POR QUE FUNDAR UMA LOJA (MAÇÔNICA) DE ESTUDOS E PESQUISAS – LEP?
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Ivan A. Pinheiro[1]
POR QUE FUNDAR UMA LOJA (MAÇÔNICA) DE ESTUDOS E PESQUISAS – LEP?

Ciente de que eu havia produzido uma série de artigos publicados em forma de coletânea (Pinheiro, 2025a), um Irmão de Ordem, em salutar provocação, perguntou: mas por que fundar LEPs, afinal já não cabe às Lojas Simbólicas (LSs) estudar e pesquisar? Quais as vantagens das primeiras às últimas? Subjacente à sua curiosidade, ainda que de forma velada, suponho a existência de um misto de convicção e estranhamento, afinal, estudos e pesquisas (E&P) efetivamente integram as competências das LSs; a confirmação surge com um rápido passar de olhos pelas Constituições das Potências; o que, em princípio, tornaria desnecessária, inclusive porque onerosa, a fundação de mais uma espécie do gênero, as LEPs.
Eu não posso tirar a razão do meu interlocutor; inclusive, alinhado com o seu pensamento, em 2023 eu escrevi o texto intitulado “A Associação que abriga a Loja Maçônica: um espaço à criatividade, alcances e desdobramentos gerenciais”, no qual chamei a atenção para uma figura pouco explorada: as Associações Maçônicas, as irmãs siamesas das LSs. Conforme o título enuncia, com engenho, arte e alguma competência gerencial, muito pode ser realizado a partir das Associações, desde que, paralelamente à departamentalização das LSs, caracterizada pelos Cargos ritualísticos, seja instituída a departamentalização funcional que, ao contrário da primeira, poderia abrigar todos os Irmãos. À guisa de ilustração, de Pinheiro (2023c) transcrevo um trecho cujo entendimento, à luz do que ora se trata, é autoexplicativo:
Suponha-se, tal como sugerido anteriormente, que a Associação Buscadores da Verdade esteja constituída por três Departamentos; tudo, conforme já ressaltado, devidamente estatuído no seu Estatuto Social: 1) a Loja Buscadores da Verdade; 2) o Departamento de Estudos e Pesquisas Maçónicas (DEPM); e 3) o Departamento de Atenção aos Idosos (DAI).
Conforme se observa, a atuação dos departamentos (da Associação) está direcionada ao exercício das funções precípuas da Ordem Maçônica: 1) doutrina e ritualística; 2) E&P; e 3) filantropia. Não é o propósito, aqui, discorrer e esclarecer acerca de todos os conteúdos do texto, mas antecipo que são inúmeras as vantagens de, paralelamente às LSs, pensar e fazer das respectivas Associações efetivos braços operacionais e de apoio àquela que é a sua própria razão de ser e, por isto, a sua unidade (departamento) principal: a Loja Simbólica. A flexibilidade da Associação permitiria, por exemplo, que um Professor experiente e com título de Doutor, ainda que Aprendiz, integrasse o Departamento de E&P, assim como um Companheiro, profissional experiente junto às Organizações Não-Governamentais, os quadros do Departamento de Assistência Social, que poderia ou não ser dirigido pelo Irmão Hospitaleiro (em alguns Ritos referido como Elimosinário). Pouco afeita às inovações[2], ainda não encontrei quem, na Maçonaria, mesmo em caráter experimental, portanto submetido a acompanhamento e a avaliação, se dispusesse a colocar em prática esse ou qualquer outro modelo organizacional alternativo com vistas a aprimorar os trabalhos da Ordem.
A rigor, a proposta acima pode mesmo ser implementada de modo informal, com o aproveitamento de tudo o que já existe; mas, por certo, para “voos mais altos” — firmar parcerias, obter patrocínios, ser reconhecida como Organização Social de Interesse Público por parte dos governos, comercializar, etc. — teria que haver algum grau de formalidade — modificação estatutária. Assim, se considerados apenas a gênese idealizada e o quadro normativo que lhe sucede, não teria como discordar do meu interlocutor; todavia, não há como ir de encontro à realidade observada na Maçonaria brasileira, o que me faz, então, concordar apenas em parte com os seus questionamentos.
Considerando a organização tradicional da Maçonaria brasileira, penso que não é fora de propósito, e tampouco exagero, reconhecer a existência de um gap, difícil de mensurar, entre o que se espera (regimentalmente) e as entregas realizadas pelas Lojas Simbólicas (LSs). Só por isso, as LEPs, em vez de serem redundantes, parecem ser necessárias. Todavia, essa conclusão inevitavelmente conduz à justificação negativa das LEPs: elas passam a ser necessárias porque as LSs não estão cumprindo o que se espera delas, o que não se pode admitir com naturalidade, como se fosse o normal. Contudo, mesmo que as LEPs cumprissem a contento o seu papel, há um elenco de possibilidades que, ainda assim, conforme se pretende demonstrar, ficariam fora do seu alcance, o que justificaria a criação das LEPs. Por fim, na ausência de qualquer informação objetiva, ainda em caráter preliminar e genérico, é possível argumentar, em defesa, que uma unidade especializada — a LEP — tende a ser mais eficaz, eficiente e efetiva (EEE) no enfrentamento dos desafios pertinentes ao E&P do que uma entidade generalista — a LS.
Tendo em vista a melhor didática, procurou-se organizar as considerações em uma escala de 3 (três) níveis de análise: a Loja, a Região e a Potência. Entretanto, ocasionalmente, níveis (grupos) de interesse em objetos mais específicos podem ser identificados: Rito(s), História, Gestão, Assistência Social ou outro.
Quando frente a qualquer tentativa de delimitação, a Maçonaria é um campo que, com frequência, revela surpresas ao estudioso: externamente vista como uma instituição unitária e hierárquica, internamente se revela fragmentada (Potências, Corpus, Ritos, Lojas e membros) em partes, a começar pela sua base atomizada que reclama, com veemência, liberdade e autonomia; o que leva mesmo a um certo constrangimento nas relações que deveriam ser vistas como meros desdobramentos naturais ao longo de uma hierarquia. De outro lado, mas curiosamente na mesma linha, predomina a atitude passiva, sempre à espera, raramente propositiva, inovadora ou questionadora além de certos limites. Resulta: primeiro, que raramente as expectativas (ainda que criadas a partir do marco normativo) encontrem a sua expressão na realidade dos fatos; e, em segundo lugar, de regra “tudo [fica] como dantes no quartel de Abrantes". Trata-se, sem dúvida, de um obstáculo cultural a qualquer iniciativa à mudança, sobretudo quando percebidas e consideradas como efetivas ameaças aos usos e costumes (não os históricos, culturais, mas os das Lojas), independentemente de, se por anacronismo ou qualquer outro motivo, possam ser vistos como errados.
Quando eu ingressei na Maçonaria, em 2010, as reuniões ocorriam a cada semana, a seguir, a frequência passou a ser de 3 (três) encontros/mês e, ao final, já eram quinzenais. Dessarte, não será surpresa se, em breve, os defensores da frequência mensal venham a comemorar. Importante: as reuniões não precisam ser semanais, mensais, quinzenais ou obedecer a qualquer outra frequência rigorosa, mas o que definitivamente não cabe é aplicar o mesmo modus operandi — gestão[3] e agenda de trabalho — independentemente da frequência adotada para as sessões; a frequência é um elemento (variável) chave, daí que alterá-la implica repensar todo o sistema.
“Pressionada” por outras agendas — Iniciações, progressões de Graus, transmissão das Instruções compulsórias, sessões administrativas, comemorativas e outras em meio aos feriados, pois sempre os há — as atividades de E&P, quando existentes, tendem a ser minimalistas, o que leva a LS a acumular déficits de conhecimentos básicos acerca da sua própria doutrina, ritualística, liturgia, simbolismo do Rito, História (da Maçonaria e do Rito), da estrutura e funcionamento da Potência, etc. As consequências são imediatas, têm efeito cumulativo e em espiral descendente: o comprometimento da docência maçônica, também tornada minimalista, e, entre os discentes, um quadro de miopia maçônica, de visão de curto prazo, pela busca de conhecimento-soluções ad hoc, isto é, o necessário e suficiente para a entrega do trabalho do momento. Portanto, ou mudam-se os estatutos ou são criados mecanismos compensatórios, internos ou externos às LSs, a exemplo das LEPs. Essa é, pois, mais uma justificativa para a fundação e a disseminação de LEPs. Contudo, fazer o que as LSs não têm feito não é (ou não deveria ser) a razão de ser das LEPs.
Assim, ainda que superados os obstáculos mencionados (cronograma e modelo de gestão), historicamente, as LSs não são vocacionadas para o E&P, o que não significa que, em alguma medida e de algum modo, o estudo e a pesquisa, em meio a outras atividades, não coexistam nas LSs. Todavia, falta-lhes o que acima foi referido como o triple E que, por sua vez, é produto, pelo menos, de 2 (duas) circunstâncias: pessoal qualificado para a tarefa e o uso sistemático de métodos de pesquisa. Dessarte, o primeiro passo — suposto já existente um Projeto de Loja, com Visão, Objetivos, etc. —, sem dúvida, diz respeito às indicações para a seleção dos Quadros da Loja; assim, como desenvolver E&P se nem mesmo entre os indicados se encontram candidatos com o hábito de ler e escrever? E, por evidente, não estou a referir-me à leitura de 5 (cinco) ou 10 páginas de qualquer fonte, e tampouco ao preenchimento de formulários e à redação de memorandos profissionais. Trata-se, antes de tudo, de uma questão de coerência e lógica: não há como atingir os objetivos (diga-se: estatutários) se não estiverem disponíveis os recursos. Portanto, também por isso se justificam as LEPs que, como visto, podem ser instrumentos auxiliares e/ou compensatórios das limitações das LSs, ainda que circunstancialmente, como é razoável e de se esperar no caso das LSs recém-fundadas. De outro lado, das LEPs se espera que se selecionem os melhores entre os vocacionados, experientes ou não, desde que o Quadro identifique potencial a ser desenvolvido.
Em Pinheiro (2025a) sugiro, inclusive, que se proceda à busca ativa e à seleção por edital, tudo à luz de um projeto que, por sua vez, deve[4] estar alinhado ao planejamento estratégico da Potência. Por exemplo: idealmente, uma LEP deveria reunir estudiosos proficientes nos Ritos adotados pela Potência à qual está jurisdicionada ou, pelo menos, os praticados no que poderia ser reconhecido como a sua região de influência, no perímetro no qual recrutará os seus membros. O descuido a esse “detalhe”, me parece, é o responsável por muitos trabalhos (supostos revisados pelos demais integrantes da Loja) afirmarem que “a Maçonaria é ...”, quando, em razão da diversidade entre os Ritos, o melhor seria fazê-lo com ressalvas e especificação do Rito — tome-se, por exemplo, o Rito Escocês Retificado e o Rito Moderno: as diferenças são tão acentuadas que custa admitir que sejam espécie do mesmo gênero, vide Pinheiro e Piva (2024, 2025).
Em síntese, a primeira justificativa para a criação e a expansão das LEPs, independentemente dos motivos específicos, diz respeito às limitações fáticas e intrínsecas às LSs.
As consequências da realidade delineada já há tempos se fazem perceber na Fraternidade, onde, com naturalidade, senão tudo, quase tudo tem sido aceito sob o argumento de que “a Maçonaria é uma trajetória individual, onde cada um tem o seu tempo e o momento certo para evoluir” (Pinheiro, 2023a). Sim, a aprendizagem é um processo individual, íntimo até, pois a ninguém é dada a condição de aprender pelo outro, sobretudo na perspectiva que efetivamente importa, a da gnose, e tampouco a sucessão de Graus é uma corrida de velocidade. Mas isso, em absoluto, não elide a responsabilidade dos mais experientes, Mestres e Mestres Instalados, de atuarem proativamente na disponibilização de conhecimentos, na orientação personalizada, indicando fontes bibliográficas confiáveis, sobretudo para os iniciantes, bem como não pouparem esforços na provisão de todo e qualquer meio para iluminar as trajetórias.
Sabe-se que, no Brasil, há Potências que têm desenvolvido trabalhos de tutoria e mesmo de mentoria, todavia, desconheço estudos estruturados e publicados sobre esta experiência (planejamento, proposta, desenvolvimento, acertos, ajustes, estágio atual do desenvolvimento, enfim, a avaliação do processo)[5]. Pinheiro e Dutra (2025), sob o guarda-chuva da andragogia, reuniram as questões preliminares do tema. A julgar pelas evidências já captadas por E&P, é preciso evitar que as tutorias e as mentorias não sejam apenas compensações à omissão dos Padrinhos — alguns, mais preocupados com o quantitativo e as condições econômico-financeiras da Loja do que com o compromisso e o oferecimento aos afilhados —, quando, de fato, todos (Padrinhos, mentores e tutores e demais Mestres) deveriam operar conjunta e complementarmente. Por fim, a tutoria e a mentoria se aplicam tanto às LSs quanto às LEPs e, por que não, aos Altos Graus? Nesses últimos, tudo se passa como se a plenitude maçônica, efetivamente, tivesse sido atingida no Terceiro Grau — Mestre.
Foi mencionado, de modo até reiterado, que as LEPs vocacionadas, dedicadas e com maior disponibilidade de tempo para o desenvolvimento de conhecimentos específicos podem colaborar com as LSs; portanto, a questão que de imediato se coloca é: como? Há diversos mecanismos que podem atuar como efetivos eixos de transmissão de conhecimentos.
Preliminarmente, é preciso ter em conta que o Quadro Efetivo das LEPs é constituído por Mestres ativos e, salvo exceções, provenientes das LSs jurisdicionadas à mesma Potência. A depender de vários aspectos, internos (vontade e iniciativa) ou externos à LEP (marco regulatório), ela poderá contar ainda com membros colaboradores, associados, honorários ou afins, Iniciados ou não; e porque sobre estes não pesam as mesmas exigências (frequência, pagamentos de taxas, etc.), eles não dispõem das mesmas prerrogativas (a exemplo de votar e ser votado para o exercício de cargos, etc.) reservadas aos membros efetivos. Todavia, essa é uma das principais “portas de entrada” para firmar parcerias e promover a busca ativa de talentos complementares ao Quadro Efetivo, tudo, é claro, orientado por um projeto de Loja.
Ademais, é preciso abandonar a ilusão (por sinal, conveniente) da geração espontânea, o que significa que todos os projetos e processos devem ser gerenciados, se alguém não formar à frente, nada acontece - a inércia deixada a si mesma, de regra, não tem o condão de fazer a potência passar ao ato e, quando chega a fazê-lo, pode ser o sinal de esgotamento ou já ser demasiado tarde.
Feitas essas considerações, na relação das LEPs com o ecossistema maçônico há inúmeros mecanismos de transmissão que, na ausência da manifestação espontânea, poderão ser provocados, seja para atuação solo ou consorciada:
1. naturalmente, cada integrante da LEP, no âmbito da sua LS é um potencial disseminador da sua expertise, mas também dos saberes adquiridos no convívio com integrantes da LEP – as grandes questões (doutrinárias, ritualísticas, etc.) em discussão na Ordem, bibliografia, eventos, editais, etc. Se o eixo tende a agir por inércia espontânea no caso de tutorias, é possível que a oferta de palestras demande provocação. Todavia, desde já e também no âmbito interno, é preciso estar atento ao ciclo de gestão; assim, o efeito ou o resultado esperado das iniciativas será nulo ou pífio se a LS não proceder ao acompanhamento, sobretudo daqueles para os quais a apresentação foi especialmente dirigida;
2. as LEPs podem ser convidadas ou contratadas para apresentar ou mesmo desenvolver temas de interesse específico, seja de uma ou para um pool de LSs localizadas na mesma região, praticantes do mesmo Rito, para determinado Grau, etc. O advento do espaço virtual, ao derrubar as barreiras geográficas, tornou ilimitado o alcance desta possibilidade; assim, a única barreira para a disseminação do conhecimento de LEP especialista – vista como a Referência - em uma determinada área ou tema, passa a ser o idioma ou fuso horário;
3. a difusão das salas virtuais não só alavancou o potencial das palestras e debates até então presenciais, como descortinou um novo horizonte de oportunidades: a promoção de seminários e congressos; a oferta de serviços, a exemplo de cursos regulares de curta ou média duração; reuniões para deliberação sobre projetos de pesquisa, coletar dados mediante entrevistas, etc.;
3.1. contudo, é importante não perder de vista que o convívio presencial é elemento indissociável da Maçonaria histórica, o que leva a sugerir, quando a situação permitir e convier, o planejamento de eventos com fases e ciclos virtuais intercalados ou seguidos de um fechamento presencial, seja local, na microrregião, estadual ou mesmo de âmbito nacional – são momentos mágicos para o estabelecimento de parcerias duradouras;
4. as novas condições tecnológicas facultam o reposicionamento das LEPs: ao invés de espaços nos quais cada um se dedica apenas ao que melhor lhe aprouver[6] ou fica Esperando Godot[7], podem vir a ser polos mais do que ativos, proativos. Não haveria prejuízos, justo o contrário, somente ganhos a capitalizar, se às LEPs fossem aplicadas ferramentas de gestão usuais no ambiente corporativo: objetivos, metas, acompanhamento, controle, avaliação, reconhecimento, etc. A Gestão da Produção, assim como a da Qualidade Total e do Marketing, é uma das áreas da Administração que dispõe de ferramentas de fácil usabilidade na Maçonaria. E é importante que se ressalte: não se trata, aqui, de um excesso de gerencialismo, mas do esforço para otimizar os meios com o intuito de aumentar a disponibilidade de tempo e demais recursos às finalidades precípuas da Ordem, como prover conhecimentos, desenvolver o pensamento crítico, alavancar potencial mediante o uso de instrumentos específicos[8], bem como explorar as oportunidades para que realizem as viagens aos seus respectivos interiores – um exemplo simples deste esforço, acessível a todos, pode ser visto em Pinheiro (2025b) – ensaios e memorização – outro, mais elaborado, em Pinheiro (2023b);
4.1. otimizados os meios, as LEPs, seja por impulso próprio, mediante ausculta às LSs ou à administração da Potência, podem desenvolver portfólios de produtos e serviços: tradução de livros; elaboração de resenhas; orientação em geral (para sindicância e seleção de quadros, exercício de cargos, organização e funcionamento de novas LEPs, etc.); apoio a eventos (seminários regionais e afins); E&P relacionados à doutrina, à ritualística, etc.;
5. a Gestão das LSs, assim como quase tudo o que diz respeito às iniciativas pertinentes à Assistência Social, são campos de E&P praticamente inexplorados pelas LEPs, sempre ocupadas com as questões históricas, simbologia, doutrina e ritualística. Ora, ainda que seja uma obviedade, não custa lembrar que, sem uma boa gestão, as boas intenções podem ser comprometidas. Assistência Social, um dos pilares da Maçonaria, em hipótese alguma, poderia ser relegada ao segundo plano – um exemplo de E&P sobre o tema pode ser visto em Pinheiro e Dutra (2023). Por oportuno, para que as iniciativas ultrapassem o mero caráter da doação, não raro os programas sociais (transformadores) necessitam de escala e continuidade, o que remete à conveniência de parcerias estáveis, compromissos e ações articuladas A propósito, ao “cobrar” uma “cesta básica” para compartilhar (mediante palestras) o produto dos seus E&P, o Irmão M. Winetzki, Presidente da Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras, a exemplo de outros, demonstra como 2 (dois) dos pilares da Ordem podem andar no mesmo compasso - que as ações beneficentes não se limitam às LSs;
5.1. as LEPs que se dispusessem a identificar e analisar as práticas (leia-se: todos os processos - aquisição e guarda de material, preparação do Templo, comunicação interna, externa, eventos, orientação, etc.) adotadas pelas LSs jurisdicionadas à Potência, ainda que às circunscritas ao entorno, e, criteriosamente, apontar as melhores, prestariam um grande serviço à comunidade;
5.1.1. nessa atividade, as LEPs podem trabalhar conjuntamente com cada LS, auxiliando-as a “colocar no papel” as suas práticas, desde o planejamento do E&P, com a definição das categorias e variáveis objeto do estudo (quanto tempo cada sindicante dedica à atividade, qual a duração média das Iniciações, etc.?), até a elaboração do Relatório. O trabalho pode seguir a linha do tempo: antes era assim, foi adotado um novo procedimento até que, finalmente, chegou-se ao atualmente em uso;
5.1.2. em complemento, à LEP caberia reunir, analisar e relatar os casos, sugerindo ou não, porém criteriosamente, a melhor prática. O intuito, antecipa-se, não é gerar competição, mas antes aprender com os erros e acertos do outro para, quando possível, queimar etapas no processo de aprendizagem, etc. Trabalhos dessa natureza, sistematizados, são de grande utilidade sobretudo para as Lojas iniciantes;
5.2. é o momento, pois, de chamar a atenção para o papel da Administração da Potência: assumir a augusta postura do laissez-faire, laissez-passer, em respeito à liberdade e à autonomia sempre reclamadas ou atuar com vistas a coordenar esforços e ser um agente indutor?
5.2.1. Neste contexto, a base de dados com os registros de todos os membros jurisdicionados à Potência passa a ser vista como uma verdadeira mina a ser explorada para gerar informações auxiliares à Gestão e à Assistência Social, tudo, é claro, sem transgredir a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais;
5.2.2. estudos de perfil (idade, formação escolar, profissional, ingresso e progressão na Ordem, abertura/fechamento/regularização de Lojas, evasão, etc.) seguidos do corte e do cruzamento de dados/região, por Rito, eventos (antes ou pós-pandemia, mudança de gestão), etc., podem subsidiar decisões sobre o que fazer, como, priorização, etc., no que tange aos principais pilares da Ordem, seja na perspectiva da LS, de uma região ou da jurisdição. Nada impede e, salvo melhor juízo, só haveria vantagens se as LEPs, preservada a sua independência intelectual, fizessem da sua expertise um braço auxiliar à gestão da Potência e atuassem em colaboração com as Secretarias Ritualísticas;
6. cada LEP, per se, com engenho, arte, iniciativa e liderança da Administração, pode vir a ser uma usina geradora e transmissora de conhecimentos. Já o universo de possibilidades, assim como os resultados e o alcance das repercussões poderão, sobremaneira, ser ampliados e alavancados a partir da formação de parcerias e do estabelecimento de redes de cooperação regionais, estaduais ou nacionais;
6.1. nesse nível, o papel da Potência adquire valor singular:
6.1.1. primeiro, porque ao conferir o reconhecimento necessário, facilita e agiliza a aproximação entre as Lojas em geral, LSs ou LEPs, sobretudo se no exterior;
6.1.2. mas também porque ela pode estimular a participação dos Quadros em geral nos levantamentos e E&P conduzidos pelas LEPs ou mesmo pelos maçons-pesquisadores independentes que sempre enfrentam “a questão do sigilo”, da “falta de autorização”, inclusive dos VMs junto aos seus Quadro;
6.2. o custo dos recursos e das soluções tecnológicas (sites, plataformas, aplicativos, etc.) aponta, também, no sentido da colaboração ativa da Administração das Potências em várias etapas do trabalho das LEPs – da geração à difusão do conhecimento;
7. no que tange à produção escrita para submissão aos periódicos ou aos editais, ou mesmo para somente compartilhar junto à comunidade, a LEP não só, naturalmente, é um foco gerador de produção coletiva, como pode, nas iniciativas solo, exercer um importante papel na qualificação preliminar dos trabalhos: o de primeiro revisor temático, normativo, ortográfico, gramatical e que mais.
Como se procurou demonstrar, as LEPs não se confundem e muito menos concorrem com as LSs; ao contrário, são naturalmente complementares; todavia, ambas dependem de iniciativas para a geração e a acumulação de sinergias. Isso porque o rol das oportunidades abertas à exploração só encontra limite quando frente à falta de vontade, de iniciativa, empenho, engenho e arte dos envolvidos ao longo de uma cadeia de parcerias e responsabilidades que tem início nas Lojas; mas mesmo na mais absoluta falta de iniciativa e colaboração dos demais elos, há ainda um universo de possibilidades a ser explorado. E salvo melhor juízo, o que parece ser indesejável, merecedor portanto de todos os esforços no sentido a evitar, é que as LEPs substituam as LSs nas suas competências (básicas) de E&P, o que não só seria (é?) frustrante para todos (LSs e LEPs) e em vários aspectos (como é o caso do desenvolvimento pessoal e da contribuição à comunidade), bem como oneroso (tanto para os membros quanto para as Potências que subsidiam as atividades das LEPs).
Outro ponto a ser evitado é foco excessivo e acrítico sobre aspectos históricos já largamente disponibilizados na literatura – o que significa dizer: fazer mais do mesmo, reinventar a roda, chover no molhado, etc. O que se espera das LEPs é a geração de novos conhecimentos, seja pela abordagem original, pelo arranjo de domínios de conhecimento (psicologia, literatura, história, filosofia, direito, neurociências, etc.), pela ressignificação dos símbolos trazidos à contemporaneidade, às respectivas realidades, etc. As LSs, assim como as LEPs, devem ser como Janus (um olhar voltado à Tradição, o outro à Inovação-Renoção), embora, no caso brasileiro, a balança, indubitavelmente, já há tempos, tenda à Tradição.
Por fim, há uma expressão que eu o Lucas, Irmão de Ordem e parceiro em diversos empreendimentos, temos utilizado com frequência e cujo locus, por excelência, são as LEPs: em largo senso, um dos principais objetivos da Maçonaria deveria ser o desenvolvimento do pensamento crítico aplicado - a partir da doutrina e do simbolismo, ganhar extensão sobre os demais domínios do cotidiano, das relações pessoais, familiares e profissionais ao mundo sociopolítico, jurídico, da geopolítica, das transformações tecnológicas, no mundo do trabalho, etc.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Notas de Todapé
[1] MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 13.03.26. O autor não só agradece a leitura e as considerações do Irmão Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP - Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com, como também reafirma a responsabilidade pelos erros e omissões remanescentes
[2] Basta uma consulta aos livros de História para constatar as inúmeras mudanças pelas quais passou a Maçonaria, inclusive a brasileira. Um dos exemplos mais surpreendentes foi a adoção das ferramentas digitais, como é o caso das reuniões virtuais: foi necessária uma pandemia – a CoViD - para vencer as resistências.
[3] Conjunto de todas as atividades, processos e projetos institucionais que, para fins didáticos, são habitualmente reunidos em 4 (quatro) grandes momentos (etapas): Planejamento, Organização, Direção e Controle. Para os fins deste trabalho, sem prejuízo, as divergências e os termos correlatos à expressão (gestão) encontrados na literatura podem ser ignorados.
[4] Embora, vez por outra, o texto se apresente como prescritivo-normativo, a intenção não é sê-lo. De outro lado, custa crer, apesar de as informações disponíveis levarem a fazê-lo, que a abertura das LEPs não tenha outros objetivos que não os de, apenas, figurar nas estatísticas do Balanço anual das Potências.
[5] Eis aqui uma excelente oportunidade de E&P!
[6] Neste caso, aí sim cabe a pergunta: qual o sentido, por que criar uma LEP se as iniciativas continuam predominantemente individuais? Sobre o individualismo e o insulamento das iniciativas de E&P, vide, por exemplo Pinheiro (2026).
[7] Os que desconhecem a expressão podem acessar a obra em https://comumlugar.wordpress.com/wp-content/uploads/2008/07/samuel-beckett-esperando-godot.pdf ou apreciar a resenha crítica em https://www.youtube.com/watch?v=Ig5gIvVil3U. Acesso em 25.02.26.
[8] A título de ilustração, a Meditação, assim como o Ioga, a depender do Rito, podem ser considerados instrumentos do maçom.




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