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UM EVENTO ALVISSAREIRO (TEXTO DE OPINIÃO)

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Ivan A. Pinheiro[1] 


UM EVENTO ALVISSAREIRO (TEXTO DE OPINIÃO)


UM EVENTO ALVISSAREIRO (TEXTO DE OPINIÃO)
Imagem ilustrativa gerada por IA

Em vários artigos, mas sobretudo na coletânea “Sobre as Lojas (Maçônicas) de Estudos e Pesquisas” — LEPs (Pinheiro, 2025), discorri sobre uma grande variedade de aspectos pertinentes ao tema, a exemplo da origem, organização e desenvolvimento das Lojas, do perfil dos integrantes, da estrutura textual, das questões normativas, etc., bem como sobre algumas características que dificultam o avanço do estudo e da pesquisa na Maçonaria brasileira, entre elas, o insulamento das iniciativas. Destaco o insulamento, mas, de regra, ele encontra-se associado a outros aspectos, a exemplo da ausência de um sistema de incentivos como ocorre quando os editais estimulam os trabalhos em equipe.

 

O trabalho em equipe, e não é preciso se estender muito sobre o tema, porque notoriamente conhecido, apresenta muitas vantagens; entretanto, para que dele se extraia o melhor do seu potencial são necessárias determinadas condições, consideradas até exigências mínimas (conditio sine que non) para integrar a equipe, como é o caso de uma LEP: os membros devem revelar afabilidade; discernir o momento adequado, seja para falar (ensinar) ou ouvir (aprender), sobretudo quando frente às ideias contrárias às suas expectativas; saber compartilhar, colaborar em coordenação, encontrar a exata medida entre os seus objetivos e os da equipe, liderar, obedecer, etc. Se, ao contrário, as condições não forem observadas, há o risco de a equipe vir a ser meramente pro forma; aos olhos externos uma realidade que, não obstante, internamente, não é mais do que uma aparência. Dificilmente o rol de condições encontra-se reunido em uma pessoa, pois o habitual[2] é que as pessoas sejam dotadas, ora mais, ora menos, deste ou daquele atributo; todavia, as idiossincrasias podem, internamente, ser compensadas, assim como as limitações superadas pelo treinamento e pelo desenvolvimento, espontâneo ou induzido. Tudo, é claro, desde que haja intenção e deliberação seguidas das respectivas iniciativas e ações. Na ausência desse que pode ser considerado o ecossistema de estudo e pesquisa — que, além das LEPs conta com as Lojas Simbólicas, as Potências, os Editores, as Academias e os demais agentes —, é de se esperar que os empreendimentos continuem insulares.


Em meio a quem sabe ouvir e falar respeitosamente, uma das principais vantagens do trabalho em equipe é, no primeiro momento, a possibilidade de promover a crítica interna, de exercitar o papel de “advogado do diabo”, de acionar “a artilharia do fogo amigo”, tudo com as melhores intenções: a de corrigir e a de depurar as ideias e as propostas em geral. No momento posterior, eventualmente a partir de um documento, em versão preliminar ou não, o refinamento crítico pode ser buscado junto à comunidade ampliada, isto é, a outros pesquisadores, outras LEPs, colaboradores ad hoc, etc.    

 

Por ocasião do surgimento da Internet e, logo a seguir, o das Redes Sociais, as primeiras expectativas apontavam não só para a extensão extraordinária desse ecossistema colaborativo, mas também algo assemelhado ao efeito alavanca, tanto quantitativo quanto qualitativo, na geração de novos conhecimentos e produtos intelectuais a partir de movimentos concêntricos e expansivos, a exemplo da pedrinha lançada ao lago: a colaboração teria início no pequeno grupo (no caso, Irmãos com maior afinidade), se estenderia à Loja, às demais Lojas Simbólicas ou LEPs, às Academias (locais, regionais e nacionais), a outros Centros de Estudos e Pesquisas (de Iniciados ou não) para, finalmente, lograr conexão com a comunidade internacional. Desse modo, as correias de transmissão atualizariam a comunidade por ocasião de qualquer descoberta, quiçá avanço, no estado da arte em cada um dos subdomínios de estudo e pesquisa habitualmente explorados na Maçonaria (história, simbologia, gestão, sociedade, etc.) — a jusante e a montante.

 

Passados já alguns anos, salvo melhor juízo, não é o que, de regra, se tem observado. Seguramente, quase 100% das iniciativas e dos empreendimentos continuam individuais, o maçom, no que tange ao estudo e à pesquisa, permanece insulado. Não há evidência maior do que o que pode ser observado no que tange à frequência e à natureza das mensagens nos grupos de WhatsApp: cumprimentos (bom dia, boa tarde, boa noite, boa semana, boa nova estação, feliz aniversário, feliz isto, feliz aquilo); aforismos, sobretudo os de natureza religiosa; publicidade e ofertas (venda de produtos e serviços maçônicos e não maçônicos), miscelâneas e matérias que de modo direto ou velado aludem à crítica com engajamento político-ideológico. Ressalto que a questão aqui não diz respeito à crítica ao que se passa nesses ambientes (cada grupo que se autogoverne), mas a de chamar a atenção para o fato de que ao abrigo do guarda-chuva “estudo e pesquisa”, pouco, quase nada é compartilhado, exceto em grupos com finalidade muito dedicada. E mesmo nesses, quando se verifica o produto final (artigo, livro, apresentação e outros), o que se constata é a autoria individual, o que levanta a dúvida se, nas preliminares, a rede, na sua expressão genuinamente social e colaborativa, foi ou não utilizada e explorada nos limites do seu potencial.  

 

Isso tudo tem consequências que não só repercutem na atualidade da Maçonaria brasileira, mas também induzem a uma prospecção quase em nada positiva se as condições de fundo não forem alteradas. Todavia, sobre os motivos que levaram e continuam alimentando o cenário acima eu não vou tecer comentários, pelo menos não por ora, mas guardo a convicção preliminar de que se deve, por parte das instituições à frente, à não observância do que acima referi como “[...] determinadas condições, consideradas até exigências mínimas (conditio sine que non) para integrar a equipe”.

 

Por ora eu quero saudar a iniciativa — “um evento alvissareiro” —, de 2 (dois) Irmãos e confrades na Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras, e também na Academia Internacional de Maçons Imortais — Denizart S. de Oliveira Filho e Mario C. Bandim Vasconcelos — que não só trouxeram a público as suas reflexões (o que, à luz do quadro acima já é meritório), como explicitaram as suas divergências e citaram-se mutuamente, o que, sou de opinião, agrega mais um mérito ao evento — a coragem —, pois tal tem sido considerado um tabu na maçonaria brasileira que, na dúvida e para não sair da zona de conforto, é tendente a, indistintamente, tecer loas. Um passar de olhos sobre a literatura internacional permite verificar que os autores estrangeiros se criticam mutuamente, o que, me parece, é condição necessária como primeira etapa, ainda que não suficiente, para refinar as ideias e propostas. A crítica cortês, propositiva (indicação pontual das incoerências, lastreada em argumentos, fontes, etc.) e objetivamente direcionada tende a gerar um círculo virtuoso, tanto dos mais diretamente envolvidos quanto dos leitores posicionados nos demais círculos, que podem vir a ser motivados a ampliar (ver pela perspectiva do outro) e/ou a aprofundar conhecimentos (corrigir e refinar o posicionamento prévio). O tema que ambos têm desenvolvido é um dos mais relevantes, considerado seminal, fundador das cosmovisões e teogonias, das bases constituintes das personalidades, dos princípios, dos valores éticos e das condições de inserção de cada um nos respectivos grupos sociais; enfim, repercutirá nos mais diversos aspectos da vida cotidiana: Criacionismo vs Evolucionismo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PINHEIRO, Ivan A. Sobre as Lojas (Maçônicas) de Estudos e Pesquisas. Brasília, DF: Ed. do Autor, 2025. ISBN 978-65-01-66713-3. Disponível junto à Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras – AMVBL: https://www.amvbl.com/.

 

Notas de rodapé

[1] MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 12.02.26.      

[2] O que estatisticamente é considerado Normal.

1 comentário


Membro desconhecido
há um dia

Cumrprimentos estimado Ir. Ivan Pinheiros. Concordo convosco sobre os insulamentos, de fato é verificável. Cito dois conhecidos, o empreendimento editorial A Trolha e Madras. Adiciono à sua meditação a questão de haver uma ausência de infraestrutura de promoção da produação de conhecimento nos fenômenos maçônicos mais proeminentes em números de adeptos, os tais três Grupos CMSB, GOB, COMAB. Se considerarmos os nomes que mencionastes, as Lojas de Estudo e Pesquisa e as Academias, me parecem que não são propriamente infraestruturas de promoção de conhecimento, apenas variações de sociabilidade; Recente, um fenômeno maçônico de São Paulo, de modo aleatório, anunciou em um vídeo a crianção de uma "Universidade" e já listava um curso de bacharelado em história. Bem, de partida havia…

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