A ILUSÃO DO AVANÇO
- 24 de abr.
- 4 min de leitura
Por Georges Mayrink
A ILUSÃO DO AVANÇO
ACELERE A VIAGEM, PERCA A PAISAGEM

Comumente se diz aos postulantes que a Maçonaria é uma escola. Uma escola de oratória, de moral, de filosofia e até de espiritualidade. E há muito de verdade nessa analogia. Na Loja, direta ou indiretamente, aprende-se muito sobre esses temas, e aqueles que se aplicam tornam-se, de fato, homens melhores: melhores pais, maridos, parceiros de negócios e, por fim, membros mais valorosos à sociedade.
Essa comparação com a escola, contudo, infelizmente traz consigo um efeito colateral insidioso. Alguns de nossos Irmãos inconscientemente se apegam de tal forma à ideia de “escola” que, influenciados pelos graus e os interstícios mínimos entre eles, passam a crer que, se não avançam no mesmo ritmo dos demais, estão “ficando para trás”. Equiparam a demora com vergonha, o repouso com falha, e a ausência de promoção com estagnação. Algo que não corresponde à realidade.
A analogia da escola cria essa mentalidade de avaliação, o que leva à ansiedade e à comparação que não deveria ser feita. Passa-se, então, a buscar “passar de ano” (leia-se: mudar de grau) a qualquer custo, como se essa fosse a meta primária da Ordem. Essa aceleração dá a ilusão de progresso, mas empobrece a experiência, pois o caminho iniciático não é uma escada a ser subida rapidamente, mas um território a ser explorado lentamente. Grau não é sinônimo de desempenho.
Na verdade, a maior maturidade está em perceber que não há “ano a passar”, porque o trabalho em si mesmo é contínuo. A progressão maçônica não deve ser vista como uma corrida, mas como uma caminhada. Entre nós, há os que andam a passos largos e os que têm pernas mais curtas; uns estão acostumados a correr, outros preferem caminhar vagarosamente; e há ainda aqueles que param para observar a paisagem, descansar, beber água, respirar ou conversar com os companheiros de estrada. Todos, porém, seguem o mesmo caminho. O destino não muda: é idêntico para todos. Se a estrada apresenta pequenas placas indicando onde você está, essas estão ali unicamente para a sua referência. Essas não são o motivo da jornada.
A viagem é única e individual. Quando a viagem se torna mais importante do que chegar ao destino, “atrasos” não mais existem. Não há tempo considerado correto, não existe “passar de ano”, e quem ainda não avançou não ficou para trás; está, simplesmente, acumulando conhecimento ao seu próprio ritmo e desfrutando da viagem. Apressar o caminho iniciático é autossabotagem.
O processo de aprendizado na Maçonaria é, antes de tudo, um processo de interiorização; é isso que chamamos de desbastar a P.'.B.'.. Não é algo que possa ser cronometrado. Cada Irmão tem arestas próprias a desbastar, vícios a superar, defeitos a corrigir. Comparar progresso sob uma ótica comum é tão inútil quanto injusto, pois cada um carrega sua própria matéria-prima a ser trabalhada e diferentes ferramentas para trabalhá-las.
Outro aspecto que distancia a realidade da analogia escolar é o fato de a maior parte do estudo maçônico não ocorrer dentro da Loja, sob a orientação direta do V.'. M.'. ou dos IIr.'. 1º e 2º VVig.'.. O ensinamento transmitido nas sessões é críptico, simbólico, e sugerido; nunca imposto. A compreensão depende inteiramente do esforço individual. Quanto mais o Ir.'. procurar, mais encontrará; quanto mais ler, mais aprenderá; quanto mais perguntar, maior será sua chance de aprender com os demais. Se o Ir.'. não obtiver respostas em suas pesquisas e em sua Loja, pode (e deve) procurar outras Lojas, outros Irmãos, outros meios, porque a Maçonaria não impõe limites à busca da Verdade; ao contrário, incentiva.
Às vezes, parece-me que alguns IIr.'. assumem o 3º grau como o final de uma jornada, o fim da busca — o que não me parece correto.. Até o 3º grau, ainda estamos nos fundamentos do caminho iniciático. A coisa começa a ficar muito mais interessante a partir do 3º grau. Mas isso não justifica a pressa quase cômica para a ascensão ao grau de Mestre, onde um sentimento de completude se instala e faz com que os IIr.'. creiam que já chegaram ao final da jornada.
Mas perguntemo-nos: de onde vem essa pressa? Ela remete à analogia de escola e reflete, muitas vezes, uma mentalidade profundamente enraizada no mundo profano. Cada vez mais, vivemos em um mundo que valoriza a velocidade, a produtividade e o avanço constante. Aprendemos desde cedo que progredir é subir, que evoluir é acumular, que permanecer é falhar.
Quando essa lógica é transportada para a Maçonaria, instala-se uma distorção silenciosa: o Irmão passa a confundir grau com realização, posição com profundidade, e reconhecimento com transformação.
A situação cria um paradoxo inevitável: quanto mais alguém se apressa para avançar, menos avança de fato. Porque o verdadeiro progresso maçônico não responde ao tempo cronológico, mas ao tempo da consciência.
Para finalizar, gostaria de introduzir uma curiosidade botânica que exemplifica como devem ser os maçons: o exemplo do bambu.
Durante os primeiros cinco anos, o bambu quase não cresce acima do solo; parece apenas um arbusto. Mas nesse tempo oculto, desenvolve um sistema de raízes vasto e profundo, capaz de sustentar troncos que chegarão a 30 metros de altura. Só então, após esse longo período de preparação invisível, seu crescimento dispara: pode crescer até 90 centímetros em um único dia — 3 a 4 centímetros por hora! É uma das raras plantas cujo crescimento pode ser observado a olho nu.
Assim deve ser o Maçom. O verdadeiro crescimento é interno, silencioso, muitas vezes imperceptível aos olhos alheios. Aqueles que, ávidos por galgar novos graus, tentam “crescer” antes de terem feito o trabalho de desbastar suas PP.'. BB.'., correm o risco de desenvolver raízes rasas. Seu rápido avanço pode iludi-los, levando-os a crer que estão prontos para enfrentar as intempéries da vida, até que o primeiro vento forte os derrube.
Que fique, então, a mensagem: acelerar a viagem é fácil; o difícil e essencial é não perder a paisagem. Porque a Maçonaria não nos chama para chegar primeiro. Ela nos convida a estar presentes, absorvendo tudo que o caminho tem a oferecer.
Que o G.'.A.’.D.'..U.'. a todos ilumine e guarde.




Ótimo texto, ótima reflexão, Parabéns! Só achei meio sarcástico o texto falar sobre o tempo de cada um e no cabeçalho estar escrito, 24 de abr. - 4 min de leitura haha...