SOU MESTRE OU APENAS TENHO O TÍTULO?
- há 5 dias
- 4 min de leitura
Por Valber Gama[1]
SOU MESTRE OU APENAS TENHO O TÍTULO? (Parte 01)

Antes mesmo de ter sido iniciado na sublime Ordem Maçônica, já tinha algumas referências de maçons, muitos deles pela contribuição dada à Ordem DeMolay. Mas, desde maio de 2013, quando pude receber a verdadeira luz, uma nova perspectiva da instituição me foi apresentada, dentre elas a dedicação dos membros que trabalham diuturnamente em prol da Maçonaria universal. Trabalho esse sempre embasado nos estudos maçônicos, como a constituição, o ritual e a liturgia, os landmarks e as literaturas dedicada aos irmãos e aos seus respectivos graus.
E, como temos hoje a função de combater a tirania e a ignorância fora dos nossos templos, temos ainda o maior desafio de não permitir que esses vícios negativos adentrem nossos templos, sejam eles físicos ou intelectuais.
Os dois primeiros graus, Aprendiz e Companheiro, aludem aos primeiros passos de uma criança e de um adolescente que adquirem conhecimento e assumem suas responsabilidades maçônicas. Nesse ponto, insiro a importância de um padrinho consciente, capaz de repassar as devidas e necessárias orientações para o crescimento desse irmão.
Tendo mais de dez anos, após ter passado pela cerimônia de exaltação e ter sido elevado ao grau de mestre maçom, não me considero o maior conhecedor da ordem. Mas sempre busquei, em livros, palestras e conversas informais, aprender mais sobre a instituição que outrora avalizou meu ingresso. Ainda na Ordem DeMolay, aprendi a nunca aceitar qualquer informação que não tivesse uma fonte confiável, até mesmo para não servir como massa de manobra de irmãos, vulgarmente intitulados “caciques de loja”.
Sem fugir do tema proposto, quero focar na essência real do grau de mestre. O verdadeiro mestre colaborador em Loja é aquele que não emprega “achismos” diariamente em sessão ou em grupos de WhatsApp. Esse tipo de opinião lançada de forma leviana pode gerar, até mesmo entre irmãos mestres, uma incógnita perigosa: a dúvida infundada ou, pior ainda, uma falsa sensação de verdade. E é exatamente nesse ponto que reside a grande reflexão: Sou mestre porque recebi o grau ou porque compreendi a responsabilidade que ele impõe?
O grau de mestre maçom não é um troféu pendurado na parede do tempo. Ele representa um compromisso permanente com a busca da verdade, com a retidão de caráter e com a coerência entre palavra e ação. A ritualística nos ensina, por meio de alegorias profundas, que a verdadeira construção não é a do templo físico, mas a do templo interior. E essa construção exige estudo contínuo, humildade intelectual e disciplina moral.
Ser mestre é compreender que a autoridade na Maçonaria não nasce do volume da voz, mas da solidez do conhecimento e da serenidade no agir. É saber que opinião sem fundamento não edifica coluna alguma, ao contrário, fragiliza a estrutura simbólica que juramos preservar. A constituição, os Rituais, os landmarks e a literatura maçônica não são meros enfeites acadêmicos, mas pilares que sustentam a regularidade e a identidade da ordem.
Quando deixamos que vaidades pessoais, disputas silenciosas ou interpretações descompromissadas invadam nossos templos, sejam eles físicos ou virtuais, estamos permitindo que a ignorância que juramos combater lá fora encontre morada dentro de nossos próprios muros. E isso é incompatível com a essência do mestre.
O verdadeiro mestre não é aquele que sabe tudo, mas aquele que nunca deixa de aprender. Não é aquele que se impõe, mas aquele que inspira. Não é aquele que centraliza, mas aquele que compartilha. Ele entende que o aprendiz observa, o companheiro questiona e o mestre responde com responsabilidade, pois suas palavras formam, direcionam e, muitas vezes, moldam a consciência dos mais jovens na ordem.
Se, nos primeiros graus, aprendemos a lapidar a pedra bruta, no grau de mestre somos chamados a ensinar pelo exemplo. E exemplo não se improvisa. Ele é fruto de constância, estudo e, sobretudo, coerência. Coerência entre aquilo que defendemos em Loja e aquilo que praticamos na vida profana.
Portanto, a pergunta que intitula este texto não deve soar como provocação, mas como exame de consciência, sou Mestre ou apenas tenho o título? Tenho participado ativamente dos trabalhos? Tenho estudado os fundamentos que sustentam minhas opiniões? Tenho contribuído para a harmonia da loja ou alimentado divisões veladas?
Ser mestre é aceitar que o grau não representa o fim da caminhada, mas o início de uma responsabilidade maior. É compreender que a verdadeira maestria se manifesta no silêncio oportuno, na palavra ponderada e na atitude fraterna. Se, ao final dessa reflexão, concluirmos que ainda estamos em construção, e creio que todos estamos, então estaremos no caminho certo. Porque o mestre que se julga pronto, deixou de evoluir. E a Maçonaria é, antes de tudo, uma escola permanente de aperfeiçoamento moral e intelectual.
Que possamos, diariamente, honrar o grau que ostentamos não apenas no avental, mas na conduta. O título pode ser concedido em uma noite solene, mas o verdadeiro mestre, será reconhecido ao longo da vida.
Nota de rodapé
[1] Valber Gama, M.'.M.'. (M.'.I.'.), A.'.R.'.G.'.B.'.L.'.S.'. Jacques DeMolay n°36, Grau 14 (R.'.E.'.A.'.A.'.), Maçom do Real Arco, Past Grande Mestre Estadual da Ordem DeMolay de Rondônia, criador da atual bandeira institucional da CMSB e detentor da Ordem do Mérito Maçônico Mário Behring – CMSB.




Muito bom. Sou MM há pouco tempo e adorei ler este artigo. Estou esperando a Parte 02.