top of page

UMA ABORDAGEM INICIÁTICA DA MAÇONARIA: O SEGREDO E O VITRIOL

  • 10 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Por Izautonio da Silva Machado Junior

 

UMA ABORDAGEM INICIÁTICA DA MAÇONARIA: O SEGREDO E O VITRIOL


“A tarefa mais difícil para um homem comum é guardar um segredo e permanecer em silêncio” (Aristóteles – 384-322 A.C)

O segredo é substância componente do aspecto iniciático da Maçonaria. Em todos os graus desde a Iniciação, é exigido dos candidatos o compromisso solene do segredo, mediante juramentos contendo admoestações e penalidades simbólicas em caso de sua violação.

 

Essas virtudes constituem a própria essência de todo o caráter maçônico; eles são a salvaguarda da Instituição, dando a ela toda a sua segurança e perpetuidade, e são impostas por admoestações frequentes em todos os Graus, do mais baixo ao mais alto. O Aprendiz Admitido começa sua carreira maçônica aprendendo o dever de segredo e silêncio. Assim, é apropriado que nesse Grau que é a consumação da iniciação, em que todo o ciclo da ciência maçônica seja concluído, a máquina abstrusa do simbolismo deve ser empregada para impressionar as mesmas virtudes importantes na mente do neófito ou recém-chegado. Os mesmos princípios de sigilo e silêncio existiam em todos os antigos mistérios e sistemas de adoração. (Albert G. Mackey, Enciclopédia da Maçonaria)

 

A prática do segredo como aspecto iniciático remonta às Escolas de Mistérios da Antiguidade. Os conhecimentos mais profundos do esoterismo sempre foram ocultados dos olhos profanos, sendo acessíveis apenas a poucos escolhidos, pessoas que reuniam as qualidades intelectuais, morais e espirituais necessárias para se tornar um fiel guardião dos segredos e mistérios da humanidade.

 

Na Antiga Grécia, encontramos diversas passagens históricas e lendárias em que o segredo sempre é encontrado em lugar de destaque.

Os Mistérios de Elêusis, por exemplo, eram ritos de adoração às divindades agrícolas Démeter e Perséfone. Tinha esse nome porque seus rituais ocorriam em Elêusis, local próximo de Atenas. Acredita-se que os ritos praticados nestes Mistérios estão entre os de maior importância entre todos os que se celebravam na antiguidade. Os seus rituais e crenças eram praticados e ensinados em segredo, transmitidos apenas aos Iniciados. Segundo a tradição, na Iniciação àqueles Mistérios, o sacerdote (mistagogo) colocava uma chave de ouro sobre a língua dos Iniciados, para simbolizar o Segredo que deveriam respeitar, sob pena de uma certa penalidade, assim como um sinal gestual representava este compromisso.  

 

Na Escola Pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos, se estudava matemática e física - então consideradas ciências sagradas. Seus discípulos eram obrigados a passar por um penoso estágio, onde permaneciam em silêncio durante longos períodos, às vezes até cinco anos, durante os quais não se podia falar, apenas ouvir. Era o chamado Grau Acústico, de preparação para o acesso a conhecimentos mais avançados.

 

De outro giro, a existência de locais secretos, assim como criptas escondidas sob grandes estruturas é conhecida historicamente.  Registre-se que muitas vezes as cavernas ou espaços subterrâneos serviram de lugares usados pelos mais diversos povos para a prática de cultos sagrados, de orações e iniciações nos Mistérios.

 

Em alusão a esta tradição, alguns ritos maçônicos fazem uso de uma Câmara de Reflexão, cuja finalidade é preparar o candidato e induzi-lo a refletir sobre a finalidade da vida e sua temporalidade, para que o neófito experimente uma morte simbólica da vida atual (escuridão e ignorância) e renasça para uma nova vida (luz e virtude).

 

De acordo com interpretações rosa-cruzes, algumas criptas existentes nas antigas pirâmides do Egito também foram utilizadas para esta mesma finalidade, sendo cofres acima do solo especialmente construídos para a realização de Iniciações nos Antigos Mistérios.

 

As criptas, nesta linha de interpretação místico-iniciática, foram usadas como símbolo de sepultura e local para o renascimento, onde a verdade divina poderia ser descoberta. O objetivo era de que o ambiente (o local físico) pudesse influenciar o psiquê do neófito, propiciando-o um despertar e a internalização de lições simbólicas frutos da iniciação.

 

Nesse sentido, ritualistas maçons influenciados por elementos de cunho esotérico adotaram em ritos de matriz latina o uso da fórmula alquímica V.'. I.'. T.'. R.'. I.'. O.'. L.'., sigla latina que significa “Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem” [Visita o interior da terra; retificando (purificando), encontrarás a pedra oculta], presente na Câmara de Reflexão.


VITRIOL

 

A expressão “Pedra Oculta” remonta à Idade Média e alude ao simbolismo alquímico, possuindo dois sentidos. No sentido material seria uma substância com o poder de transformar metais em ouro ou prata; era a panaceia universal, remédio para curar doenças e o elixir de longa vida. No sentido espiritual seria um estado de purificação moral e intelectual, uma transformação espiritual ou mental. Nesse mesmo contexto, surge a interpretação esotérica de que no âmago do homem encontramos a nossa Pedra Oculta, a nossa essência d’alma, o nosso Eu oculto. Esta Pedra encontra-se em uma Câmara Secreta no centro de nosso Ser. Ao penetrarmos nessa Câmara, poderíamos acessar e revelar o Eu Sou, nosso aspecto divino.

 

A análise das tradições antigas, das simbologias esotéricas e das práticas ritualísticas que permeiam a Maçonaria evidencia que a prática do segredo não é mera formalidade vazia. Desde os Mistérios da Antiguidade até as modernas Câmaras de Reflexão, o objetivo permanece o mesmo: conduzir o indivíduo para dentro de si, para o âmago onde repousa sua Pedra Oculta, símbolo do Eu profundo e da verdade essencial.

 

O caminho iniciático ensina que a verdadeira sabedoria não se encontra nos alardes externos, mas na capacidade de escutar, observar, refletir e trabalhar silenciosamente sobre si mesmo. O silêncio, longe de ser ausência, é presença: presença da consciência, da responsabilidade e do compromisso com a luz que progressivamente se revela.

 

Assim, ao compreender o simbolismo do V.'. I.'. T.'. R.'. I.'. O.'. L.'. e da Câmara Secreta, o Maçom é convocado a empreender a mais difícil jornada: a viagem interior, a alquimia da transformação e a busca pela perfeição, meta máxima da existência humana.

 

Izautonio da Silva Machado Junior

ARLS Obreiros de Ferro nº 02

Grande Oriente de Rondônia (GOR/COMAB)

 

FONTES DE CONSULTA

 

ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Londrina: Ed. Maçônica “A Trolha”, 2012.

 

ASLAN, Nicola. Instruções para Lojas da Perfeição II (Graus 4º ao 14º). Rio de Janeiro: Editora Maçônica, 1992.

 

DA CAMINO, Rizzardo. Rito Escocês Antigo e Aceito 1º ao 33º. São Paulo: Ed. Madras, 1999.

 

DAZA, Juan Carlos. Diccionario de La Francmasonería. Madrid: Ed. Akal, 1997.

 

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria. São Paulo: Ed. Pensamento, 2002.

 

ISMAIL, Kennyo. Ahiman Rezon: a constituição dos maçons antigos de Laurence Dermott. Tradução: Kennyo Ismail. Londrina: Ed. Maçônica “A Trolha”, 2016.

 

MACKEY, Albert Gallatin. Enciclopedia de la Francmasonería. México: Ed. Grijaldo, 1981.

 

Ritual do Gr.'. de M.'. Secreto. Aprovado e adotado em 1925. Rio de Janeiro: Sup.'. Cons.'. do Gr.'. 33 do R.'. E.'. A.'. A.'. da Maçonaria para a República Federativa do Brasil, 2006.

 

PACHECO JUNIOR, Walter. Uma visão global dos 33 graus do REAA. São Paulo: Ed. Madras, 1995.

 

 

Comentários


bottom of page