito define o labor central do Aprendiz como o "trabalho de desbastar a Pedra Bruta, isto é, de desvencilhar-se dos defeitos e paixões" (REAA, 1927a, p. 139).

  • Segunda Instrução. Revela-se o sentido filosófico dos instrumentos. A Régua guia o homem, "induzindo-nos a empregá-las com critério, na meditação, no trabalho e no descanso físico e espiritual" (REAA, 1927a, p. 149). O Maço ensina que "a habilidade sem o emprego da razão, é de pouco valor" e o Cinzel atesta que "a educação e a Perseverança são precisas para se chegar à perfeição" (REAA, 1927a, p. 150).

  • Terceira Instrução. A moral maçônica é fundamentada na Razão. Afirma-se que a "Inteligência que nos faz discernir o Bem do Mal" age de forma correta "quando dirigida por uma sã Moral" (REAA, 1927a, p. 166-167).

  • Quarta Instrução. O REAA consolida sua essência iluminista ao declarar que a Maçonaria tem "por causa: a Verdade, a Liberdade e a lei Moral" (REAA, 1927a, p. 178).

  • Quinta Instrução. O combate à anti-filosofia é declarado. Afirma-se que "a ignorância é a mãe de todos os vícios, e seu princípio é nada saber", e que o "Fanatismo e superstição são os maiores inimigos da religião e da felicidade dos povos" (REAA, 1927a, p. 190-191).

  • Sexta Instrução. Estabelece o dualismo da jornada ética através do Pavimento Mosaico, que é "a imagem do Bem e do Mal, de que se acha semeada a estrada da vida" (REAA, 1927a, p. 207).

  • Sétima Instrução. Apresenta uma profunda ontologia dos números. O Binário é rejeitado como o caos da cisão: "O número dois é um número terrível, um número fatídico. É o símbolo dos contrários e, portanto, da dúvida, do desequilíbrio e da contradição" (REAA, 1927a, p. 214). A solução é a síntese, "Procedendo à conciliação dos antagônicos; condensando no Ternário, o Binário e a Unidade" (REAA, 1927a, p. 220). Isso exige o equilíbrio entre "Vontade, Amor (Ou Sabedoria), Inteligência", sem os quais o homem torna-se um "monstro de egoísmo" ou uma "criatura mole" (REAA, 1927a, p. 221-223).

 

3 UMA DISCUSSÃO: O TEXTO DO REAA COMO FILOSOFIA

A partir do alinhamento entre as definições e as passagens litúrgicas levantadas, torna-se pertinente que o REAA não é apenas um compêndio de alegorias, mas um genuíno sistema de filosofia prática ou filosofia de vida, que implica por essa característica uma educação ética e uma ideia de realidade. A seguir, detalhamos essa correlação em termos de como isso se mostra como um método, uma epistemologia.

 

3.1 A Iniciação como Epokhè e a Atitude Filosófica Negativa 

A entrada na Maçonaria reproduz metodologicamente o que Chauí descreve como a primeira fase da atitude filosófica, o dizer "não" às "ideias da experiência cotidiana" (Chauí, 2015, p. 17). Ao fechar o profano na Câmara de Reflexões, despojando-o de seus metais, o REAA executa uma suspensão (epokhè) fenomenológica do mundo profano. A "abdicação das vaidades profanas" (REAA, 1927a, p. 172) é a corporificação literal do rompimento com as opiniões herdadas e com a cegueira platônica. A afirmação ritualística de que o candidato está imerso nas "trevas que cercam o mortal" (REAA, 1927a, p. 71) ecoa perfeitamente o Mito da Caverna de Platão, instaurando a interrogação positiva da filosofia: o pedido incansável pela "Luz" do intelecto e da Razão.

 

3.2 A Práxis Ética e a Forja da Virtude 

O aspecto central do grau de Aprendiz, o trabalho exaustivo de "desbastar a Pedra Bruta" (REAA, 1927a, p. 139), é a tradução em símbolos da ética aristotélica e spinozana. Aristóteles postula que "a virtude, ou excelência moral, resulta do hábito" (Marcondes, 2007, p. 515). No REAA, a Pedra Bruta não se torna Polida por milagre ou revelação divina, mas pelo uso coordenado do Maço (a inteligência, a razão ativa) e do Cinzel, que representa "a educação e a Perseverança" (REAA, 1927a, p. 150). Este ato perene de autoconstrução moral valida a tese de Spinoza de que "A virtude é a própria potência do homem" (Marcondes, 2007, p. 589). A Maçonaria, portanto, estabelece que o aprimoramento moral exige uma práxis, um agir reiterado e incansável contra as paixões desordenadas.

 

3.3 O Livre-Arbítrio e o Esclarecimento (Aufklärung) 

A validade da ética maçônica depende fundamentalmente do conceito de Liberdade, ecoando diretamente São Tomás de Aquino, para quem a vontade moral só é possível porque "o homem possui o livre-arbítrio pelo simples fato de ser racional" (Marcondes, 2007, p. 554). O REAA é taxativo ao afirmar que o indivíduo que abdica de sua liberdade "não pode contrair qualquer compromisso sério" (REAA, 1927a, p. 170). Esta autonomia da vontade culmina no imperativo iluminista de Kant: a saída da menoridade intelectual (Marcondes, 2007, p. 622). A Quinta Instrução do REAA, ao declarar guerra implacável à "ignorância" (mãe de todos os vícios) e classificar o "fanatismo e a superstição" como "moléstia mental" (REAA, 1927a, p. 190-191), assume abertamente a tarefa filosófica de promover o Esclarecimento. O Maçom é, rigorosamente, convocado a servir-se de seu próprio entendimento (Sapere aude!), combatendo os dogmas que escravizam as multidões.

 

3.4 A Antropologia Filosófica e a Conciliação dos Opostos 

Por fim, a Sétima Instrução do REAA avança sobre a ontologia e a antropologia filosófica. Ao refutar a fragmentação dilacerante do Binário ("símbolo dos contrários e, portanto, da dúvida" - REAA, 1927a, p. 214) e propor a síntese no Ternário, a Maçonaria espelha as grandes tradições de integração do Ser humano abordadas pela psicologia e pela teologia profundas. Como pontuam Leloup e Boff, o ser humano não é um dado estático, mas "um nó de relações" (Leloup & Boff, 2012, p. 221) e uma estrutura multidimensional composta por "soma, psique, nous e elas estão atravessadas pelo Pneuma" (Leloup & Boff, 2012, p. 143). O Aprendiz Maçom, para não ser um "monstro de egoísmo" ou uma "criatura mole" (REAA, 1927a, p. 223), deve imperativamente conciliar "Vontade, Amor... e Inteligência" (REAA, 1927a, p. 221). Essa tríade corresponde, filosoficamente, à ação governada pela razão e iluminada pela compaixão e sabedoria, consubstanciando o sujeito ético pleno e integrado. De resto, arroja-se como uma proposta filosófica que seria a terceira fase de uma filosofia que superou a ideia de um “penso, logo existo” (Descartes), “sinto, depois penso” (Nietzsche) para ser uma autêntica escola de viver-pensar (Agostinho da Silva).

 

CONCLUSÃO

Retomando a nossa pergunta original e a hipótese apresentada na introdução, concluímos afirmativamente que a Maçonaria, tal como expressa no Rito Escocês Antigo e Aceito para o grau de Aprendiz, não banaliza o conceito de filosofia. Pelo contrário, o rito e suas sete instruções constituem um legítimo laboratório de filosofia prática (Filosofia de Vida) e um sistema de ética normativa. A hipótese de que o ritual atua como uma propedêutica de Esclarecimento e aquisição do hábito virtuoso foi inequivocamente demonstrada pelas passagens do REAA, desde o choque epistemológico na Câmara de Reflexões ("dizer não ao senso comum") até o desbaste rigoroso da Pedra Bruta (a práxis da virtude moral descrita por Aristóteles) e a síntese antropológica do Ternário.

 

Apesar dessa evidente estruturação ética e filosófica no Grau de Aprendiz, este estudo preliminar salienta importantes lacunas para investigações futuras. Em primeiro lugar, torna-se necessário um estudo epistemológico sobre como essa fundamentação racional de base no Aprendiz evolui e se complexifica no grau de Companheiro Maçom. O que é algo inerente ao processo mistagógico do REAA, que implica uma gradação na aquisição de formação qualitativa e não quantitativa. Em segundo lugar, e sob a ótica das Ciências das Religiões, sugere-se aprofundar as raízes herméticas, cabalísticas e neoplatônicas tangenciadas na Sétima Instrução do REAA, para compreender como a Maçonaria produziu essa síntese única entre a razão iluminista moderna e as tradições de sabedoria da antiguidade. O Templo maçônico confirma-se, destarte, como um autêntico espaço filosófico onde a transformação de si mesmo é o pressuposto para a transformação da humanidade. O Templo é uma tipologia de cosmos, uma ideia de física arquetípica, para pensarmos que de fato uma Filosofia de Vida implica uma ética, uma física e uma lógica; deixado de fora apenas uma dietética.

 

Bibliografia

CHAUÍ, Marilena. Boas-vindas à Filosofia: O prazer do pensar. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010 (3ª tiragem, 2015).

LELOUP, Jean-Yves; BOFF, Leonardo. Terapeutas do deserto: de Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Dürckheim. Organização de Lise Mary Alves de Lima. Tradução de Pierre Weil. 15. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

MARCONDES, Danilo. Textos básicos de ética: De Platão a Foucault. 4. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

REAA. Ritual do 1º Grau – Aprendiz – Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito. amf3, 1927a

 

Notas de rodapé

[1] Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida é M.'. M.'., Cientista da Religião, Filósofo e Orientador Acadêmico. Conheça o site AMF3 Escola de Filosofia em: https://amf3.com.br/

[2] O texto foi apresentado em formação de comunicação para a comunidade de adeptos maçons no Grupo Virtual de Estudos Maçônicos em 07 de mai. de 2026.

[3] Atualmente, alguns rituais do REAA apresentam variações na quantidade de instruções.

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