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A SESSÃO MAÇÔNICA SIMBÓLICA, UM RITO DE PASSAGEM E DE RETORNO

  • há 9 horas
  • 4 min de leitura

Por Luiz V. Cichoski


 

A SESSÃO MAÇÔNICA SIMBÓLICA, UM RITO DE PASSAGEM E DE RETORNO


A SESSÃO MAÇÔNICA SIMBÓLICA, UM RITO DE PASSAGEM E DE RETORNO
Imagem ilustrativa gerada por IA

I. INTRODUÇÃO

O Ritos de Passagem, como indicado na nômina, marca uma mudança, uma transferência do homem e do homem-maçom de um nível para outro, nível este que pode ser temporal, social ou iniciático.

 

A antropologia, através das abordagens etnológicas e etnográficas, descreve as principais características culturais do homem. Os Ritos de Passagem exemplificam uma destas abordagens, constituindo o temário desta reflexão.

 

Diversos autores dedicaram-se ao estudo destes meandros — passagem e retorno —, pelas sendas ritualísticas e simbólicas, inaugurando e conceituando o detalhamento de tais comportamentos e crenças[1],[2],[3],[4],[5],[6],[7],[8].

 

II. A PASSANAGEM NA SESSÃO MAÇÔNICA

Em outros momentos perquirimos a descrição dos eventos maçônicos — Iniciação, Elevação e Exaltação —, bem como sua relação etnológica e etnográfica[9],[10]. Na ocasião objetivamos abordar e apresentar os aspectos maçônicos básicos pelo viés etnográfico.

 

A primeira descrição do Rito de Passagem feita por Anton van Gennep, continua válida e atual. Etnograficamente é possível encontrar elementos da ‘passagem’ em todas as culturas ao longo da história do homem. O nascimento, desenvolvimento e morte; a infância, adolescência, maturidade, senescência; maçonicamente, as diferentes passagens iniciáticas.

 

O processo da passagem se conclui ao longo de três etapas:

a) separação ou preliminar, toda preparação que cada evento exige antes de acontecer;

b) margem ou limbo, constitui o componente da passagem, isto é, conjunto dos atos que marcam a ritualística do evento;

c) agregação ou pós-liminar, a vivência de uma mudança ou conquista.

 

Preliminarmente consideramos o percurso de cada obreiro para aquela sessão; objetivos e expectativas diferentes; pensar e sentir diversos. Sua separação da vida profana e aproximação e incorporação da maçônica.

 

O limbo — ou a sessão propriamente dita — constitui a ‘passagem’ que se atrela aos objetivos de cada irmão naquela sessão. Considerar a execução e vivência dos aspectos ritualísticos ou cênicos com as realizações e práticas — desempenho no cargo, apresentação de uma peça de arquitetura, uso do período de instrução. Esta fase é o somatório e síntese dos preparativos, expectativa, execução e emoções de todos os irmãos presentes.

 

A vivência pós-sessão — o pós-liminar — confere um sentimento próprio e pessoal, um compilado das fases anteriores. As mudanças são múltiplas desde o conseguir chegar para a sessão; a identificação e linkagem com os demais irmãos — sensação que podemos nominar de fraternidade —, ponto culminante dado pelas trocas e aproximações que se forjam com a mencionada fraternidade, com ou sem ágape.

 

O Rito de Passagem intensifica uma mudança, um ganho, uma transformação que se mostra nas vivências e memórias dos eventos realizados e introjetados por cada irmão naquela sessão; paradoxalmente, experiências diferentes entre os irmãos.

 

A sessão econômica também abre espaço para os ganhos do retorno; lembrando que Mircea Eliade descreveu um Eterno Retorno[11].

 

O retorno maior está vinculado com a recuperação de algo perdido; um retorno ou restauração.

 

As crenças antigas e, ainda em algumas atuais, estruturavam-se sobre um ‘retorno’ do veículo ou representante do culto. Ilustrações destes Ritos são encontrados em muitos credos com a realização das comemorações festivas — orgias de aproximação e consumo de algum representante totêmico local. Na intimidade do cristianismo o exemplo maior está em Lucas, 15:11-32 — o Retorno do Filho Pródigo.

 

A vivência maçônica nos prodigaliza um retorno contínuo — similar ao Eterno Retorno —, concretizado na receptividade dos irmãos nas sessões às quais sempre temos a oportunidade de retornar, mesmo após alguma ausência.        

 

São momentos de recuperação dos anelos e ligações, da fraternidade possibilitada e concretizada pelo retorno e a restauração dos vínculos e reocupação do espaço que se mantém, sempre, para todos os irmãos que fizeram a passagem e, também podem viver o retorno.[12],[13] O aforisma diz: ninguém deixa de ser maçom.

 

III. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Maçonaria — seja a Operativa, a de Transição ou a Especulativa — é obra do homem; no estudo do homem — antropologia, via etnologia e etnografia — reconhecemos e relatamos a obra do homem.

 

A atuação do homem ao longo de suas dimensões ou amplitudes de ações e efeitos: homem consigo mesmo, o homem com seu entorno familiar, o homem no mundo profissional, assim como no social, sempre está capacitado para demonstrar sua ação. Aqui focalizamos e pontuamos o homem através de sua passagem, passagem esta que deixa sinais no próprio homem e no seu entorno; também vislumbramos o homem em seu retorno que, igualmente, guarda diferentes e próprias amplitudes.

A Maçonaria ao selecionar homens bons — justos e (quase)perfeitos —, exemplifica as ações pessoais e sociais deste homem em passagens e retornos. Não podemos deixar de lembrar que Maçonaria é assunto sério (como os homens que a compõe).

 

Luiz V. Cichoski  MM

ARBLS Templários da Liberdade, 69

Pinhalzinho/SC

GOSC/COMAB


Luiz V. Cichoski


SAIBA MAIS          

Notas de rodapé

[1] A. Van Gennep, Religions, Moeurs et Légendes, Sociétè du Mercure de France, 1908.

[2] A. Van Gennep, La Formation des Légendes, Ernest Flammarion, èditeur, 1910.

[3] A. Van Gennep, Os Ritos de Passagem, 2ª. edição, Ed. Vozes, 2011.

[4] V. Turner, O Processo Ritual, Ed. Vozes, 1974.

[5] M. Eliade, Ritos, Símbolos da Iniciação (1958), Edicções Ésquilo, 2004.

[6] M. Eliade, Mito e Realidade (1964), 6ª. Edição, Ed. Perspectiva, 2004.

[7] M. Eliade, O Sagrado e o Profano. A Natureza das Religiões (1959), Ed. Martins Fontes, 2008.

[8] A. M. Moreno, Antropologia do Ritual Masónico, Ed. Masonica/España, 2023.

[9] L. V. Cichoski, A Iniciação como Rito de Passagem, O Prumo, 207; jan/mar; 2013.

[10] L. V. Cichoski, Fundamentos da Iniciação, A Trolha, 2014.

[11] M. Eliade, O Rito do Eterno Retorno (1954), Edições 70, 1978.

[12] C. G. Jung, O Homem e seus Símbolos, Ed. N. Fronteira, 1964.

[13] J. Campbell, O Poder do Mito. Ed. Palas Athena, 17ª. Edição, 1999.


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