FOGO/CALOR E A MAÇONARIA
- 25 de abr. de 2025
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Atualizado: 9 de mai. de 2025
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FOGO/CALOR E A MAÇONARIA
I. INTRODUÇÃO CONCEITUAL
Fogo é o desprendimento de calor e luz produzidos pela combustão de um corpo, secundariamente, à uma reação química – exotérmica - de oxidação, onde, portanto, o ingrediente ou participante principal é o oxigênio.
Nesta definição é possível identificar três elementos básicos da queima:
a) um combustível[1], isto é, o material que será queimado, transformado, destruído;
b) um comburente[2], isto é, o elemento que vai propiciar o ambiente químico favorável para a ocorrência da queima; no caso mais comum, como dito acima, o comburente mais frequente é o oxigênio;
c) o início desta reação, o gatilho, é proporcionado pela energia térmica ou calor, calor que estava estocado, guardado nos elementos componentes do combustível e que pode ser transmitida – condução térmica – entre os corpos (interssubstancial); exemplificado no calor gerado pelo atrito entre duas superfícies em movimento ativo e vigoroso ou no atrito do palito de fósforo que ascende o clorato de potássio que é o combustível inicial (depois a própria madeira do palito) e como comburente o oxigênio do ar ambiente.
No seio da teoria grega dos quatro elementos[3] a água[4](Tales de Mileto/620-555a.C.), o ar (Anaxímenes de Mileto/588/524 a.C.) e fogo (Heráclito, de Éfeso/540-476 a.C.) e a Terra[5](Xenófanes de Cólofon/570-475a.C.). Quatro elementos estes que mantinham distribuições diferentes[6] conforme Anaximandro de Mileto (610-546 a.C.) Quatro elementos estes que, em proporções diferentes, compõem tudo que existe como proposto por Empédocles de Agrigento/490-430 a.C.; também Aristóteles/384-322 a.C. defendeu a ação conjunta dos quatro elementos no Timeu.[7]
O fogo já foi descrito como composto pelo flogisto (denominação para algo que não se conhecia e entendia naquele momento da história das ciências); a partir do século XVIII sabemos que o oxigênio (o comburente) é o melhor representante para este ‘flogisto’. A reação de combustão(fogo) libera calor e luz; a parte luminosa é uma fração do espectro eletromagnético que varia do (infra)vermelho ao ultravioleta(azul), as cores que o fogo assume no consumo de diferentes combustíveis, por exemplo, a madeira ou o gás. Estas cores representam diferentes comprimentos de ondas(eletromagnéticas) compostas pelos fótons (elemento que se comporta como partícula ou onda). A ciência relata uma busca constante de equilíbrio que, no caso do fogo, é estudado e descrito pela termodinâmica.
Temperatura, denominação dada à grandeza térmica que afeta os átomos que podem diminuir a sua agitação com o resfriamento (diminuição da temperatura) – interssubstancial - e, complementarmente, podem aumentar a sua agitação com maiores temperaturas (aumento da temperatura). Dizendo de outra forma:
Temperatura é uma medida termodinâmica para o movimento de oscilação realizado por átomos e moléculas de um corpo. De uma forma sensorial podemos dizer que a temperatura é percebida como as sensações – que nosso sistema nervoso é capaz de perceber e diferenciar - como quente ou frio, e enunciada por meio de um grande número de escalas termométricas e aferidas instrumentalmente, isto é, por termômetros.
Todo corpo com temperatura acima do zero absoluto emite radiação – esta emissão energética é um elemento do grupo da energia eletromagnética; dependendo da massa do corpo podemos medir emissões discretas – nosso corpo vivo emite calor de forma constante e controlada (somos homeotérmicos) – trabalho e movimento das células e seus componentes(diferentes elementos e moléculas) – medido pela temperatura que é referendada por uma escala de normalidade, temperatura esta que deve ser diferenciada quando interna(maior) que a externa(menor). Corpos maciços emitem calor a partir da própria combustão, as estrelas.
Uma grande conquista na história evolutiva do homem foi o controle do fogo, evento da lavra do homo Erectus, que nos antecedeu ao redor de 1,7 a 1,8 milhão de anos atrás.

II. O FOGO E A MAÇONARIA
O domínio do fogo permitiu que o homem desenvolvesse instrumentos, alimentos e arte.[8]
A presença do fogo na história do homem aparece em diferentes referências, como na Bíblia – relacionada com a Igreja que empregava os maçons operativos na Idade Média –, onde são mais de trezentas as menções utilizadas, quer no antigo como no novo testamento.
A primeira delas consubstancia-se na apresentação da espada flamejante que expulsa o casal original do paraíso para uma peregrinação, desafios e conquistas no mundo e na vida (Gên. 3, 24)[9]: “Assim ele expulsou o homem, e colocou no leste do jardim do Éden querubins, e uma espada flamejante, que se voltava a todos os lados para guardar o caminho para a árvore da vida”.
A última citação bíblica está em Apocalipse 21, 8 “Mas, quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos que se prostituem, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.”
A primeira menção é simbolizante do poder do Criador e foi entendida, absorvida e aproveitada pela Instituição em momentos marcantes das Iniciações; a última menção é o final de um julgamento – a pena – que deverá ser encontrada pelos mencionados por João, o apóstolo.
Nossa visão cronológica aponta uma Maçonaria Operativa desenvolvida e funcionante no período da Idade Média – na passagem da alta idade média para a baixa idade média (ao redor do ano 1000; momento da Parúsia[10]) -, isto é, paralelamente com o desenvolvimento do estilo gótico de construção – 1137, Saint Denis/Paris/França[11].
A presença do fogo no preparo das ferramentas de trabalho e na aplicação ao material básico utilizado nas construções – ferramentas metálicas, vidros, armações – foi fundamental. A justiça se valia do fogo para execução de penas – Jacques DeMolay (1314) e Joana D’Arc (1431) são exemplos; vivia-se um momento de plena autoridade religiosa na Europa, exemplificado na Inquisição e suas normas, Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras), 1484[12].
A relação do fogo com a Maçonaria evoluiu de um elemento de trabalho operativo para um símbolo maçônico especulativo; o maçom operativo gótico-medieval dominou o uso deste elemento nas construções enquanto o maçom especulativo ou executivo moderno vale-se do poder e força da sua representatividade para orientar e formar a modelagem do ‘ser maçom’.
Simbólica e especulativamente podemos referendar algumas menções ao fogo:
a) J.Chevalier&A.Greerbrant[13] reconhecem a importância e o simbolismo do fogo presentes em todas as culturas – Ocidentais e Orientais -; presente nos ritos iniciáticos – crematórios ou não - com o sentido de purificação. Observar como um mote de reflexão que, paradoxalmente, apesar de seu poder destruidor o fogo tudo transforma e tudo se transforma em fogo, teria sido – pergunto agora - tal enigma contraditório o impulsionador do pensamento grego, de Heráclito, Empédocles e Aristóteles, na seleção deste fenômeno como um dos quatro elementos básicos?
b) Mackey[14], em sua Enciclopédia, lembra da presença e simbolismo do fogo no âmbito das religiões; também cita os pilares de fogo e a ‘purificação pelo fogo’.
c) Abrines[15] reconhece que “o fogo é um elemento que, tanto no estado natural como na forma de símbolo, tem presença nas cerimônias maçônicas representando, por vezes a purificação e, em outras simboliza o fervor e o zelo dos maçons”.
d) Aslan[16] referenda o quarto elemento como ‘o mais útil, princípio ativo, germe e origem da geração, o mais puro, animador e macho e fonte de energia’.
e) L.V.Cichoski[17]: Não parece haver dúvidas sobre o papel purificador do fogo na intimidade de sua simbolização; entre os quatro elementos essenciais dos gregos, o fogo é o único energético – energia eletromagnética – com potencial intrínseco real.
No ritualismo e simbolismo do Rito Escocês Antigo e Aceito encontramos o fogo nas velas presentes na Loja e no seu uso em diferentes sessões e momentos; o ponto culminante está na prova do fogo e na espada flamígera – Iniciação.
No período operativo as Lojas cuidavam da execução da obra que, sendo uma Catedral/Notre Dame, mantinha uma atividade continua secular; grande número de operários eram de maçons em casa, isto é, não precisavam sair para trabalhar. Dificilmente duas Lojas para a mesma construção. Eram maçons livres em suas Lojas livres. O fogo – concreto e quente - era iniciado, mantido e cuidado localmente.
O fogo das Lojas especulativas, entendido simbolicamente, também pode ser relacionado com a dinâmica de cada Loja. Existem Lojas com dinâmicas próprias e diferentes cuja observação permite o reconhecimento de um ‘calor local’ interno, autóctone, proporcional e caracterizador de cada grupamento maçônico. Existem Lojas de maior trabalho interno, – instrucional, formativo – e, outras com uma visão prioritariamente social, externa, - ‘executiva ou corporativa’, nosso desafio atual.
Por fim, sintetizando, a força, dinâmica, temperatura ou termodinâmica de cada Maçom faz a diferença e determina a força, dinâmica, temperatura ou termodinâmica da Loja; pois cada Maçom traz a fagulha (as ideias e propostas) – o atrito iniciador da ignição do combustível, complementado pelo comburente (o oxigênio) disponível em cada Loja e que determinará a agilidade, produtividade e calor – a termodinâmica – de cada Loja. O somatório da força e energia dos obreiros de cada Loja determina o nível ‘termodinâmico’ de cada Loja e o conjunto total desta energia determinará a cinética, a ação, a realização ou ‘termodinâmica’ da Potência.
III. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A dinâmica intra-atômica, atômica e molecular permite reconhecer presente nos compostos químicos e nas estruturas vivas a existência de um ‘fogo’ próprio da atividade dos elementos componentes, reconhecidos nas Forças Nucleares Forte e Fraca; os seres vivos produzem uma atividade térmica própria resultante da atividade molecular e reacional – eletroquímica - que compõem o espectro da energia eletromagnética. Assim, diferentemente dos outros três elementos básicos gregos – a Terra, a Água e o Ar – que possuem componente sólido, o Fogo é energia.
Manter a atividade regular e dentro de um equilíbrio atômico, molecular, estrutural e organizacional, é o objetivo equalizador e mantenedor do mundo conhecido que, em algum momento, pode ser alterado por desdobramentos, os mais espetaculares, provocando o aparecimento de íons, mutações, malformações, colapsos estelares, buracos negros...
Maçonicamente não é diferente, precisamos estar atentos quando das modificações nos níveis ‘termodinâmicos’ de nosso entusiasmo maçônico; da ‘temperatura’ de funcionamento das Lojas e Potências, evitando os fenômenos dispersíveis e destruidores que a maioria de nós já acompanhou e testemunhou – as explosões estelares ou o aparecimento dos buracos negros de irmãos, Lojas e Potências (a História que o diga!). Necessário que a ‘amplitude térmica’ se mantenha entre o ‘infravermelho e o ultravioleta’ para o bom e correto funcionamento da estrutura maçônica; para tanto o ‘foguista’ deve manter ativa a tolerância maçônica, uma habilidade ímpar, nem sempre presente, mas altamente necessário para que o tecido maçônico receba nossa atenção e cuidado, visto ser composto significativo para o nosso crescimento e desenvolvimento e da sociedade que nos envolve. Afinal, Maçonaria é assunto sério.
Luiz V. Cichoski, MM
ARBLS Templários da Liberdade, 69
Pinhalzinho/SC
GOSC
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Notas de rodapé
[1] Exemplos de combustíveis são inúmeros: o carvão, o biodiesel e o biogás, o etanol, o hidrogênio.
[2] Exemplos de outros comburentes além do oxigênio seriam: o bromo, chama verde; o cloro, chama azul; o enxofre, chama amarela.
[3] L.V.Cichoski, Fundamentos da Filosofia Maçônica, vol. I, A Trolha, 2018.
[4] L.V.Cichoski&A.Caniel, A Natureza como Primeiro Maçom Operativo, inédito.
[5] L.V.Cichoski, Do Pó ao Pó, Revista A Trolha, 449, março 2024.
[6] Anaximandro (610 -546 a.C.) descreveu o apeiron (o elemento infinito) que compunha tudo em diferentes proporções e posições: isto é, de acordo com o maior ou menor peso dos elementos componentes: no centro, a terra (o elemento mais pesado); cobrindo-a, a água, e recobrindo tudo, o ar e o fogo.
[7] As propostas gregas foram além dos quatro elementos: Pitágoras/570-497a.C. e os números; Anaxágoras/500-428 a.C. e Demócrito/460-370 a.C., o átomo.
[8] I.Asimov, Cronologia das Ciências e das Descobertas, 2ª. edição, Ed. Civilização Brasileira, 2001.
[9] Bíblia Sagrada, Versão Rei James, autorizada em 1611, No Esquadro, 2022.
[10] Parúsia, denomina para a segunda vinda do Cristo, no final do primeiro milênio, período de muitas incertezas e dúvidas que foi superada e, de certa forma, estimulou as Cruzadas e o próprio estilo gótico.
[11] L.V.Cichoski, Cronologium, in Grandes Pensadores da Humanidade e o Rito Moderno, vol. II, 2020.
[12] L.V.Cichoski&J.Stulp, Fundamentos Maçônicos, Cristianismo na Idade Média, inédito.
[13] J.Chevalier&A.Greerbrant, Dicionário de Símbolos, 2ª. ed., J.O.Ed, 1989.
[14] A.G.Mackey, Enciclopedia de la Francmasonería, vol. II, Grijalbo, 1874.
[15] L.F.Abrines, Diccionario Encilopédico Abreviado de la Masoneria, Cia General de Ediciones, 1955.
[16] N.Aslan, Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, vol II, 2ª.Ed. A Trolha, 2000.
[17] L.V.Cichoski, Fundamentos do Simbolismo Maçônico, vol. II, A Trolha, 2016.




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