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MATRIZES SIMBÓLICAS DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO

  • 18 de mar.
  • 6 min de leitura

Por Gael Pereira dos Santos[1]


 MATRIZES SIMBÓLICAS DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO


MATRIZES SIMBÓLICAS DO RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO
Imagem ilustrativa gerada por IA

Se observarmos o Rito Escocês Antigo e Aceito com atenção, uma coisa se torna evidente logo no início: ele não nasceu pronto. Diferente do que muitos imaginam, o REAA não é uma herança direta e linear das antigas tradições iniciáticas, mas uma construção moderna, organizada entre os séculos XVIII e XIX, que reuniu, estruturou e reinterpretou diferentes referências ao longo do tempo.

 

O ponto de partida real está na consolidação da Maçonaria especulativa, especialmente com a fundação da Grande Loja de Londres, em 1717. A partir desse momento, a Maçonaria passa a se organizar como sistema, deixando de ser apenas operativa e assumindo um caráter filosófico. Com sua expansão pela Europa, principalmente na França, surgem os chamados Altos Graus, que ampliam o sistema original e abrem caminho para o desenvolvimento do escocesismo. É nesse ambiente que, em 1801, é criado o Supremo Conselho em Charleston, marco formal da organização do Rito Escocês Antigo e Aceito em seus 33 graus. No entanto, o rito ainda estava longe de ter a forma que conhecemos hoje. Seus graus simbólicos não possuíam uma padronização clara, e os rituais ainda estavam em construção.

 

Em 1804, em Paris, surge o primeiro projeto ritualístico do simbolismo do REAA. Esse momento é pouco explorado, mas extremamente relevante: o rito estava sendo desenhado. E, como toda obra em construção, sofreu interferências. O Grande Oriente da França, que já possuía forte influência política e ritualística, passa a interferir diretamente na organização dos graus, especialmente ao assumir o controle dos graus até o 18º. Dessa intervenção nascem as chamadas Lojas Capitulares, e com elas, uma série de adaptações que moldariam o rito como o conhecemos. Elementos que hoje parecem intocáveis — como o Oriente elevado e separado, ou a presença do Altar dos Juramentos — não faziam parte do modelo inicial. Foram soluções práticas que, com o tempo, se tornaram tradição.

 

Isso revela algo importante: o REAA não é apenas herança. Ele é resultado.

 

Resultado de decisões institucionais, de contextos políticos e de interpretações feitas por irmãos que, em seu tempo, também estavam tentando dar forma a algo maior do que eles mesmos. No Brasil, esse processo ganha contornos próprios. Ainda em 1822, antes mesmo da fundação do Grande Oriente do Brasil, já existiam Lojas que trabalhavam sob influência escocesa, como a Bouclie D’Honneur. Poucos anos depois, entre 1829 e 1833, surge a Loja Educação e Moral, que já operava com características capitulares. Em 1832, Francisco Gê Acayaba de Montezuma introduz o Supremo Conselho no país, consolidando o escocesismo em território nacional. Em 1834, surge o primeiro regulador dos graus simbólicos no Brasil, fortemente inspirado nos modelos franceses. Ou seja, o rito que praticamos hoje é fruto de uma construção que atravessou países, interesses e adaptações.

 

O Rito Escocês Antigo e Aceito não recebeu esse nome por uma origem escocesa literal, mas por uma construção histórica que remonta aos chamados “Altos Graus Escoceses” difundidos na França no século XVIII, muitos deles associados à tradição de Heredom (ou Heredon de Kilwinning), que ajudou a consolidar a ideia de um sistema mais elevado e filosófico dentro da Maçonaria. O termo “Antigo e Aceito” surge para legitimar esse sistema como herdeiro de tradições anteriores (os “Antigos”) e, ao mesmo tempo, como um corpo reconhecido e organizado (“Aceito”), especialmente após a fundação do Supremo Conselho em Charleston, em 1801. Seus símbolos, portanto, não derivam de uma única fonte, mas de uma síntese progressiva que incorporou elementos de diferentes sistemas, sendo profundamente marcada pelas adaptações ocorridas nas Lojas Capitulares francesas do início do século XIX. É nesse contexto que se consolidam características hoje consideradas essenciais, como o Oriente elevado — originalmente criado para acomodar o santuário Rosa-Cruz —, o Altar dos Juramentos no Oriente, que surge como solução prática para atender tanto aos graus simbólicos quanto capitulares, e a própria organização do templo. A presença das 12 colunas remete à ideia de ordem, sustentação e universalidade, muitas vezes associada às 12 tribos de Israel ou aos ciclos completos, enquanto a corda de 81 nós (9x9) reforça a noção de totalidade, perfeição e fechamento iniciático dentro de uma lógica numérica recorrente no rito. Paralelamente, a forte presença da simbologia da cavalaria nos graus filosóficos (especialmente a partir do 4º grau) introduz valores como honra, dever, lealdade e disciplina, transformando o percurso iniciático em uma jornada de compromisso e responsabilidade.

 

Por essa razão, o REAA é frequentemente compreendido como um rito de caráter “militar”, não no sentido bélico, mas no sentido disciplinar e hierárquico, onde cada grau representa não apenas um avanço simbólico, mas uma responsabilidade assumida dentro de uma estrutura organizada, exigindo do iniciado postura, firmeza e consciência de seu papel dentro do sistema.

 

Mas, se sua estrutura é moderna, sua linguagem não é.

 

O REAA se sustenta porque fala através de símbolos que não pertencem a um único tempo. O Egito, por exemplo, não está presente como origem histórica, mas como ideia de conhecimento reservado. Não se trata de afirmar que a Maçonaria veio do Egito, mas de reconhecer que o símbolo egípcio representa o momento em que o saber deixa de ser público e passa a ser iniciático.

 

A Grécia, por sua vez, não entra como berço da filosofia, mas como disciplina. A geometria não é apenas medida — é limite. É o que ensina que a construção exige ordem. E isso, dentro do rito, é menos sobre arquitetura e mais sobre comportamento.

 

O Templo de Salomão talvez seja o maior exemplo dessa ressignificação. Ele não é utilizado como um evento histórico a ser lembrado, mas como um modelo simbólico de construção contínua. O templo não termina — e esse é justamente o ponto. O rito não forma homens prontos. Ele mantém homens em construção.

 

O hermetismo e a gnose entram nesse cenário não como doutrinas formais, mas como lógica. A ideia de que o conhecimento precisa ser vivido, experimentado e suportado está presente em cada etapa do percurso iniciático. Não se trata de acumular informações, mas de atravessar processos.

 

Já as influências cavaleirescas trazem algo que muitas vezes passa despercebido: responsabilidade. O cavaleiro não é aquele que sabe mais, mas aquele que responde melhor. E chega um momento no caminho maçônico em que o Irmão percebe que não está mais ali apenas para aprender — está ali para sustentar. As chamadas leituras interpretativas, como a cabala e o rosacrucianismo, ampliam ainda mais esse campo. Quando utilizadas com critério, enriquecem a compreensão. Quando utilizadas sem base, criam ruído. O rito não exige excesso de interpretação — exige coerência. E talvez esse seja o ponto central.

 

Os ritos maçônicos são diversos por uma razão. Cada um possui sua própria formação, suas influências, sua forma de execução ritualística e seu arcabouço histórico. Essa diversidade não é fragilidade — é riqueza. Mas exige responsabilidade. Não se trata apenas de praticar um rito, mas de compreendê-lo e respeitá-lo em sua integridade. Para nós, isso ganha um significado ainda maior. O Rito Escocês Antigo e Aceito é o rito onde os Macabeus do GOB-SP nasceram e se estruturaram. Estudá-lo não é apenas um exercício intelectual — é um ato de pertencimento. É reconhecer de onde viemos para entender como devemos caminhar. E, inevitavelmente, isso nos leva a uma última reflexão. Assim como hoje buscamos compreender as matrizes simbólicas do REAA, alguém, no futuro, fará o mesmo com aquilo que estamos construindo agora. Os registros que deixamos, a forma como conduzimos os trabalhos, o cuidado com o ritual — tudo isso será analisado.

 

Não somos apenas herdeiros. Somos também responsáveis.

 

Responsáveis por garantir que aquilo que recebemos com valor não se perca por descuido. E, mais do que isso, responsáveis por construir, com consciência, aquilo que um dia será chamado de tradição.

 

Porque, no fim, a história do rito não está apenas no passado.


Nota de Rodapé

[1] Gael Pereira dos Santos, 28 anos, é Mestre Instalado pelo Rito Escocês Antigo e Aceito, Venerável Mestre na gestão 2025/2026 da ARLS Macabeus nº 4239, jurisdicionada ao Grande Oriente do Brasil – São Paulo. Integra os Altos Graus do rito pelo Supremo Conselho do Brasil do Grau 33 para o REAA.

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